“Entre a fé e a razão”. Assim vai enfrentando este cenário de pandemia pelo novo coronavírus Ilza Ramos de Jesus Aguiar, de 32 anos, mãe do pequeno Pedro Ramos, de dois anos e sete meses, um dos cerca de 500 pacientes do setor de Nefrologia da Santa Casa que teve a rotina afetada pelo risco de contagio com a Covid-19.

“Hoje (ontem), conversando com a psicóloga na Santa Casa, ela me perguntou sobre como tenho encarado esses novos tempos. Em relação à ansiedade, não mudou muito. Sei de tudo o que já passei. Os dois primeiros meses do Pedro foram no CTI. Já fez muitas cirurgias do trato urinário. Já vi meu filho muito mal, entre a vida e a morte, dele apagar nos meus braços. Toda a situação não me causa tanta aflição. Mas sem dúvida, os cuidados são reforçados e a rotina foi sim alterada”, afirma Ilza, que três vezes por semana saí de Juatuba, a cerca de 60 quilômetros de Belo Horizonte, para que o filho possa fazer a hemodiálise na Santa Casa.

Silvia Helena paciente do setor de Nefrologia da Santa CasaSilvia Helena, três vezes por semana, deixa Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, para fazer hemodiálise no setor de Nefrologia da Santa Casa

A mudança de rotina relatada por Ilza é sentida de forma significativa por Silvia Helena Serino, de 51 anos, que é enfermeira e também vive a rotina de diálise na Santa Casa três vezes por semana: “Como eu sou renal crônico, tenho a imunidade comprometida. A ansiedade é maior para sair de casa (ela mora em Betim). Não saio para nada, mas à hemodiálise tenho de ir. Antes ia de Uber, mas agora necessitou um esquema na família. Alguém me leva e meu filho me busca. Tive de deixar o carro de aplicativo de lado. Minha rotina mudou totalmente. Tinha mais independência, fazia compras, mas agora não tem mais isso. Uso máscara quando saio, tenho muitos cuidados, álcool gel na bolsa, mas a gente não pode ficar sem fazer o tratamento. O sangue não filtra, o rim não funciona. Passamos muito mal”.

Dupla ansiedade

No caso de Silvia Helena, a ansiedade provocada pela pandemia tem outro ingrediente, que é a expectativa pelo transplante, pois sua irmã, Adriana, três anos mais jovem, é compatível com ela, mas a cirurgia teve de ser adiada.

“Estou na fila receptora de um rim. Deu uma atrasada no meu processo, pois minha irmã é 100% compatível, mas neste momento, as cirurgias eletivas estão suspensas. O processo da minha irmã aconteceu no meio do ano passado, mas eu não estava bem clinicamente. Tive de me recuperar, em novembro tive apendicite, atrasou ainda mais. Agora, com a Codiv-19, as cirurgias foram suspensas. É uma questão de bom senso, a gente entende. A gente vai se cuidando”, revela Silvia Helena.

“É uma dupla ansiedade, que vivo, sem dúvida, por esperar o transplante e ter de sair de casa, um risco que não tem como escapar. Não posso deixar de ir à Santa Casa. Os médicos avisam para usar máscara, se proteger. A gente faz tudo, mas não deixa de ser um processo diferente, uma rotina ainda mais rígida”, afirma a paciente.

A definição da situação é bem clara para o médico Gustavo Capanema, responsável pelo setor de Nefrologia da Santa Casa: “é uma angústia para todos, profissionais de saúde, inclusive. Estamos lidando com um agente infeccioso novo. É de uma família de vírus já conhecida, mas ele é mudado. Se comporta como uma doença nova. Ninguém tem imunidade contra ele. Estamos aprendendo online. À medida que vamos vendo os resultados. O Brasil colhe vantagem por estar um pouco atrasado do epicentro. As informações de outros locais nos ajudam a não cometer os equívocos que foram cometidos. Isso pode aliviar um pouco”.

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