Sérgio Santos Rodrigues assumiu o Cruzeiro em junho de 2020, com a missão de reerguer um clube que passa pela maior crise financeira, institucional e esportiva de seus 100 anos de história. 

 

Entre avanços no setor administrativo, como a redução das dívidas da instituição, e o fracasso na busca pelo retorno à Série A do Brasileiro, o presidente termina a temporada pressionado pelos resultados em campo e pela instabilidade política, que a Raposa segue atravessando.

 

Em novembro do ano passado, Nagib Simões foi eleito presidente do Conselho Deliberativo, em uma decisão que gerou a crítica de parte da torcida celeste, que condenou o apoio de conselheiros ligados à gestão de Wagner Pires de Sá, Sérgio Nonato e Itair Machado, responsáveis diretos pela atual situação do Cruzeiro.

 

Já no início de janeiro, novos conselheiros indicados por Nagib e Sérgio Santos Rodrigues foram eleitos por aclamação, em uma chapa única, o que fez com que Rodrigues fosse acusado de ser conivente com a presença de conselheiros ligados à antiga administração.

 

Em entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, o presidente do Cruzeiro deu sua versão sobre a situação e analisou o cenário político da instituição.

 

“Têm várias coisas envolvidas. A primeira delas, a torcida acha que os 220 conselheiros são aqueles caras que todos os dias eu chego e ligo para cada um deles, perguntando onde eu vou gastar o dinheiro do Cruzeiro, o que nós vamos fazer, etc. Então, o conselho tem um papel muito definido de atuar basicamente quando temos aquelas reuniões (do Conselho ou Assembleia Geral), que são três, quatro por ano, e no papel de fiscalização. Então, o conselheiro não tem aquela voz ativa, que todo mundo às vezes queira vender que o conselheiro tem, ou que o presidente só vai fazer aquilo que o presidente quer. Não é assim que funciona. Quando buscamos fazer uma chapa só, não era chapa minha, chapa do Nagib (Simões, eleito residente do Conselho Deliberativo), deixei isso claro. Falei com o Baroni (Giovanni), que era outro candidato, e com o Nagib, que passada a eleição, independentemente de quem ganhasse, eu iria trabalhar para ter uma chapa só, para ouvir todo mundo. Baroni perdeu a eleição na segunda, na terça eu o procurei e falei para vir para cá para conversar, ver os nomes que ele tinha, para construir uma chapa plural. Ele me disse que não, porque não aceitava nome indicado pelo Nagib. Eu ainda falei pra ele uma frase que eu concordo: 'Baroni, teve gente boa e gente ruim que votou no Nagib. Tem gente boa e gente ruim que votou em você. Ele me disse que tinha gente que apoiou Wagner e no Itair. Eu disse que ele também, que tem vídeo dele abraçado com o Wagner, comemorando o Campeonato Mineiro'. Faz parte, muita gente foi enganada por essa turma. O que eu quero acreditar é que as pessoas que os apoiaram naquele momento, mas que hoje mostram outro comportamento, que elas querem melhorar. Muita gente errou. Graças a Deus, eu, Sérgio, esse mal eu não tenho, você não vai ver nenhuma foto minha abraçando Wagner e Itair, mas teve muita gente boa que fez isso. Aliás, eles chegaram no cargo pelas mãos de gente que estava aqui. Por exemplo, o presidente Dalai (Rocha) que estava aqui, o Gustavo Gatti, que foi do Conselho Gestor, o próprio Emílio Brandi, que são pessoas do bem, mas que fizeram vídeo para colocar Wagner e Itair no poder. Talvez, se não fosse eles, nem entrado (Wagner e Itair) eles tinham. Mas eu acredito que eles melhoraram, enxergaram que aquilo não deveria ter sido feito. O que eu quero acreditar, é que essas pessoas, pelas conversas que a gente teve, mudaram, e elas demonstram isso no dia a dia. Me dizem que 'Ah, você tem gente que assinou na lista do Itair'. Tem pessoas que assinaram na lista do Itair, que fizeram parte da lista do Baroni. Então, porque essas pessoas melhoraram e a outra não pode ter melhorado? Então, o que a gente demonstrou foi que teve gente que assinou a lista do Itair, que já trouxe patrocínio para o clube, que vem intermediando permutas para o clube. Então, isso que eu quero acreditar. Então, chamei esses outros parceiros para fazer uma chapa só. Nesse momento, a chapa que foi derrotada, representada pelo Baroni e por outras pessoas, se manifestou contrária. Por exemplo, o próprio pessoal do Conselho Gestor, alguns tenho amizade, outros não tenho, mas todos os efetivos do Conselho Gestor votaram em nossa chapa e apoiaram o Baroni. É isso que eu falei, tem gente boa do Baroni e do Nagib, e tem gente ruim dos dois também. Tentamos fazer uma chapa plural. Teve gente na chapa que eu não queria, mas eu não mando sozinho. Então, teve um consenso. Eles (turma do Baroni) não fizeram as indicações porque eles não quiseram. O pessoal do Conselho Gestor fez. O Emílio Brandi, que concorreria contra mim, indicou conselheiros. Então, não fui em quem fiz, não foi outro, a gente juntou pessoas que a gente acha que vai trabalhar pelo Cruzeiro. Graças a Deus, tem dado resultado. Muitas dessas pessoas que entraram, já estão ajudando o clube nessa parte financeira e nos projetos pra frente”.  

