Tão logo os casos de enfermos por uma doença desconhecida, ligada a uma conhecida marca de cerveja, surgiram em Belo Horizonte, apareceram também teorias e boatos que tentam explicar o mal, que matou um homem, na última terça-feira (7), e mantém outros sete internados.

Uma das especulações diz respeito ao fato de que só homens teriam sido intoxicados: a "explicação" dominante, por enquanto, é a de que mulheres não seriam acometidas pela patologia porque teriam o metabolismo mais lento, o que, por sua vez, evitaria a absorção, por aquelas que eventualmente consumiram o produto, de grande quantidade da substância dietilenoglicol (DEG) - presente em amostras da cerveja analisadas pelas autoridades.

Antes de tudo, é necessário frisar que, até esta sexta-feira (10), não se comprovou que a substância DEG encontrada no sangue de pelo menos dois dos oito homens hospitalizados em Minas e também em lotes da cerveja seja, efetivamente, a causadora da doença misteriosa.

Caso isso venha a acontecer, contudo, segundo o médico Adauto Versiani Ramos, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia - Regional Minas, deve-se destacar que a generalização de que o metabolismo de mulheres é mais lento que o dos homens é inverídica.

De acordo com Versiani, a  "velocidade" do conjunto de transformações pelo qual passa o organismo para a liberação de energia depende de diversos fatores, incluindo o alimento em si e sua dosagem, o tempo de ação e eliminação próprio da substância e as alterações hormonais, conforme cada organismo.

"É necessário conhecer o tempo de ação e de eliminação dessa droga, em específico, o DEG. Cada substância tem uma característica diferente na metabolização. Algumas são metabolizadas na mesma velocidade em homens e mulheres, enquanto outras apresentam variações", explicou. 

Versiani acrescenta que duas pessoas, independentemente do sexo, podem ter consumido a mesma quantidade de determinada substância tóxica, mas uma pode estar mais frágil ou com a ação do sistema imunológico diminuída em relação à outra, e isso será um fator influenciador sobre o surgimento ou não sintomas da contaminação e da doença gerada.

Dietilenoglicol não pode estar em alimentos

Apesar de ter sido encontrado no sangue de pelo menos dois dos oito homens hospitalizados em Minas, e também em lotes da cerveja recolhida nas casas dos pacientes, o dietilenoglicol não poderia estar na bebida. Isso porque, de acordo com Bruno Gonçalves Botelho, professor de Química da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), essa não é uma substância adequada ao consumo.

"Não se espera que ele esteja nos compostos da cerveja. O DEG não faz parte de nenhuma formulação, não entra como ingrediente, como aditivo. Ele é utilizado no sistema do refrigeração, na parte externa dos tanques", explicou.

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