A fisioterapeuta Paula Arantes de Castro, de 33 anos, é mãe de duas “meninas”: Dipa, de 9 anos, e Larissa, de 1 ano e 2 meses. Apesar da diferença de idade e das preferências e necessidades distintas, ambas recebem tratamento igual. Não fosse um detalhe, ninguém ficaria surpreso se Paula contasse que a prole até compartilha os mesmos brinquedos. Só que Dipa, a “filha” mais velha, é uma cadela poodle.

Em situações como essa, em que a relação afetiva entre uma pessoa e um animal dá sinais de que está se tornando tão forte a ponto de se igualar aos relacionamentos interpessoais, os especialistas alertam: é preciso ligar o sinal vermelho. “O ser humano é por natureza afetivo e o animal corresponde a esse afeto. Quando o amor e o carinho passam a ser extremados, algo pode não estar bem”, pontua a psicóloga Maria Clara Jost.

Assim como Paula, cujo relacionamento maternal com Dipa (o nome da cadela é o apelido pelo qual a fisioterapeuta era chamada pelo namorado Bruno, hoje marido) não é segredo para ninguém, a médica Patrícia Lycarião, de 31 anos, fica eufórica ao falar sobre sua relação com o bichon frisé Guto, de 6 anos.

Herdeiro

“Trato-o como filho mesmo, até na forma de carregar no colo. Ele gosta de ficar sentadinho e coloca as mãozinhas abraçando o meu pescoço”, conta. Sobre a aceitação – ou reprovação – dos amigos e da família, ela é enfática: “Tem gente que critica sim. E quem a gente sabe que não gosta, nem convida para vir aqui (em casa)”.

Guto foi um presente de Leonardo, marido da médica, durante o namoro.

Para a psicanalista Marília Brandão Lemos, comportamentos como esses podem ser resultado de um mundo onde o individualismo está cada vez mais comum. “As pessoas vão ficando mais isoladas e o animal doméstico muitas vezes ocupa o lugar de uma amizade e até de um parente. Quando isso se torna exagerado demais e até obsessivo, a pessoa acaba pagando um preço muito alto pelo relacionamento”, enfatiza.

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Psiquiatra defende afeição moderada

Ao avaliar o comportamento dos aficionados por bichos e o comprometimento que esse tipo de relação pode acarretar, o psiquiatra Paulo Repsold vai além. Para
ele, qualquer gesto de afeição extrema tem como pano de fundo uma perturbação da saúde mental.

“O saudável está na dosagem média, no equilíbrio. Quando isso  chega ao extremo e o tratamento dispensado a um cão fica maior até do que o afeto que se tem por um
ser humano, passa a ser a expressão de um comprometimento mental”, alerta.

Controle

A farmacêutica Sílvia Teodoro, de 53 anos, se “policia” para que a paixão pelas schnauzer Danka e Luda, de 7 e 2 anos, e pela pastor alemão Laika, de 7, não interfira nas relações pessoais. “Privilegio hotéis e pousadas que as aceitem, assim como bares e restaurantes que não apresentem restrições. Mas nunca cheguei ao ponto de deixar de fazer algo por causa delas”, afirma, deixando escapar, porém, o motivo: poder contar com os filhos do namorado, que moram em BH. Sílvia é dona de um buffet de festas para cães. 

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Humanistas ao extremo

O pesquisador David Blouin, do departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, classifica como humanistas pessoas cujo apego ao pet é muito intenso. 

Segundo ele, para essas pessoas a relação com o cão é tão importante quanto os laços afetivos com outro ser humano. "Elas tendem a antropomorfizar os animais e a estender a vida deles o quanto for possível por meio de cuidados excessivos", diz.