Um áudio compartilhado pelo WhatsApp em grupos de mães e pais resume bem a situação enfrentada por quem, às voltas com o home office, se depara com uma infinidade de tarefas escolares para fazer com os filhos enquanto dura a quarentena. E o pior, eles acham que estão de férias!!! Mas as escolas cobram como se houvesse aula para cumprir carga horária. Já tem mãe chamando o homeschooling (educação domiciliar) de hellschooling (escola do inferno, em tradução livre). Mas o processo pode ser menos traumático. Vamos às estratégias!

Com a quarentena, as crianças são demandadas a adquirir o hábito de estudo em um ambiente que, na maior parte do tempo, está relacionado ao descanso e lazer. E a nova rotina exige que os pais conciliem o ensino escolar a outras tarefas diárias. No meio de brinquedos, computadores e outras atividades 'mais prazerosas', os estudantes precisam estabelecer uma nova rotina. Neste caso, a dica é tentar (sempre que possível) tornar a tarefa um momento em família, além de definir um cronograma.

Alineh Coelho Dederich Nelson e Artur

Fonoaudióloga Alineh Coelho Dederich Nelson acompanha bem de perto o filho Artur 

 

A fonoaudióloga Alineh Coelho Dederich Nelson precisou adaptar a rotina da família aos cronograma de estudos do filho Artur, 10 anos, que estava na escola integral. Segundo ela, o maior desafio é conscientizar o filho a usar a internet para os estudos.

"Antes, era uma ferramenta usada para o lazer. Agora, ela tem uma finalidade maior que é o aprendizado. Eles têm de entender que não estão de férias, nem num final de semana prolongado. Os deveres escolares estão chegando e precisam ser feitos. Até atividades valendo nota estão sendo enviadas", relata, destacando que supervisão é importante. "Em alguns momentos, sento junto para fazer e ajudar na organização".

​Para não acumular as tarefas, ela aposta na hierarquização das atividades, cronograma com as datas e o uso de uma agenda escolar. Outro método adotado foi a impressão das atividades para evitar as distrações com o computador durante a realização. 

Para auxiliar os pais de plantão, o Hoje em Dia conversou com psicóloga e mestra em Educação, Cultura e Organizações Sociais, Lívia Pires Guimarães, sobre como lidar com a missão de ensinar os filhos em casa. Confira:

As mães estão ficando enlouquecidas porque as crianças estão em ritmo de férias e não de homeschooling. Como fazer essa conscientização?

A primeira conscientização que deve ser feita é por parte dos adultos, porque todo mundo foi pego de surpresa e muitos adultos também estão achando estão de férias e não entenderam que a vida continua. Porém, com um ritmo diferente. A partir do momento que o adulto entende isso, ele tem condições de colocar para criança. Por que se os adultos foram pegos de surpresa, as crianças ainda mais. Elas não estão encontrando quem explique e dê segurança.

As distrações são muitas, com todo mundo trancado em casa. Como motivá-las?

O computador é normalmente um equipamento de lazer e logo eles dispersam ou ficam o tempo todo querendo jogar. A partir do momento em que foi estabelecida uma rotina, haverá momento para estudar, descansar, brincar sozinho ou em família. Quando se garante a rotina com essa previsibilidade, fica mais fácil para a criança entender e aceitar. Ela precisa de previsibilidade e constância, uma rotina construída conjuntamente, não imposta. Sendo trabalhada com coêrencia entre a criança e o adulto, em poucos dias a rotina estará estabelecida e será possível todo o mundo viver com um pouco de tranquilidade e harmonia.

Qual a melhor forma de organizar uma rotina de estudos que funcione? 

A primeira coisa que os pais têm que fazer é dar o exempo, criar uma estrutura para os filhos entenderem que não estamos de férias. Se a casa não tiver uma rotina, a criança não dá conta.  Antes da quarentena, cada um tinha seus horários definidos. Agora é fazer e manter a rotina rígida para que a criança se  organize e não se perca no tempo, não se perca com os dias. Então, ela vai naturalmente incorporar esse momento do estudo como parte da vida dela. A desordem da casa é um grande elemento. Se a criança está brincando e vem na cabeça do pai de fazer o para a casa, ela não vai querer parar o que está tá fazendo só porque o pai ou a mãe resolveram que essa seria a hora. Mas se já tiver horários pré-definidos, ela já se organiza para ter o momento de brincadeira e do estudo.

Como identificar o melhor horário para as tarefas?

Depende da rotina de cada família e da criança. Sugiro que se continue com a rotina da escola. Por exemplo, se o aluno estuda de manhã, faremos de manhã. Isso é o ideal porque a criança já está organizada nesta dinâmica. Mas tem de ser um horário em que ela consiga se engajar com mais tranqulidade e o responsável que vai auxiliá-la esteja disponível para isso. Não vai adiantar nada a criança fazendo a atividade e os pais dividindo a atenção.

O que fazer quando o filho estiver fazendo 'birra' para não realizar as atividades?

A primeira coisa é entender o que é a birra e o próposito. A birra é uma forma de a criança pequena se comunicar. Ela é esperada e natural para uma criança pequena porque ela não tem lingaguem nem recurso psíquico para poder nomear o que está sentindo e expressar de maneira adequada. É claro que não se deve reforçar esse comportamento, mas procurar entender por que a criança está dizendo que algo não está bom: o ritmo, o horário, a frequência, a intensidade, o envolvimento... Será que as condições estão favoráveis? O ambiente está silencioso e leve? Ou o estudo acontece com os pais gritando ou fazendo algo ao mesmo tempo. É importante construir com a criança para  buscarem soluções.

Como tornar essa nova rotina menos estressante para os filhos?

Entre os horários pré-estabelecidos para o estudo, combinar a hora da televisão, do celular, da atividade física, da leitura. De acordo com o espaço da casa, eles podem dançar, pular, fazer circuitos, ter um momento de leitura em família. Também ter o momento da criatividade e confeccionar materiais de sucata, oficina de papel, culinária, um momento de ajudar arrumar a casa para que eles se sintam parte. E, mais importante, o momento da brincadeira para que criança possa canalizar o que  está sentindo.

*Estagiária sob supervisão