Do desejo pela liberdade, ele fez nascer versos. Edson Alencar dos Santos, de 41 anos, é mais do que um lavador de carros, é um poeta das ruas. Transformou um pedacinho da Timbiras, no quarteirão entre Ceará e Piauí, no bairro Funcionários, zona Sul de Belo Horizonte, em um mural de ideias rimadas. Impossível passar despercebido.

MC da Rua, como se intitula e ficou conhecido, despertou para o talento de escrever há 13 anos. Sem cerimônia, conta ao longo da conversa como surgiu o dom de dar vida às palavras. “Passei um tempo no sistema, sem muito o que fazer e acabei ganhando gosto pela poesia. Foi a melhor forma que tinha para fazer o tempo passar mais depressa”, diz.

Edson conta que esteve preso entre 2001 e 2003, após ser surpreendido com uma pequena porção de maconha, em casa, em Sabará, na Grande BH. Mas o tempo vivido no cárcere, considerado por ele injusto, não foi motivo para cultivar a revolta.

O tempo ocioso acabou transformado pelas letras, formatadas em um texto simples, mas original, que, agora, arranca sorrisos mesmo do mais indiferente dos pedestres da rua Timbiras.

As rimas, um retrato do cotidiano despretensioso e humilde do autor, surgem facilmente. Expostas ao pé de um árvore, disfarçada entre os carros, as “montagens”, como ele chama, são o que diferencia o local da vizinhança comum.

MC da Rua não perde a oportunidade de interagir com os leitores de passagem. A conversa sempre ganha o tom rimado, quase um repente. “No dia a dia/Penso no amanhã/ Quero fazer sucesso/Quero ao menos um fã”, brinca com uma das clientes, que deixa o carro em suas mãos.

Ideias

O trabalho – na verdade, um hobby – vai surgindo ao longo do dia, entre um automóvel lavado e outro, no sossego da rua tranquila. “Tenho dezenas de cadernos, no carro, em casa, em todo lugar, com tudo o que penso no dia a dia. Cada hora vem uma parte e, no fim, vou juntando tudo e faço nascer minha arte”, conta rimando, mesmo sem querer.

Edson é casado há 13 anos com Rosana dos Santos, de 40 anos. É pai de Ed Júnior, de 19, padrasto de Lucas, da mesma idade, e de Carolina, de 17. Gente simples, nas palavras dele, de bem com a vida e otimista. A inspiração, garante MC da Rua, que estudou até a quinta série, vem do cotidiano. “Escrevo só o que vejo e vivencio. Já passei por dias difíceis, mas procuro trazer só alegria para a vida das pessoas. E faço tudo de graça, sem exigir nada em troca”.