Na semana em que comemora 20 anos do bicampeonato em Roland Garros, o ex-tenista Gustavo Kuerten, o Guga, conversou durante mais de duas horas com jornalistas do Brasil e também do exterior, via internet. Apesar de o foco ter sido as lembranças daquela épica conquista sobre o sueco Magnus Norman, no dia 11 de junho de 2000, ele também abordou assuntos da atualidade, como a luta pela igualdade e contra o racismo, e a situação política do país.

Em pergunta feita pelo Hoje em Dia, único veículo de Minas Gerais a participar do encontro virtual, Guga foi comparado - tirando as devidas proporções - ao ídolo do basquete Michael Jordan; principalmente pelo fenômeno que se tornou desde 1997, quando conseguiu o caneco pela primeira vez. O tênis, após isso, cresceu absurdamente no Brasil.

Para se ter ideia, assim como a Nike (empresa de materiais esportivos) ganhou imensa projeção mundial tendo Jordan como garoto-propaganda, a italiana Diadora, também aumentou o faturamento (em solo tupiniquim) apostando as fichas no "manezinho". 

"O que acontecia era que as pessoas não conseguiam mais encontrar os produtos à disposição. Terminava tudo logo que chegava. Ninguém estava preparado para o tamanho da conquista e o estrago que fez. Se tivesse mais pontos de vendas e melhor espalhado pelo Brasil, sairia tudo. Todo mundo procurava o tênis, a camisa, que nem maluco, mas eram poucos os que conseguiam encontrar", conta Guga.

Seguindo a resposta, ele partiu para as questões sociais, também presentes no documentário "Last Dance", produzido pela ESPN e exibido pela Netflix.

"O próprio país vive um processo de formação da democracia que ainda, infelizmente, nunca existiu. A gente pode considerar uma pseudodemocracia que, traduzindo, é votação direta, mas quando que a gente sentiu o povo mesmo no poder, ser defendido em todas suas instâncias, abraçado pelos nossos governantes, ou seja, um país muito melhor? Quando? Se olhar para trás aí, a gente estaria numa realidade completamente diferente", opinou Kuerten.

Ainda de acordo com o ex-tenista, o maior da história do Brasil, é necessário que se crie um ambiente de estabilidade no país, com saúde, segurança e educação para todos antes de cobrar o surgimento de um ídolo no esporte, por exemplo.

"Que a gente tenha na saúde algo que esteja estruturalmente montado, pronto. No tênis, quando vai chegar o Guga? Se vier tudo antes... saúde, segurança, educação... Esses três, principalmente. Se tiver isso antes, deixa o tênis para daqui a 50 anos, não tem problema. Um dia vai acontecer. Precisamos ainda dar mais valor a isso. Obviamente, na própria internet hoje é muito delicado porque cada situação, cada ponto, cada tentativa, ela tem hoje um turbilhão de informações e muita capacidade de isso virar invertido, mal dito", comentou.

"Que as pessoas possam sonhar sim em ter melhores perspectivas e uma projeção de vida decente, acho que ela é comum a todos. Acho que ela precisa ser, sim, cultivada, exercida e defendida pelo nosso país com todas as vozes. Não é só do atleta, da figura. Ela vai desde um pronunciamento, de fazer parte de um grupo, de incentivar até a prática do dia a dia. A tentar fazer um pouco do seu papel, poxa. Tentar ali, instigando, inspirando, contagiar mais, levar para essa caminhada, para essa filosofia. Acredito que assim podemos avançar muito, ter gênios de todos os tipos: de altura, de peso, de raça, de modalidade, qualquer coisa. Nosso país tem uma criatividade, uma essência, um brio", finalizou.