Movimentos ligados a invasões de terrenos em Belo Horizonte estariam com as atenções voltadas a outro tipo de imóvel: apartamentos populares do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – prontos, mas ainda não entregues, ou em fase de construção. Um memorando da Polícia Civil, encaminhado em setembro a delegados de três regiões da cidade, pede atenção especial quanto à articulação de algumas lideranças.

No memorando (nº 2828/2014), são especificados, inclusive, quais imóveis estariam na mira dos movimentos. São prédios nos bairros Califórnia e São José (Noroeste), Santa Lúcia (zona Sul) e São Tomás (Norte), construídos em decorrência da urbanização de vilas e favelas.

Documento da Polícia Civil, ao qual o Hoje em Dia teve acesso com exclusividade, cita os nomes das lideranças que precisariam ser monitoradas. São elas o frei Gilvander Moreira, um dos mais ativos na defesa dos interesses dos sem-teto, e Poliana Souza, do Movimento de Luta de Vilas e Favelas.

Ambos negaram estar envolvidos na articulação de novas invasões. “Não tenho nada a ver com isso, nem fui comunicada pela polícia”, afirmou Poliana. “Essa informação não procede”, disse frei Gilvander.

Por meio da assessoria de imprensa, a Polícia Civil informou que a notificação serviu para “alimentar as delegacias de informações para atuar de forma preventiva”.

DESPEJOS

Na última semana, a tensão voltou a se instalar nas invasões de terra na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Depois de a Justiça determinar a reintegração de posse de terrenos invadidos em Esmeraldas e Vespasiano, novas ações podem acontecer nos próximos dias. É o que acreditam os representantes de movimentos sociais ligados às ocupações irregulares.

“Há rumores de que a Willian Rosa (instalada em terreno da Ceasa, em Contagem) será desalojada pela polícia amanhã (quarta)”, afirmou frei Gilvander. O chefe da sala de imprensa da PM, major Sérgio Dourado, afirmou desconhecer alguma ordem do tipo.

GRANDE BH

Em Vespasiano, 170 policiais do Batalhão de Choque e do 36º Batalhão cumpriram, nessa terça-feira (4), a reintegração de posse de uma área no bairro Nova Pampulha. O terreno, pertencente a uma empresa, foi tomado por 40 famílias. Os casebres acabaram derrubados.

Também nessa terça, mas em Esmeraldas, a polícia removeu 25 famílias da Fazenda das Abóboras. Elas tinham invadido o local há três anos, rebatizando-o de Fazenda Chigongo. Segundo a PM, o mandado de reintegração foi expedido há cerca de dois meses.

Polícia atenta a invasão de prédios


Entrave a mais de 8 mil moradias

Está tudo pronto para a construção de 8.896 unidades do Minha Casa, Minha Vida na Granja Werneck, zona Norte da capital. Há 15 dias, o empreendimento obteve a última licença ambiental antes da obra. Porém, os trabalhos encontram obstáculos pela frente: com a área invadida, a construção das moradias para pessoas de baixa renda não pode ser iniciada.

Formada pelas comunidades Rosa Leão, Esperança e Vitória, a região do Isidoro tem, de acordo com levantamento da prefeitura, 2.507 famílias. Já movimentos ligados às ocupações afirmam ser 8 mil.

A retirada delas deveria ter ocorrido há três meses, quando a Polícia Militar e a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) montaram um aparato com 1.500 militares e representantes de departamentos do Executivo, como Zoonoses e Assistência Social. Por força de liminar, o despejo foi suspenso, mas a decisão, revertida em seguida.

Sem impedimento judicial para a reintegração de posse, a Justiça depende da operação logística montada pelas autoridades para cumprir a determinação. Por sua vez, a PBH também aguarda o suporte policial. Por meio de nota, a PM informou que não há data para o cumprimento da ordem e que a ação precisa de um novo planejamento.

Líderes das próprias comunidades acreditam que o despejo é iminente. “A promotoria encaminhou ofício ao Ministério das Cidades informando que rejeitamos as propostas feitas. Entendemos que as conversas estão para serem encerradas e a reintegração de posse possa acontecer ainda neste ano”, disse a coordenadora do Rosa Leão, Charlene Egídio.

Ocupantes rejeitam terreno e exigem dinheiro

Representantes dos moradores da ocupação Granja Werneck rejeitaram um terreno de 63 mil metros quadrados, em regime de comodato (em Santa Luzia), onde poderiam se instalar, desde que deixassem a área atualmente invadido. A negociação, intermediada pelo Ministério Público (MP), foi intensificada em agosto, após o anúncio da retirada das famílias.

Polícia atenta a invasão de prédios


A oferta de emprego a moradores das invasões, na construção do empreendimento a ser erguido na Granja Werneck, também não foi suficiente para convencê-los a sair do local. Antes, eles seriam capacitados.

Por meio da assessoria de imprensa, o Empreendimento Granja Werneck, proprietário do terreno na zona Norte de BH, informou que os ocupantes poderiam construir casas em Santa Luzia. Porém, reivindicaram que o terreno fosse transferido, em forma de propriedade individual ou condominial, além de exigir indenização em dinheiro ou material para arcar com as construções feitas no Isidoro.

“Querem tirar quem já construiu e levar para uma nova área onde o morador terá de erguer as edificações novamente. Isso não vamos aceitar”, disse Charlene Egídio, líder da ocupação Rosa Leão.

Willian Rosa volta a fechar avenida

Cem moradores da ocupação Willian Rosa, em Contagem (RMBH), protestaram nessa terça em solidariedade aos desalojados na reintegração de posse em Vespasiano e em Esmeraldas.

Os manifestantes voltaram a fechar os dois sentidos da avenida Severino Ballesteros Rodrigues, uma das principais da região.


Eles também reivindicaram a retomada das negociações sobre o futuro do terreno, pertencente à Ceasa Minas.