SÃO PAULO - Pesquisadores da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) desenvolveram uma forma de terapia gênica que "aprisiona" o cálcio do núcleo das células cancerosas, diminuindo a taxa de proliferação delas. A novidade, é que quando essa técnica é associada à radioterapia, ela aumenta a eficácia do tratamento com radiação, permitindo o uso de apenas metade da dosagem normalmente necessária e diminuindo a reincidência da doença.

Essa pesquisa, ainda em fase pré-clínica (ou seja, antes do teste em doentes humanos), tem o potencial para promover tratamentos mais efetivos para os cânceres de cabeça e pescoço.
A pesquisa foi publicada na revista científica de livre acesso "Journal of Cancer Sciences & Therapy".

"Foi surpreendente conseguir desenvolver um sistema de irradiação in vitro que se aproxima ao máximo do protocolo de radioterapia utilizado em pacientes", disse à reportagem a principal autora do estudo, a doutoranda Lídia Andrade.

Para Maria de Fátima Leite, orientadora de Lídia e coautora do estudo, "a grande descoberta dessa pesquisa é que o tamponamento do cálcio no núcleo da célula, associado à radioterapia, mostra-se mais eficiente do que a radioterapia ministrada isoladamente".


Aprisionando cálcio

Em seus testes in vitro, os pesquisadores inocularam com vírus modificados geneticamente culturas de um tipo de células tumorais de pele conhecidas pela tendência a desenvolverem resistência à radioterapia. Esse vetor viral carregava a receita de uma proteína que "aprisiona" o cálcio presente no interior do retículo nucleoplasmático.

Essa organela se encontra dentro no núcleo da célula e é responsável pelo armazenamento e liberação de cálcio. A identificação dessa função foi feita em 2003 pela coautora Maria de Fátima Leite em parceria com pesquisadores americanos.

Depois de quase dez anos da descoberta dessa organela nuclear, Maria de Fática Leite diz que "é com imensa alegria que meu grupo de pesquisa e eu estamos presenciando esta possibilidade real de aplicação direta de dados de pesquisa básica em biologia celular para a saúde das pessoas".
O cálcio age como um sinalizador no núcleo, principalmente promovendo a divisão celular. Com menos cálcio agindo, o crescimento tumoral é diminuído.


Células no raio-x

Os pesquisadores submeteram as culturas experimentais ao procedimento de radioterapia desenvolvido por eles, que mimetiza ao máximo o protocolo diário de tratamento de radioterapia para os casos de câncer de cabeça e pescoço. Eles viram que, em uma semana de irradiação, a combinação de ambas as terapias, genética e radiológica, é melhor do que cada uma delas em separado.

"Percebemos que o tamponamento utilizado como adjuvante da radioterapia não só reduz a quantidade de células tumorais mas também a dosagem de radioterapia necessária", relata Lídia Andrade. Com isso, é possível reduzir os efeitos colaterais da radioterapia.

Para Rafael Bento Soares, doutor em biotecnologia pela USP, a coisa mais interessante da pesquisa é o método desenvolvido para mimetizar o tratamento normal de radioterapia. "Isso pode possibilitar um maior avanço para testar o efeito da radiação em combinação com outras terapias para outros tipos de doenças", disse ele à reportagem.

Até então, os pesquisadores trabalhando com radiação em culturas de célula usam um modelo que não reflete a situação real do paciente na radioterapia. Segundo Fátima Leite, o método elaborado por Lídia Andrade é muito simples. "Ela o padronizou cuidadosamente criando um protocolo que realmente mimetiza uma radioterapia e pode ser usado por qualquer pesquisador do mundo", afirmou.

Causado pelo tabagismo crônico, consumo de álcool e até vírus HPV tipo 16, o câncer de cabeça e pescoço está em oitavo no ranking mundial dos cânceres que mais matam. Pelo fato de os homens fumarem e beberem mais e irem menos ao dentista, eles são os mais acometidos pela doença, que atinge as regiões do lábio, língua, glândulas salivares e céu da boca.