Apontado como o segundo crime mais rentável do mundo, atrás apenas do comércio de drogas, o tráfico de pessoas para fins de exploração sexual costuma aumentar durante grandes eventos, como a Copa do Mundo. Devido à presença massiva de estrangeiros em território nacional, a vigilância foi reforçada, principalmente nos aeroportos.

O crime que, segundo organizações ligadas aos direitos humanos, movimenta US$ 32 bilhões anualmente, fez ao menos 53 vítimas em Minas Gerais entre 2010 e 2013, de acordo com a Polícia Federal.

“Nosso objetivo é coibir esse e outros crimes. Além disso, realizamos campanhas voltadas para a prevenção junto a potenciais alvos, como as prostitutas. É importante lembrar sobre os riscos e cuidados a serem tomados, e isso vem surtindo efeito”, afirma o delegado da Polícia Federal, Roger Lima de Moura.

Segundo o chefe da Delegacia de Defesa Institucional, os contatos entre vítima e autor acontecem, na maioria dos casos, pela internet. É feita uma proposta de trabalho, que pode ser de garçonete, modelo, dançarina ou até mesmo de prostituta. O que o agenciador não revela são as condições de trabalho a que as vítimas serão submetidas.

“As pessoas que, na maioria das vezes, são mulheres, vão em busca de uma melhoria de vida e acabam escravizadas e exploradas”, explica o delegado federal.

Alerta

A fim de chamar a atenção para o risco, a ONG britânica Operation Blessing lançou o documentário “R$ 1 – O Outro Lado da Moeda”, em que são mostrados casos de garotas agenciadas para exploração sexual e como é formada uma rede organizada para a promoção do crime. 

O documentário faz um retrato alarmante do problema e denuncia a apatia do poder público e a vulnerabilidade de crianças e jovens no Brasil. São cerca de 40 mil desaparecimentos por ano em território nacional, sendo que 6 mil vítimas jamais são encontradas, de acordo com o vídeo, que circula na internet desde 17 de junho.

Verificar a seriedade de agências de modelos e de empregos, deixar com a família e amigos os nomes de contatos no exterior e desconfiar de casamentos arranjados por agências internacionais estão entre as dicas do Ministério da Justiça para evitar cair nas mãos de traficantes de pessoas. Não entregar documentos, sobretudo passaporte, a estranhos, é outra recomendação importante.

Valadares e entorno de BH têm mais registros

Em circunstâncias normais, os casos ocorrem principalmente em duas áreas do Estado: em uma região formada por cerca de 200 cidades mais próximas a Belo Horizonte e também em Governador Valadares. Na primeira circunrregião, foram instaurados 28 inquéritos de 2010 a 2013. Na cidade do Leste de Minas, outros 13 no mesmo período.

No ano passado, uma mineira traficada para a Espanha acabou resgatada pela Polícia Federal. Ela se prostituía e foi vendida para um homem com o qual acabou se casando e tendo um filho. O parceiro, que poderia ser a salvação, perpetuou a situação de crime e ela acabou pedindo ajuda às autoridades. Mesmo após ser preso, o homem não respondeu pelo tráfico porque a vítima resolveu não prosseguir com a denúncia.

“Outro dificultador na investigação do crime é a estigma que ele cria nas pessoas. As próprias vítimas evitam falar sobre o assunto por vergonha e medo. Com isso, os registros acabam sendo subnotificados”, avalia o chefe da Delegacia de Defesa Institucional da Polícia Federal, Roger Lima de Moura.

Desde o início da Copa do Mundo, nenhum caso foi registrado ainda em Minas. Uma das explicações pode estar na ordem expedida para impedir a entrada, em território brasileiro, de pessoas já condenadas no Artigo 231 do Código Penal. A pena para quem pratica o tráfico de pessoas varia entre três e oito anos de prisão.