O futebol é, comprovado por vários exemplos, um meio muitas vezes hostil às minorias. Constantemente, manifestações racistas, machistas e homofóbicas são reproduzidas no ambiente que, para muitos, deveria ser democrático e inclusivo. Com o grande número de imigrantes da bola que os clubes brasileiros vêm importando nos últimos anos, outra classificação de preconceito tem sido cada vez mais frequente no principal esporte do país: a xenofobia. A mais recente vítima desse tipo de discriminação foi o técnico Rafael Dudamel, do Atlético.

Em uma coluna publicada num blog após o empate do Galo com o Tombense, nesse domingo (2), a nacionalidade do treinador foi citada em meio a comentários com relação ao comportamento do venezuelano após a partida. O autor do texto, muito criticado após a publicação que gerou grande repercussão no meio esportivo, lembrou que o assunto “não é petróleo, nem beisebol, mercados fortes do país vizinho”.

Nos comentários, várias pessoas defenderam Dudamel e criticaram o autor do texto, dizendo que ele estava destilando palavras xenófobas; alguns, defenderam o dono da coluna, o que reitera a existência deste preconceito no país.

Não são poucos os casos em que a nacionalidade de atletas ou técnicos foi usada de forma depreciativa nos últimos anos. Também no futebol mineiro, o lateral Edilson proferiu palavras ofensivas em uma entrevista após o clássico diante do Atlético em 2018: “Quem é Otero? Seleção Venezuelana? Não é porra nenhuma” (SIC). Depois da repercussão, o atleta cruzeirense pediu desculpas ao colega de profissão. O equatoriano Cazares também foi alvo de ataques xenófobos nas redes sociais. O mesmo já aconteceu com atletas de outras nacionalidades, como no Cruzeiro, no Palmeiras e tantos outros.

A lista vai além, incluindo comentários de um preconceito velado, por parte de alguns treinadores brasileiros, que miravam técnicos vindos do exterior, como o português Jorge Jesus e o argentino Jorge Sampaoli. É verdade que, em algumas ocasiões, havia questionamentos apenas à qualidade desses treinadores – ironicamente, se tratam do campeão e do vice do último Brasileirão, respectivamente. Mas, em diversas situações, o preconceito se mostrou inerente. 

Atlético

O sociólogo Maurício Murad, doutor em sociologia dos esportes e professor na UFRJ, acredita que a xenofobia é mais um dos tantos fenômenos enraizados na sociedade brasileira que se reproduz em uma das grandes paixões nacionais.

“O futebol é um dos maiores eventos da cultura esportiva brasileira, um fenômeno que alcança o país de ponta a ponta. Por isso, ele é tão revelador do Brasil profundo, revelando o que há de positivo e negativo. Há a criatividade e a capacidade de organização, mas também a homofobia, o machismo, o racismo e a xenofobia. Ele é mais que esporte, é uma grande representação das contradições brasileiras. Por ser um fenômeno de multidão e paixão, acentua todas as coisas”, explicou o estudioso.

O recente sucesso de treinadores estrangeiros em solo tupiniquim – vide a campanha português Jorge Jesus à frente do Flamengo – pode ser mais um fator que acentua o preconceito contra profissionais que vêm de fora do país.

Para Sílvio Ricardo da Silva, coordenador do Grupo de Estudos de Futebol e Torcidas (Gefut), da Ufmg, a intenção de se conquistar uma reserva de mercado pode levar as pessoas a cometer atos que acabam se caracterizando como xenofobia.

“Com a chegada desses treinadores estrangeiros, a gente vê uma série de manifestações de defesa de mercado. Toda vez que você fecha muito, corre sério risco de ter uma atitude xenófoba mesmo. Vários discursos que vão contra as diferenças estão presentes no Brasil, seja ela de qual ordem for, incluindo a nacionalidade. Como o futebol envolve paixões, acaba sendo um prato feito”, disse o pesquisador. 

Otero

Ainda segundo da Silva, o fato de Dudamel ser venezuelano o torna ainda mais passível de sofrer preconceitos por conta de seu país de origem.

“Logicamente que conta o capital político e social de cada nação. Ninguém questiona um treinador de basquete norte-americano. Agora, o capital esportivo da Venezuela é baixo, e ainda tem uma questão política colocada contra a nação venezuelana“, ponderou. 

Nessa terça-feira (4), o Atlético publicou em suas redes sociais um extenso vídeo abordando como uma família venezuelana escolheu o clube como time do coração (matéria divulgada pelo Hoje em Dia) e realizaram o sonho de conhecer o ex-técnico da seleção Rafael Dudamel. 

Para Murad, ações como essa têm grande importância a longo prazo. Mas necessitam ser acompanhadas de outros tipos de iniciativas. “Eu defendo que são necessários três tipos de medidas: repressivas, de caráter preventivo e de reeducação, que são as de longo prazo e ajudam o torcedor a refletir, pensar melhor e respeitar o diferente, sem vê-lo como inimigo”, completou.

O fato é que a xenofobia está presente no futebol brasileiro, por meio de torcedores, jogadores e da própria mídia – em menor ou maior escala. Agora, resta saber qual será a atenção dada a mais essa forma de preconceito da sociedade que é refletida no mundo da bola. (Colaborou Thiago Prata)

* Sob supervisão de Thiago Prata