Planejados para dar novo sentido a algumas áreas de Belo Horizonte, grafites estão sendo invadidos por pichações. Em alguns pontos da região central, as marcas já tomam todo o espaço dos desenhos.

Atualmente, pichar um monumento ou edificação rende pena de três meses a um ano de cadeia. A legislação, no entanto, autoriza o grafite, “desde que consentido pelo proprietário” ou mediante autorização do poder público. Em BH, os pichadores estariam desrespeitando até mesmo uma espécie de acordo informal entre os artistas de rua.

“Existe uma cultura de respeito, para que não ocorra nenhuma intervenção em cima de outra, seja ela grafite ou pichação. Eu não faria, acredito que vai da consciência de cada um em respeitar o trabalho do outro”, diz a grafiteira Carolina Jaued, integrante do grupo Minas de Minas, coletivo urbano formado por quatro mulheres.

Rua Aarão Reis Centro pichação grafite
Escrever por cima de outras intervenções, como na rua Aarão Reis, no hipercentro, é considerado desrespeito entre os artistas

Exemplos

Ao percorrer alguns pontos de BH, a equipe de reportagem do Hoje em Dia constatou vários exemplos da disputa por espaço, como debaixo do Viaduto de Santa Tereza. Lá, paredes que contornam o elevado receberam grafites, mas as intervenções foram vandalizadas. “Uma pena. O grafite deixa a cidade mais bonita, mais colorida”, diz Marcelo Gonzaga da Cruz, de 45 anos, que frequenta os eventos que ocorrem no espaço aos fins de semana. 

Ao lado da estrutura, na rua Aarão Reis, os muros que antes eram compostos por pinturas e desenhos agora estão repletos de pichações. 

Problema semelhante acontece no viaduto Moçambique, na avenida Antônio Carlos, altura do bairro Aparecida, Noroeste da cidade. Os desenhos feitos em 2017 fazem parte do programa Gentileza, da prefeitura da capital. Um ano depois, uma pichação em tom cinza foi feita entre as imagens de duas crianças pintadas no local.

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Rebeldia

Professora do Departamento de Urbanismo da UFMG, Beatriz Couto explica que a pichação é considerada uma manifestação de rebeldia. “É a representação de uma população que costuma estar fora dos espaços de convívio social”.

“Faz parte de culturas urbanas. Apesar de ser um crime, é uma maneira de o grupo se manifestar em relação a problemas sociais. Ocorre no mundo inteiro desde meados da década de 80”, complementa o professor Frederico Marinho, pesquisador do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp), da UFMG.

Para o especialista, a forma mais eficaz para se combater a pichação é criar um canal de relacionamento entre os interessados, envolvendo prefeitura, grafiteiros, Polícia Militar e Guarda Municipal. “E até integrantes do picho, para evitar essas situações. A partir disso, se houver desobediência, quem cometer o delito tem de ser responsabilizado financeiramente, com o reparo do espaço”, acrescentou.

Ações

Em nota, a Guarda Municipal informou que faz patrulhamento 24 horas por dia para coibir a atuação dos vândalos. “A região Centro-Sul é a área que demanda mais atenção, devido àmaior incidência de registros de pichação verificada em anos anteriores”, destacou. Conforme a corporação, os casos podem ser denunciados pelos telefones 153 ou 190. Procurada, a PM não se manifestou até o fechamento desta edição.