O Carnaval de rua de Belo Horizonte renasceu na primeira década deste século também como uma manifestação política e social. Desde que se tornou um dos maiores do Brasil (este ano são esperadas 5 milhões de pessoas na folia) nunca um desfile de bloco foi tão aguardado como o do Havayanas Usadas, que comanda a festa na avenida Andradas na manhã desta segunda-feira (24).

E essa expectativa surgiu na última quinta-feira (20), quando o cantor do bloco, Heleno Augusto, recebeu em casa a visita de policiais militares com instruções sobre sua conduta em cima do trio elétrico.

A Liga Blocada, que reúne alguns dos principais blocos da capital, soltou uma nota tratando a visita como intimidação. "A repercussão foi muito boa. Emitiram a nota e ela foi compartilhada pelo Eduardo Suplicy, Luís Nassif. Achei a atitude estranha. Conversei com os blocos e acharam melhor soltar a nota, até para se resguardar", explica o vocalista que está no Carnaval desde 2013.
Na sua opinião, tudo o que aconteceu foi desnecessário.

"Só cria um clima de tensão desnecessária. A gente já tem muita dificuldade para colocar o bloco na rua. Vi como uma tentativa de cercear.  Acho que a liberdade fica comprometida. Não querem a coisa como sempre foi. Mas isso não afetará nossa alegria", afirma Heleno.

Ele não quer falar nomes, pois acha que isso não pode atrapalhar o Carnaval do bloco, mas não deixou de ficar assustado com o episódio.

"Tinha ido à polícia na quarta-feira, por causa de outro bloco onde participo. Na quinta, me.ligaram dizendo que tinham de falar comigo de qualquer maneira. Eu não podia me deslocar é foram até minha casa. Dois policiais. Tiraram três fotos comigo e depois falaram para não insuflar a massa contra o poder público, a ordem, para que a polícia, que estaria armada, não tivesse de fazer a dispersão forçada do bloco. No dia seguinte fizeram um Boletim de Ocorrência e me mandaram pelo WhatsApp", explica Heleno Augusto.

Leia a nota completa da Liga Blocada

Na quinta feira última, dia 20.02.20, Heleno Augusto, cantor dos blocos Havayanas Usadas e Raga Mofe foi surpreendido em sua residência, no bairro Santo Antonio, em BH, por dois Policiais Militares.

Sem dar qualquer explicação, os policiais determinaram o músico que divulgasse “durante o evento mensagens de segurança da PMMG” e ainda
o advertiu no sentido de “abster-se de adotar qualquer gesto, palavras ou ações que tenham o potencial de incitar nos participantes atos que atentem contra a segurança e tranquilidade pública”

Indo além, a polícia ainda obrigou Heleno “ao término do evento a (...) dirigir-se, de maneira mais ágil possível para área diversa do local de realização do evento”.

Tudo isso registrado no Boletim de Ocorrência número 2020-005398419-001.

Se alguém tinha dúvidas do que estava por trás das exigências descabidas da PMMG em relação aos carros de som na última semana inviabilizando ou dificultando a realização de cortejos de vários blocos, não tem mais.

Estamos diante de uma clara ameaça ao Estado Democrático de Direito e tememos o que pode acontecer nos desfiles dos Blocos Raga Mofe neste domingo às 09h e Havayanas Usadas nesta segunda-feira porque não abriremos mão dos nossos direitos assegurados no art. 5º da Constituição Federal de liberdade de expressão e de reunião em locais abertos ao público independentemente de autorização.

Liga Blocada

Havayanas Usadas
Sagrada Profana
Unidos do Samba Queixinho
Então Brilha
Chama o Sindico
Me Beija Que Eu Sou Pagodeiro

Leia a nota completa da Polícia Militar

Nota à Imprensa

A Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) esclarece que foram realizadas visitas comunitárias com representantes de blocos nas áreas de alguns Batalhões com cunho preventivo. O objetivo das visitas foi ampliar a sensação de segurança no Carnaval e solicitar o apoio dos blocos para a divulgação de dicas preventivas durante suas apresentações. Também foram repassadas orientações para que se evitassem estímulos à violência e ocorrências de crimes durante o Carnaval. 

A PMMG esclarece que os contatos com os blocos não tiveram cunho intimidativo e repressivo e ocorreram em tom amistoso e sem qualquer intercorrência. Inclusive, para todas as visitas foram geradas Boletins de Ocorrências no sentido de resguardar a intenção preventiva e comunitária desses contatos.  

A Polícia Militar ressalta ainda que tem contado com o apoio de vários blocos para difundir as dicas de segurança e fazer um Carnaval de Paz.  

Vale destacar que a redução dos crimes violentos neste Carnaval na capital já se apresenta bastante expressiva, na casa de 40% e que essa redução reforça que as ações da Polícia Militar de Minas Gerais, em conjunto com os blocos e os demais órgãos envolvidos, fazem do Carnaval de Belo Horizonte o mais seguro para os foliões.