Pacientes que dependem de exames bioquímicos para prosseguir o tratamento médico reclamam que a coleta de sangue foi suspensa na rede de laboratórios da Secretaria Municipal de Saúde (SMMA). Memorando interno da Prefeitura de Belo Horizonte orienta médicos e profissionais da saúde sobre a interrupção dos exames de rotina, iniciada em 4 de janeiro. A retomada é prevista para 40 dias depois (14 de fevereiro).

Apenas casos especiais são atendidos. A média tem sido de 90 pacientes diários, o equivalente a 4% da demanda normal (2.100/dia).

A justificativa oficial para o problema é a troca de fornecedores dos kits usados nos testes. Entretanto, cinco empresas que mantêm contrato com a prefeitura confirmam atrasos nos pagamentos contratuais. Entre os profissionais da saúde, a informação é a de que, por esse motivo, empresas teriam interrompido a distribuição.

A prefeitura nega. Em nota, a SMMA informa que novas máquinas para exames bioquímicos estão em fase de implantação nas unidades da rede SUS-BH – cinco laboratórios distritais e seis UPAs. “Os exames bioquímicos apontados como prioritários continuam sendo realizados, sem prejuízo dos usuários, com contratação especial feita pela SMSA”.

Urgência

Para ser atendido na rede laboratorial, o usuário do SUS na capital precisa comprovar “o caráter excepcional do exame”, passando por avaliação da equipe de saúde da família, que emite novo pedido e a justificativa do exame.

Nas unidades com coleta via agendamento, a solicitação do exame e a respectiva justificativa médica têm de ser encaminhadas ao laboratório distrital para autorização. Nas unidades com coleta via demanda espontânea, o procedimento é idêntico.

Pacientes que não se enquadrarem nessa “urgência” só poderão agendar a coleta depois de 14 de fevereiro. A medida tomada pela PBH, sem comunicação prévia aos usuários, impacta pacientes que têm consulta eletiva e dependem de exames para tratar doenças, na opinião de agentes do SUS-BH.

Na região hospitalar, as queixas de quem vai ao laboratório da SMMA são praticamente iguais: as deficiências do serviço. “A população é a última a saber”, reclamou o aposentado João Geraldo da Paz, de 77 anos.

Estaca zero

Ele não conseguiu autorização para que a mulher fizesse o exame de glicemia pedido pelo endocrinologista. “A consulta de retorno foi marcada para o fim de janeiro, mas, como não tem recomendação de urgência, volta à estaca zero”. Possivelmente, afirma Paz, ela só vai levar o resultado na consulta em maio porque o médico tem agenda cheia.

No comunicado às gerências de saúde, a prefeitura esclarece que apenas em caráter excepcional, desde que haja justificativa clínica por escrito, serão feitos os exames, considerados imprescindíveis ao diagnóstico de doenças renais, diabetes, hipertensão e outras enfermidades.

Pacientes reclamam de excesso de exigências
Nas unidades de saúde mantidas pela prefeitura, atendentes informam aos usuários que os exames de rotina não estão sendo feitos pela rede municipal, o que causa revolta e indignação aos usuários.

É o caso do aposentado Vicente Barbosa, de 66 anos, que não conseguiu fazer exame na UPA Leste. “Quebrei a cara. A UPA está fechada”, disse ele, à espera do ônibus, em frente ao prédio onde a unidade funcionou até dezembro (rua 28 de Setembro, bairro Esplanada).

De chinelos e bengala, Vicente tentava chegar ao novo endereço, na avenida dos Andradas, mas ali a informação era a de que os exames bioquímicos estavam suspensos. “Sinto dores na barriga e muita falta de ar”. A UPA Leste, entregue em dezembro último, tem bebedouros quebrados, sujeira no local e não faz exames radiológicos, reclama o aposentado.

Frustação

Mãe de seis filhos, Geni Maria Almeida, de 58 anos, não foi atendida na UPA Centro-Sul. Com um pedido de exame nas mãos, expedido por uma médica do SUS, Geni explicou que precisa fazer o exame de sangue, a cada três dias, para controle da saúde abalada.

“Tenho pressão alta e diabetes. No ano passado, sofri infarto e fiquei internada 37 dias na Santa Casa”, conta Geni. Segundo ela, a atendente explicou que o exame só é feito com pedido de urgência emitido por médico da UPA Centro-Sul.

“O pedido da médica que faz meu tratamento não serve para a UPA Centro-Sul. Tenho de fazer consulta com outro médico daqui. É difícil, mas vou tentar marcar, porque preciso fazer o exame de controle”, disse Geni.

Embora a PBH justifique a suspensão dos exames para readequar o serviço e trocar fornecedores, “essa falha de gestão põe em risco a saúde pública”, informa o Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Belo Horizonte (Sindibel).

Segundo a SMMA, em quatro dias da semana passada, 359 exames bioquímicos foram enviados a laboratórios conveniados. Em situação normal, são atendidos diariamente 3.500 pacientes para exames, 60% deles bioquímicos. Em 2015, foram realizados mais de 6 milhões de exames pelo SUS BH, a maioria nos laboratórios da PBH.

 “Mesmo com pedido da médica para fazer exame de sangue a cada três dias, não consegui ser atendida na UPA Centro-Sul. Tenho pressão alta e diabetes. No ano passado, tive infarto e fiquei internada 37 dias na Santa Casa. Preciso de uma consulta para fazer o exame de controle” (Geni Maria Coutinho Almeida, dona de casa)

“Quebrei a cara hoje (nessa terça). A UPA Centro-Sul está fechada. Agora o atendimento é na avenida Belém (região Leste). Sinto dores na barriga e muita falta de ar. Não sabia que a prefeitura tinha parado de fazer os exames. Isso é covardia com o povo” (Vicente Barbosa, aposentado)
 
"A prefeitura vem reduzindo os gastos com saúde. Além da suspensão dos exames de rotina, faltam insumos e as equipes estão desfalcadas” (Andrea Hermógenes Martins, diretora do Sindibel)


NÚMERO: 96% dos exames são feitos em laboratórios da Rede SUS-BH, que, por decisão da prefeitura, suspendeu a coleta por 40 dias
 

exames suspensos