Belo Horizonte tem 790 praças e 74 parques, espaço suficiente para o lazer da população. São 18,22 metros quadrados de áreas verdes por habitante, mais do que recomenda a Organização Mundial de Saúde (12 metros quadrados para cada morador). A estrutura dos equipamentos, no entanto, está longe de ser satisfatória.

Quem chega ao Parque Ecológico Guilherme Lages, por exemplo, encontra um melancólico aspecto de abandono. São 120 mil metros quadrados arborizados no bairro São Paulo, na região Nordeste, com nascentes e duas lagoas. O espaço deveria ser usado para cultura, atividade física e lazer, mas tornou-se hostil para os moradores, que reclamam da precária infraestrutura e, sobretudo, da violência.

"É uma dó ver o parque assim. Já frequentei muito, mas agora virou reduto de usuários de drogas, ponto de prostituição e muitos crimes acontecem aqui, estupro, roubo e até assassinatos", lamenta a cabeleireira Cleidimar Souza, que mora no bairro.

Ela afirma que parte do problema, relacionado à infraestrutura, é causado por vandalismo, mas se queixa do descaso da prefeitura. "Era preciso uma campanha educativa, mais cuidado. Quando a comunidade não vem, entra a bandidagem".

Com lagos de aparência bem degradada e pichação por todos os lados, o parque ganhou até apelido. "Isso aqui parece um pântano. Não tenho coragem de trazer a minha filha de 8 anos para passear", diz o ajudante de entrega Daniel Charles.

Por meio da assessoria de imprensa, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) informou que a "Guarda Municipal e a Polícia Militar atuam frequentemente na área para diminuir a incidência de vandalismo". De acordo com a nota, a Fundação de Parques "reconhece que existem vários frequentadores do Guilherme Lage em situação de trajetória de rua, suspeitos de uso de entorpecentes e bebidas alcoólicas".

Para minimizar as ocorrências e intimidar os frequentadores, ressalta a prefeitura, "periodicamente são feitas rondas e outras ações do efetivo da Guarda Municipal, que conta com apoio da Polícia Militar".

Sem manutenção

No Salgado Filho, região Oeste da cidade, a falta de manutenção também tem afastado a vizinhança da praça Padre Luiz, na rua Ibiraci. "Ficou mal cuidada e não tem nenhum tipo de segurança. As árvores não estão podadas e provocam escuridão à noite, e adolescentes de juntam no local para usar drogas", denuncia a auxiliar administrativo Alessandra Martins, moradora do bairro.

A prefeitura afirma que fará "o reparo ambiental da praça tão logo comece o período chuvoso". Também informa que a equipe de manutenção faz a varrição e limpeza semanalmente na Padre Luiz.

No bairro Gutierrez, também na região Oeste, a praça Leonardo Gutierrez não está sendo cuidada, segundo o engenheiro Danilo de Quadros Maia Filho. Ele articula a criação de uma associação de moradores para cobrar a requalificação do espaço. "Os brinquedos são antigos, estão enferrujados, e a estrutura não propicia um bom uso pela comunidade", avalia.

A PBH informa que a praça Leonardo Gutierrez foi adotada, em agosto, pelo Grupo Verde Gaia, que já iniciou o processo de revitalização. A previsão é a de que a ampliação e reforma sejam feitas por meio do Orçamento Participativo. Os trabalhos estão na fase de avaliação de custos.

Lazer, prática de esportes e muitas festas ajudam a preservar espaço no bairro Castelo

Enquanto algumas pessoas se afastam das praças e parques por causa da precariedade, outras encontram o espaço perfeito para fugir da agitação do dia a dia, praticar atividades físicas e até para fazer festas.

No Parque Ursulina de Andrade Melo, no bairro Castelo, região da Pampulha, a agenda está lotada até o fim do ano de confraternizações marcadas para os finais de semana. "A maioria é festa infantil, mas já tivemos chás de fraudas e até casamentos. Uma pessoa fala para a outra e a comunidade vai descobrindo novos usos para o espaço", destaca a chefe da Divisão dos parque da Pampulha da Fundação de Parques Municipais, Prisce Benício.

Segundo ela, para fazer festa no parque basta agendar e obedecer algumas normas. "A pessoa assina um documento concordando com as regras. Não é permitido bebida alcoólica, som alto, balões de plástico, e é preciso recolher o lixo e respeitar o horário", exemplifica.

As medidas são para preservar o espaço. "O perfil de quem procura o parque para esse tipo de evento já é de pessoas preocupadas com o meio ambiente", ressalta Prisce.

O contato com a natureza é justamente um dos atrativos. A advogada Renata Charchar escolheu fazer o aniversário da filha Gabriela num piquenique. "Foi bom, porque as crianças puderam interagir com a natureza, é uma proposta diferente do que é oferecido por grandes salões de festas", diz.

Segundo Renata, a economia também foi um grande atrativo. "Eu não ia fazer nada, mas uma amiga comentou da possibilidade de usar o parque. Acho que ficou pelo menos 50% mais barato do que uma festa tradicional", calcula.

O Ursulina é movimentado inclusive nos dias de semana. Cerca de 150 pessoas visitam o parque diariamente, como o motofretista Ricardo Dias. Para ele, é a melhor opção para fazer atividades físicas. "É uma maravilha. Além de exercitar, você descansa, não tem estresse".

É esse refúgio que os amigos Arthur Tavares e Gabriela Barbosa procuram. "É sempre bom vir aqui para conversar. Um pouco de paz, mesmo dentro da cidade", diz Arthur.

Outro local que atrai centenas de frequentadores, diariamente, é a praça Floriano Peixoto, no bairro Santa Efigênia, região Leste da capital. O bom estado de conservação é graças à "adoção" por uma empresa particular. O trabalho integra o projeto Adote o Verde, da prefeitura, que abrange cerca de 200 praças de BH.