A chuva sem trégua na região Leste alivia, mas não é garantia de recuperação do rio Doce ou do fim da crise hídrica, que comprometeu a captação de água em Governador Valadares, antes mesmo da lama de rejeitos da Samarco descer de Mariana, em novembro do ano passado.

Segundo a presidente da Câmara Técnica de Gestão de Eventos Críticos (CTGEC), do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce (CBH-Doce), Luciane Teixeira Martins, em janeiro de 2015, a vazão do rio Doce girava em torno de 167 metros cúbicos por segundo, quando a média considerada normal para o mês, em Valadares, era de 1.090 metros cúbicos por segundo.

Na manhã desta terça-feira (19) essa vazão chegou a 1,8 mil metros cúbicos por segundo, com tendência a aumentar para 2.025 metros cúbicos por segundo até o final do dia. Esse volume traz fôlego, mas considerando os três anos anteriores com chuvas abaixo da média na região, há, segundo ela, um déficit sem precedentes para ser superado.

"O volume que chegou agora é importante, mas por causa do déficit, não é garantia de extinção do risco de uma crise hídrica em 2016, que pode ser ainda mais grave que a de 2015. Essas chuvas melhoram a situação da Bacia Hidrográfica do Rio Doce em termos de quantidade de água disponível, mas temos que continuar monitorando, porque pode ser uma melhora momentânea", alerta.

A presidente lembra que o ano hidrológico vai de setembro de um ano a outubro do outro e ainda é cedo para prever. E tudo vai depender das próximas chuvas. A recomendação é manter o uso racional da água, mesmo com chuvas. "Nós já aprendemos o valor da água na nossa vida, tanto quanto a qualidade como quantidade. Talvez essa seja a Bacia que mais experimentou essas situações em menor espaço de tempo", diz.

Outro problema é a turbidez. As chuvas revolvem a lama concentrada no fundo do rio e aumentam a sua turbidez, mas, segundo Martins, os níveis registrados até o momento estão dentro dos limites que o SAAE em Valadares consegue tratar e disponibilizar para a população. A previsão, segundo ela, é que as chuvas continuem intensas na região Leste até a próxima semana, apesar de ficarem esparsas na maior parte do Estado a partir desta quinta-feira.

RECUPERAÇÃO

O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce integra o grupo criado pelo Ministério do Meio Ambiente e coordenado pelo IBAMA e ANA para avaliar os problemas ambientais provocados pela lama da Samarco. Martins defende a necessidade de estudos mais aprofundados e novos diagnósticos dos impactos humanos, ambientais e econômicos, para só depois se definir os melhores caminhos e tecnologias para a recuperação da Bacia.

A melhor proposta, para ela, será adequar o Plano Integrado de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Rio Doce (PIRH), elaborado em 2010 e que estava em andamento quando a tragédia aconteceu. Martins acredita que as cheias farão surgir novos problemas provocados pelos rejeitos da Samarco ao longo do rio, porque a lama que estava concentrada na calha principal do rio pode agora chegar a áreas ainda não afetadas.

"É preciso monitoramento", adverte a presidente, que também comemora notíciais que chegam sobre o aparecimento de peixes no rio Doce.

ALERTA

O rio Doce atingiu a cota de 1,80 metro na manhã desta terça, com previsão de subir até a noite e chegar a 3,70 metros (cota de inundação e alerta vermelho). Mas de acordo com a Defesa Civil na cidade, não há previsão de transbordamento, nem mesmo nas regiões mais baixas como o bairro São Tarcísio. De acordo com o boletim do Sistema de Alerta Hidrológico da Bacia do Rio Doce, a turbidez da água também deve subir e chegar a 2,5 mil NTU.

Ainda não há riscos de suspensão da captação na Estação de Tratamento de Água (ETA) Central, diferente de uma menor que fica na região do bairro Vila Isa, onde a captação foi suspensa por algumas horas hoje pela manhã. De acordo com o Saae, a medida visou garantir que a água fornecida continue dentro dos padrões de potabilidade exigidos pelo Ministério da Saúde. A previsão é de restabelecimento do abastecimento nesta tarde.