Pelo menos até a próxima terça-feira cerca de 150 funcionários da empresa Regapp Engenharia,entre eles três mulheres, que viviam alojados no subsolo de um prédio em obra em condições sub-humanas, vão dormir em hotéis e pensões de Belo Horizonte. Nesta sexta-feira (24), fiscais do Ministério do Trabalho (MT) notificaram a empresa, depois de constatar que os operários estavam sendo mantidos em precárias condições de habitação nos abrigos improvisados, em canteiros de obras de construções de prédios residenciais no bairro Buritis, na Zona Oeste da capital. 

De acordo com o audito fiscal do MT, Marcelo Campos, além das condições precárias de alojamento, os operários denunciaram ainda que trabalham sem registro e alguns tiveram a Carteira de Trabalho retida pela empresa. “No início da semana haverá uma reunião com os representantes da empresa. Eles terão que apresentar toda a documentação que foi exigida, sob pena de multa”
 
O diretor do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, José Estevão, afirma que, se houvesse mais fiscalização nos canteiros de obra novos casos iguais a esse irão aparecer. 
 
Em um desses canteiros de obras, localizado na rua Rubens Caporali Ribeiro, nesse bairro, os operários de malas prontas aguardavam ansiosos a chegada de um ônibus para transportá-los para uma moradia digna. “Vou dormir bem melhor agora”, afirma Rogério Natividade de Almeida, de 32 anos, destacando que os representantes da empresa ameaçaram demitir todos os trabalhadores que vivem nos alojamentos. “Eles falaram que nós denunciamos, agora vamos voltar para casa”. Segundo o auditor fiscal, a empresa pode reincidir o contrato de todos os trabalhadores, desde que pague todos os direitos trabalhistas. 
 
A fiscalização foi feita pelos fiscais do Ministério do Trabalho por causa de denúncias que receberam de vários trabalhadores que teriam sido aliciados nos estados da Bahia, Sergipe, Piauí e no Norte de Minas. 
 
Durante a vistoria foi constado que nos alojamentos do canteiro de obras do Condomínio do Edifício Top Home, foram improvisados cerca de 50 cubículos feitos com madeira de tapumes, com menos de três metros quadrados de espaço destinados a dois trabalhadores, em cada um. 
 
As camas desses ambientes foram feitas com restos de caixotes de madeira e material de construção, onde, além dessas armações, o restante do espaço mal dá para dois homens ficarem de pé. Além desses dormitórios, os fiscais encontraram banheiros em más condições de higiene, e um espaço para vestiário onde não existe nenhuma cadeira ou mesa. Para complicar ainda mais a situação no local, o ambiente é dominado por um intenso cheiro de urina. Além de dezenas de homens, os diretores do sindicato descobriram três mulheres trabalhando no canteiro de obras do condomínio. 
 
Essas mulheres, segundo o sindicalista Vilson Valdez da Silva, tinham alojamentos e banheiros separados, e no trabalho executavam tarefas de servente, pedreiro e acabamento.
 
"Por causa das condições do alojamento é que decidimos pedir as contas antes mesmo de completar um mês de serviço, para voltar para casa", disse o servente que se identificou apenas como A., que mora em um minúsculo espaço com o amigo L.. Os dois foram contratados em uma cidade do Norte de Minas mas contaram ontem que "não conseguiram completar um mês de trabalho por causa das péssimas condições de abrigo". L. disse, por exemplo, que "bolsas e malas ou mochilas são colocadas nas camas do cubículo porque não existe espaço para colocar esses objetos em outro lugar". 
 
O diretor do sindicato Vilson Valdez da Silva, que acompanhava a fiscalização feita pelos fiscais do Ministério do Trabalho, disse que, "na Região do Bairro Buritis e em vários outros da Zona Sul, é comum a existência de dormitórios precários onde são abrigados dezenas de trabalhadores da categoria". Segundo ele, só nos canteiros de obras do Bairro Buritis devem existir centenas de trabalhadores, homens e mulheres, vivendo em alojamentos precários mantidos por empresas construtoras. Os homens ouvidos ontem não reclamaram da comida, servida em marmitas conhecidas como "quentinhas", e disseram que a água pode ser obtida em um bebedouro existente perto dos banheiros. Os fiscais do Ministério do Trabalho fiscalizaram documentos de contratos de trabalho da empresa e não forneceram informações para a imprensa. As condições do alojamento existente no canteiro de obras da Rua Rubens Caporali Ribeiro foram constatadas pela reportagem do HOJE EM DIA. A direção da empresa Construtora Recapp Engenharia foi procurada, no local, para fornecer informações sobre as denúncias, mas não conseguiu falar com ninguém.