A ineficiência das políticas voltadas à população de rua salta aos olhos em Belo Horizonte. Lugares de relevância histórica têm se transformado em áreas de acampamento permanente para quem não tem onde morar. Como consequência, a cidade presencia, dia após dia, a degradação de importantes praças, escolhidas pela população e por turistas como espaços de passagem e de lazer.

Com barracas, colchões e tudo mais que conseguem carregar, eles se acomodam como podem. O problema é que, sem estrutura para receber essas pessoas, os locais também se tornam banheiros a céu aberto. Também há reclamações de sexo em área pública e banhos nas fontes.

Uma das praças com maior número de acampados é a Raul Soares, no Centro. Por lá, cerca de 15 pessoas ocupam grande parte do espaço, inclusive com barracas. Entre as tarefas diárias dos moradores está a limpeza das roupas na fonte e preparação das refeições em fogueiras improvisadas na área verde.

A ocupação afugenta quem costuma passear pelo local. “É uma situação em que a gente não pode vir com crianças e idosos. É até perigoso andar com animais de estimação”, disse a relações públicas Ângela Maria dos Reis, de 55 anos, que também relatou ter presenciado moradores de rua mantendo relações sexuais.

Para a aposentada Vera Lúcia Oliveira, de 57 anos, o pior é o odor de urina e a degradação das plantas. “Tem gente que não vem aqui com nojo dessa sujeira”.

Cartão-postal

A realidade é a mesma na Praça da Liberdade, um dos principais pontos turísticos da capital. Ao lado dela, o anexo da Biblioteca Pública tornou-se residência de cerca de dez pessoas, que ali ficam com colchões, cobertas e barracas.

Um aposentado de 82 anos, que pediu para não ser identificado, contou que muitas pessoas evitam passar próximo ao local. “Tira o direito da gente de ir e vir”, afirmou.

Frequentemente, quem passa pela praça, endereço do principal circuito cultural de BH, com vários museus, também é surpreendido com roupas estendidas para secar ao redor da fonte. Quem tenta impedir a atividade é, segundo o aposentado, agressivamente repreendido.

O próprio fotógrafo do Hoje em Dia, ao produzir esta reportagem, foi cercado por cinco moradores de rua e obrigado a deletar as fotos da câmera, sob ameaça de ter o equipamento confiscado. Foi preciso enviar outra equipe ao local posteriormente.

Para o assistente administrativo Cássio Lima, de 33 anos, os moradores de rua deviam ser realocados a espaços de acolhimento. “O município precisa abrir os olhos para o que está acontecendo”.

Resposta

A prefeitura informou que equipes de serviço especializado acompanham “as pessoas em situação de rua visando a construção de processos de superação dessa condição”. Em nenhuma hipótese, informou, são realizadas internações ou remoções compulsórias, mas apenas objetos que obstruam áreas públicas. A assessoria de imprensa da Guarda Municipal esclareceu que, em caso de depredação do patrimônio, o responsável pode ser preso em flagrante.

Vagas em abrigos públicos são insuficientes para comportar possível aumento na demanda

Cerca de 1.800 pessoas moram nas ruas de BH. A maioria (44,8%) concentra-se na região Centro-Sul, segundo o Censo de População em Situação de Rua, realizado pela prefeitura e a UFMG no ano passado. Para especialistas, o quadro é reflexo da falta de políticas públicas de moradia e de qualificação profissional para reinserção no mercado de trabalho.

Para Samuel Rodrigues, um dos coordenadores do Movimento Nacional da População de Rua, mesmo se todos quisessem dormir em abrigos e albergues, a demanda seria maior do que a capacidade das unidades. São mil vagas na rede de acolhimento municipal, de acordo com a prefeitura.

Precário

Com um déficit de 45% na capacidade, Samuel considera a estrutura das unidades inadequada. “É uma proliferação da pobreza colocar 500 pessoas dormindo juntas. O Estado tem que pensar políticas além disso”.

Para Natacha Rena, professora da Escola de Arquitetura da UFMG e coordenação de grupo de pesquisa interdisciplinar, o problema é fruto do descompasso da demanda pela comercialização de uma cidade “limpa”, e da falta de investimento em políticas públicas. “Muito complicado querer uma cidade limpa e não atuar na parte social. Estamos assistindo a um sucateamento total do sistema nos últimos quatro anos”.