Se orientar pelo som da bola, esticar-se na cadeira para rebater para o outro lado da quadra, correr de olhos fechados com um colega como guia. À primeira vista incomuns, essas atividades estão tomando as salas de aula e os ginásios das escolas de BH. O objetivo: mobilizar os alunos em torno dos Jogos Paralímpicos e destruir o mito de que pessoas com deficiência não estão aptas à prática de esportes.

Desde a semana passada, algumas instituições de ensino debatem a origem do evento, as modalidades disputadas e as regras de cada uma. As aulas de vôlei e atletismo, na disciplina educação física, deram lugar a apresentações sobre esgrima com cadeira de rodas, vôlei sentado e futebol vendado.

Aluno do Colégio Sagrado Coração de Jesus, Gabriel Teodoro Simões, de 11 anos, praticou basquete na cadeira de rodas. “Às vezes tinha o impulso de andar para pegar a bola, mas me lembrava que quem tem deficiência não pode fazer isso”.

Professor de educação física da instituição, Elson Damasceno diz que as atividades foram pensadas para dar oportunidade aos alunos de vivenciar as dificuldades e superações, além de conscientizá-los sobre a importância de se respeitar as diferenças.

Para isso, além da prática, os estudantes puderam expor casos e experiências familiares ou de amigos com deficiência. “Notei uma alegria e uma sensibilização entre os alunos. Eles perceberam, através do esforço realizado, que os deficientes merecem reconhecimento. Ficamos na expectativa de que se tornem pessoas preocupadas com acessibilidade, que debatam o assunto e acolham melhor a diferença”, espera o professor.

Na Fundação Torino, o tema foi abordado com os alunos do ensino fundamental como parte do projeto pedagógico deste ano, que valoriza a diversidade cultural.

Depois de assistir a vídeos, ler reportagens e praticar as modalidades paralímpicas, a estudante Júlia Rohfus, de 10 anos, mudou conceitos. “A irmã mais nova de uma amiga tem deficiência. As atividades me ajudaram a ver a capacidade dela com outros olhos”.

De tão empolgada, a menina já decidiu: quer ir ao Rio de Janeiro assistir aos Jogos Paralímpicos.

Atividades em sala de aula reforçam o debate sobre acessibilidade 

Fundadora da ONG Escola de Gente, Cláudia Werneck elogia a iniciativa, mas acredita ter pouco impacto na inclusão de pessoas com deficiência. Para ela, é preciso ter alunos com e sem deficiência convivendo. A prática paralímpica, diz a especialista, deve ser rotineira e não apenas durante os grandes eventos.

“Uma vez em uma escola do Centro-Oeste do país alunos com e sem deficiência jogaram queimada juntos. Eles mesmos foram adaptando as regras de forma a abranger todo mundo. Isso é inclusão”, avalia.

Cláudia diz ainda que, a não ser que a escola transforme e subsidie a discussão do espaço da criança com deficiência, atividades como as desenvolvidas nesse período vão contribuir pouco.

Especialista em direito à educação, o professor Carlos Alberto Jamil Cury discorda. Para ele, a Paralimpíada ajuda na promoção do debate nas escolas. “A prática esportiva de forma adaptada pode conscientizar alunos e gestores a reproduzir valores como acessibilidade e adaptabilidade”.