 

Confira outros temas abordados pelo presidente do Cruzeiro:  

 

Qual é o planejamento para uma temporada em que os recursos vão ser ainda menores? 

 

Sem dúvidas, o planejamento principal do Cruzeiro é subir, como já era. Como eu venho falando, tínhamos o planejamento de pagar dívidas e subir, mas não subimos. Temos que consertar esse rumo de alguma forma. Claro que sabemos alguns dos motivos para que não subíssemos, alguns fatores externos e internos. Os externos, todos sabem do que foi herdado, aí você tira quase R$ 40 milhões pagos em dívidas da Fifa, se eu pudesse ter aplicado no esporte era outra coisa. Não ia ter problema de salário, nem nada disso. Então, o planejamento é subir, só que com a vantagem de você não começar um campeonato com menos seis pontos e com o planejamento só nosso. Vemos muitas reportagens dizendo que o Cruzeiro teve tantos técnicos, tantos diretores, tantos jogadores, só que, muita coisa não dependia da gente. Quando temos a oportunidade de desde o começo planejar, podemos encaixar isso da receita. É um princípio básico de gestão. Temos uma projeção de receita, que até aumentamos de acordo com o que vai surgindo. Temos diversos produtos que nos trazem receitas que não traziam antes, como o departamento internacional, o departamento de E-Sports, a própria reformulação do sócio. Nossa ideia é ter uma receita cada vez melhor e, claro, gastando o máximo possível dentro do futebol, gastando bem e certo para conseguir o objetivo desportivo que é subir.  

 

Porque a intertemporada de mais de dois meses, durante a pandemia, foi tão mal aproveitada? 

 

O planejamento não envolve só o treinamento dentro de campo. Vários aspectos são importantes. Qual foi o problema desses dois primeiros meses? Temos que lembrar que viemos praticamente com o mesmo time, mesma comissão, poucas pessoas chegaram depois da gente. Era um time que não tinha feito uma boa campanha no Mineiro, tinha feito um jogo muito ruim contra o CRB, na Copa do Brasil, em casa. Não é que o planejamento não foi bem aproveitado, nós não conseguimos fazer um planejamento. Eu chego, antes de tomar posse já tenho que pagar uma dívida de R$10 milhões com o Zorya-UCR, senão perderíamos mais seis pontos, tinha que colocar salário em dia, e logo depois já vinha a dívida com o Tigres-MEX. Quando eu falo de planejamento é, identificávamos que o time precisava reforçar, os próprios jogadores sentiram isso e falaram com a gente. Disputamos a estreia do Campeonato Mineiro com seis atletas que nunca tinham jogado um jogo profissional. Acaba que os meninos entram em uma fogueira, é o principal ano do Cruzeiro, o mais difícil. Muita gente acha que não, mas o efeito psicológico - os jogadores relatam todos os dias - dos menos seis pontos é muito grande. Uma coisa é você jogar uma terceira rodada com o Cruzeiro com nove pontos, disparado na liderança, outra é você ganhar três partidas e estar na zona rebaixamento.  

 

Enderson Moreira e Ricardo Drubscky faziam parte do seu planejamento ou só ficaram porque já haviam sido contratados pelo Conselho Gestor?  

 

Não é que eles não estavam nos meus planos. Particularmente gosto muito dos dois, sei da história dos dois, os dois têm trabalhos de sucesso e insucesso, como todos dentro do futebol. Só que, quando você contrata, você tem a oportunidade de conversar, de dizer aquilo que você espera, como vai ser, e não fui que fiz isso. Seria uma baita de uma injustiça eu mandar embora sem ter jogo. Acreditei, sim, no trabalho, como acho que o Enderson começou bem o trabalho dele, foram seis, sete vitórias seguidas.  

 

Pela situação financeira, é muito difícil o clube sair dela sem a torcida ao lado. A gente vê um momento em que a torcida está com uma rejeição, pela questão política do clube. Qual a sua aposta para reverter esse processo? 

