Um estudo da UFMG aponta que Belo Horizonte poderia necessitar, já nesta quarta-feira (8), de 15 mil leitos para tratamento da Covid-19, caso a cidade não tivesse tomado atitudes rígidas de isolamento social. O número é mais que o dobro da capacidade atual, que é de sete mil unidades. A projeção reforça a importância do não-afrouxamento das ações de distanciamento social, caso contrário poderá ocorrer elevado número de mortes por falta de assistência médica.

Divulgado nesta quarta, esse é o segundo relatório feito na instituição para acompanhamento da evolução da pandemia na capital mineira. O documento mostra que o comportamento da população entre os dias oito e 18 de março foi fundamental para reduzir consideravelmente a projeção de necessidade de leitos no período de pico da doença causada pelo coronavírus em BH.

Nessa ocasião, não havia ainda o decreto municipal, que passou a valer no dia 23 de março e que restringiu o funcionamento do comércio de serviços não essenciais na cidade. Ainda assim, instituições, como a UFMG, já haviam suspendido aulas, o que resultou positivamente na queda na circulação na cidade e, portanto, na redução na previsão de leitos necessários de 90 mil no fim de março para os atuais 15 mil.

O número, segundo Ricardo Hiroshi Caldeira Takahashi, coordenador da pesquisa, naturalmente ainda é alto e muito acima do que a cidade tem capacidade de dar conta. "Isso significa que os moradores de BH e o poder público devem manter as recomendações e restrições de circulação", disse. Nesta quarta, Kalil anunciou um decreto para fechar todos os estabelecimentos não essenciais da cidade.

De acordo Takahashi, uma terceira projeção do número de leitos necessários deverá ser feita na próxima semana, já com dados que contemplam o período em que o isolamento social foi instituído em BH.

A expectativa é que a projeção caia, o que é uma boa notícia. No entanto, conforme reforçou o especialista, quaisquer atitudes de afrouxamento do distanciamento social - como passeios em praças, que têm sido vistos em BH, podem significar a reversão do quadro, com aumento de casos e esgotamento do sistema de saúde e, por consequência, alto número de mortes por falta de atendimento médico.

"Nossas análises são capazes de medir efeitos de ações, quaisquer que sejam elas, com cerca de 12 dias de atraso. Assim, um 'relaxamento' em curso só vai começar a apresentar consequências no número de infectados dentro de cerca de 12 dias, no número de leitos hospitalares necessários em 15 dias e nas estatísticas de fatalidades em 25 dias. Enfim, trata-se de um fenômeno muito contraintuitivo para o senso comum, e essa é uma das grandes dificuldades na tarefa de comunicação desse problema", explicou Takahashi. 

O estudo

A pesquisa 'Análise do efeito das medidas de contenção à propagação da Covid-19 em Belo Horizonte (23/03 a 29/03)' foi feita por 30 pesquisadores de diferentes instituições de ensino e pesquisa mineiras, que foram liderados pelo Departamento de Matemática do Instituto de Ciências Exatas da UFMG. O objetivo do estudo é projetar cenários para que o poder público tome decisões corretas durante o controle da pandemia.

Segundo Takahashi, o segundo estudo, divulgado nessa quarta, foi feito com base em duas metodologias, que previram, a grosso modo, 'o pior e o melhor dos cenários' para a expansão da disseminação do coronavírus em Belo Horizonte. A pesquisa levou em conta dados epidemiológicos da capital mineira, como as taxas de transmissão e de casos reportados e não-reportados; em junção com outros, universais, como o período de incubação da doença, de duração de sintomas e de tempo médio de hospitalização.

Um dado que não foi possível 'importar' foi a taxa de notificação de casos. Segundo o pesquisador, a China estima que 14% dos seus casos totais para a Covid-19 foram notificados. No Brasil, o número é menor: apenas entre 4 e 6% dos casos foram notificados.

"Devido aos poucos dados existentes em BH, alguns dados precisaram partir de um ajuste da curva do Brasil, a partir da suposição de que eram dados uniformes", afirmou Takahashi, ao lembrar que o estudo é uma projeção e que, portanto, tem margem de erro. Entre as projeções, duas metodologias foram utilizadas, sendo que, em ambas, a expectativa é de número alto de leitos necessários em caso de isolamento reduzido. Veja abaixo:

  • Método de ajuste de curva: entre 7 e 15 mil leitos necessários;
  • Método com simulações aleatorizadas: entre 5 e 14 mil leitos necessários.

Estudo tem sempre um 'atraso'

Conforme explicou o pesquisador, o estudo, embora muito preciso, não representa o momento atual em que BH está. O motivo é a própria dinâmica da doença e dos seus registros. Isso porque entre o momento em que uma pessoa tem contato com o vírus, e aquele em que manifesta sintomas, e busca por serviço de saúde, e faz a testagem, recebe o resultado e ele é incluído nas estatísticas governamentais, soma-se um período de, pelo menos, 12 dias.

Na prática, nesta quarta-feira (8), segundo o pesquisador, dez dias após a adoção das normas que alteram o funcionamento dos serviços em BH, ainda não se sabe quais são os efeitos essas normas tiveram na contagem de novos casos da Covid-19.

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