 

São duas coisas distintas. A torcida do Cruzeiro tem 9 milhões de pessoas. Você tem um tanto que se manifesta junto e tem gente que não se manifesta. Então, disse uma frase que ficou polêmica, dizendo que eu não fazia gestão de rede social, porque é um ambiente que fomenta mais o ódio do que o apoio. Te dou um dado que mostra que a torcida não rejeita. Não tivemos um mês em que não houve acréscimo de sócio torcedor na nossa base, subindo o tíquete médio gasto por cada um. Embora sejam torcedores que não se manifestem em redes sociais, aqui na porta, esses torcedores entendem o que a gestão está fazendo. No geral, os números mostram que a torcida do Cruzeiro, dentro desses 9 milhões, tem apoiado e entendido a situação.  

 

 O que pode selar a paz política no Cruzeiro? 

 

Hoje, é muito mais externo do que interno. Porque internamente, não temos mais essa guerra (política). Igual eu falei, buscamos fazer uma chapa só, embora seja pandemia, e esteja mais controlado, sabemos que no clube as coisas estão mais calmas, aqui no conselho também. A gente conversa bastante, buscamos essa sintonia, como eu busquei com o Paulo Pedrosa (ex-presidente do Conselho), com o Nagib, como vou buscar com qualquer outro presidente do Conselho. Tenho que pensar no clube. Eu faço essa analogia, pensar em parlamento e presidência, ou parlamento e governo. Hoje, infelizmente, vejo que o maior problema no Cruzeiro são os próprios cruzeirenses externos. Dou o meu próprio exemplo, passei dois anos (2018-2019), as coisas internas que eu via errado, eu questionava no Conselho, mas era difícil você me ver indo para a mídia para xingar Wagner e Itair. Eu não fazia isso.  Eu fazia minhas reclamações, deixava claro aquilo que eu não concordava, mas minha questão era interna. O maior problema que eu vejo no Cruzeiro hoje é esse. Hoje, com a conta de Twitter e um celular na mão, todo mundo quer ter voz. Aí, você pega isso, faz um comentário, que manda pra outro, aí você tem os fomentadores de imprensa, que não são da imprensa, são os que têm um blog ali, outro aqui. Enfim, aí vai juntando. Tem gente que é de movimento de torcida, não necessariamente de torcida, que era uma pessoa que queria estar aqui no clube e não está. Essa paz, nunca vamos alcançar, porque isso vai depender da consciência dessas pessoas. Podem falar o que for, mas, diferentemente de Itair e Wagner, bandido e não sou. Tanto que eu contribuo com o Ministério Público e com a Polícia nas investigações. Então, a partir dessa premissa de que bandidos nós não somos, e que estamos tentando consertar o Cruzeiro, as pessoas deviam ajudar, mas não ajudam. Então, xingam tudo o que têm que xingar, porque tem um objetivo político por trás.  

 

A comissão técnica do Felipão, é o Cruzeiro quem paga ou é um patrocinador? 

 

A gente não comenta valores de colaborador nenhum. Não só da comissão. É praxe no clube, até para preservas as pessoas. A comissão do Felipão, para os cofres do Cruzeiro, custa o mesmo que a do Ney Franco, porque temos parceiros que nos ajudam. Aí os parceiros pedem confidencialidade, mas o custo da comissão do Felipão, quando eu tiro a do Ney, considerando três pessoas, é o mesmo para o Cruzeiro.

 

Como você avalia essa pressão do torcedor, que organiza protestos contra a sua gestão, antes do jogo contra o Operário-PR, nesta quarta? 

 

Eu detesto essa palavra, eu nunca usei, mas o pessoal que estava aqui usava “terra arrasada”. A gente tenta virar essa chave, já colocando salários em dia, não deixando o clube perder mais seis pontos, começa ganhando seis jogos direto, e pintaram como se tudo seria a mil maravilhas, mas, na nossa cabeça, não era. Tínhamos esse controle aqui, mas não temos fora. Então, isso acabou gerando uma expectativa, e, infelizmente por ser um clube de futebol, só interessa o resultado de campo. Só que, para o resultado de campo sair, eu tenho que ter o de fora (trabalho) funcionando. Sobretudo, em um momento em que o departamento de futebol, por si só, embora seja o motor do time, ele não gera renda por si só. Eu não tenho público, cotas de tv não tem mais, porque já estava adiantado, negociação de jogador surgiram muito poucas. Então, o resto da máquina tem que funcionar. A decepção é grande porque eles querem ver uma questão só (resultado em campo), mas eu acho que se todo mundo pegar nosso trabalho de forma geral, ver o que a gente pensa, em redução de R$ 200 milhões de dívidas no balanço, pessoas dizem que não interessa, mas é claro que interessa. Quando meu balanço melhora, eu tenho maior capacidade de captação de receita. Estou pensando nisso o tempo inteiro. 

Então, pressão realmente não me incomoda nada. Já passei por isso, futebol é resultado. Sou muito tranquilo com isso, protestos vão acontecer, o torcedor está chateado, eu também estou, isso que eu explico o tempo inteiro, como torcedor que sou, mas o nosso trabalho é esse: nos desculpar pelos erros que aconteceram, identificar esses erros e não os repetir. Isso, vamos fazer com convicção, com calma, pra gente poder mudar esse rumo. O que vai dar resposta a isso é a performance em campo, o que só vamos poder fazer a partir de 28 de fevereiro (estreia na próxima temporada). Provavelmente, será um próximo mês inteiro de reclamações, a torcida do Cruzeiro é exigente, mas o nosso trabalho é saber lidar com isso e construir a coisa com pé no chão.  

 

Como está a situação das cotas de tv para o Cruzeiro em 2021? O clube tem algum valor a receber neste ano, ou já foi tudo adiantado? 

 

Do Campeonato Mineiro tem parte a receber. Do Brasileiro, foi antecipada boa parte da receita, e a gente tenta fazer uma construção para conseguir receber uma parte, acho que vamos conseguir. Nós vamos optar pelo Pay-per-view (ganha em cima dos números de pacotes vendidos), ao invés da cota fixa (na Série B).  

 

Dá para apontar uma porcentagem de diferença na receita entre o Pay-per-view e cota fixa para o Cruzeiro? 

 

Pelos nossos cálculos de 2020, a cota fixa seria de R$6 milhões a R$8 milhões e o Pay-per-view foi de cerca de R$15 milhões.  

 

Estamos no ano do centenário. Existe algum planejamento, por mais que tenha permanecido na Série B, de algumas marcas determinadas para comemorar o centenário? 

 

Não são dois anos de Série B que vão manchar 100 anos de história. São coisas completamente distintas. A marca continua gigante, o clube vai continuar gigante. Nós somos gigantes, muito maiores, e estamos nesse momento complicado. A nossa dificuldade é muito maior em razão da pandemia. Queria fazer jogos aqui no Mineirão, conversamos com clubes, o próprio Belletti tinha uma situação de trazer um Barcelona. Então, todos querem fazer esse jogo. Já conversei com o Ronaldo (Fenômeno), de olhar com o time dele (Valladolid-ESP), conversamos, através de empresários, sobre o time do Beckham (Inter Miami-EUA). Querer, todo mundo queria, mas a pandemia deixa uma incerteza.  

 

Passados alguns meses da dispensa de alguns jogadores do Sub-20 por indisciplina, você se mantém convicto da decisão, ou agiria diferente hoje? 

 

Sem dúvida nenhuma, agimos acertadamente. É um objetivo que temos no Cruzeiro de ser formador, de ter as pessoas certas aqui. Temos que saber o objetivo da base. Vejo muita gente questionando, afirmando que a base está toda errada porque no Brasileiro foi mal. O objetivo na base não é ganhar título. Você pega os grandes times, que mais revelam, como Athletico-PR, Santos, Flamengo, se olhar, eles têm muito menos título de Copa São Paulo que o Corinthians, que não revela tanto. Então, o objetivo da base é revelar jogador. Não adianta eu falar que vou revelar um jogador, que vai ser “jogador problema” daqui a pouco. Às vezes dão certo porque o cara casou, converteu a uma religião, alguma coisa assim. Queremos formar pessoas boas e, estaticamente, é aquilo que te falei, dificilmente pessoas que têm esse comportamento (indisciplina) vão dar certo. Fora que contamina o grupo. Então, não queremos isso. Vai ser assim no Cruzeiro. 

 

Qual o principal recado para a torcida do Cruzeiro, em meio a esse momento ruim, já pensando na próxima temporada? 

 

O meu recado é sempre de esperança e de otimismo. O de otimismo é porque sempre falo que não conheço pessimista que deu certo na vida. O cara que acha que vai dar tudo errado, tem que largar a profissão. Se ele é cruzeirense e acha que vai dar tudo errado, tem que parar de gostar de futebol, ou do Cruzeiro. Tem que ter essa visão otimista, de esperança, para saber isso. Entender o contexto que chegamos no clube, o trabalho que está sendo feito. Erramos, sim, em algumas partes, como a forma em que acabou acarretando no resultado do futebol, mas entender o que aconteceu para gerar esses erros. O que o torcedor tem que entender é que estamos trabalhando, tem muita coisa interessante para acontecer, muitos patrocínios para vender, renovação de sócio, ações na área digital, internacional, marketing, comercial, muita gente que está ao lado do Cruzeiro. Com os profissionais certos agora, não vamos planejar errado, vai ter tempo de planejar e fazer acontecer a coisa certa.