Imagine um lateral marcar 15 gols em um único Campeonato Brasileiro! Isso aconteceu com o Alessandro Faioli Amantino, mais conhecido como Mancini. O feito, que ocorreu em 2002, pelo Atlético, deixou o mineiro de Ipatinga como o defensor que mais estufou as redes em uma edição do torneio nacional.

Mancini ganhou projeção e foi brilhar na Europa. Na Roma, entre 2003 e 2008, o lateral se transformou em meia-atacante, virou ídolo na Itália e chegou à Seleção Brasileira. Além de Atlético e Roma, defendeu outros oito clubes.

O “Mança” agora é treinador. Foram três anos de estudos e preparação para iniciar a carreira de técnico. Sonhos? Vários! Um deles é, no futuro, ser comandante do Galo. 

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, Mancini faz um raio-x de sua carreira. O hoje treinador fala de conquistas e algumas tristezas, como atos de racismo sofridos em um clássico contra a Lazio, na Itália. 

O momento no Atlético não ficou fora dessa conversa. O Galo de Dudamel e o porquê de os laterais do alvinegro sofrerem tanta pressão também foram assuntos abordados no bate-papo.

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Como estão a vida e os primeiros passos para virar treinador?
Luciano, a vida está boa. Foram três anos dedicados a estudos na Itália. Fiz o curso na UEFA em Coversiano, que é o centro de treinamentos da seleção da Itália, em Florença. Foram três anos de curso Uefa A, Uefa B e Uefa-Pro. Um curso muito rico, que abriu mais minha cabeça. Fiquei muito feliz em completar essa etapa da minha vida, já que é um curso difícil e longo e que todo mundo que quer ser treinador almeja fazer. 

Como foi comandar o Foggia, da Segunda Divisão da Itália, mesmo que de maneira rápida? Por que não teve continuidade?
Foi bom. Com três anos (de estudos), eu precisava da prática. Foram dois meses muito bons de trabalho, porque fiz uma pré-temporada intensa, com muitos treinamentos. Essa experiência de estar do outro lado, como treinador, é uma coisa nova, mas bem gostosa. Me deu a certeza de que eu queria ser treinador. O dia a dia, o feedback com os atletas... Só não continuei porque penso diferente do presidente do clube, e isso não deu certo para minha continuidade no Foggia.

Você apareceu para o futebol com a camisa do Atlético no começo dos anos 2000. Fez 15 gols no Campeonato Brasileiro de 2002, uma marca única para um defensor. Depois de sucesso na Europa, retornou ao clube em 2011. O que o Atlético significa para você? Tem alguma decepção?
Sou grato a esse clube. O Atlético me abriu portas, me deu a chance de jogar como profissional. Através do Atlético fiquei conhecido no cenário nacional e internacional. Fui para o Galo aos 14 anos, então conheço o Atlético como a palma da minha mão. É um clube que meu deu tanta coisa importante! Não tenho decepção alguma. Tenho muitas alegrias, muitas coisas boas que vivi no Atlético. Houve algumas coisas ruins, mas que serviram para minha carreira e para meu futuro. 

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Qual foi o grande momento de sua carreira? Galo, Roma, Inter, Seleção... O que mais te marcou? E qual foi a maior decepção?
Meu grande momento na carreira foi na Roma. Foram sete anos de muitos bons jogos e boas performances. Lá eu tive um nível de futebol muito acima da média. Minha decepção foi na Inter de Milão. O segundo ano na Inter não foi tão legal. Minha decepção foi por não ter rendido como na Roma. Mas não tenho do que reclamar. Foi uma carreira brilhante.

Qual treinador com quem trabalhou te serve de inspiração na carreira?
O treinador que me inspira é o Luciano Spalletti. Um treinador com quem tive bons anos com a Roma. É um técnico muito ofensivo, que te ensina muito futebol. Aprendi muito com ele. Hoje ele é o treinador que me inspira. 

O nível de cobrança entre futebol europeu e brasileiro é diferente? 
Acredito que no Brasil tem mais cobrança e que o futebol é mais falado diariamente. A própria cobertura de repórteres é maior. Na Europa não existe isso. Lá o treinador e o jogador concedem entrevistas um dia antes do jogo. Não é no cotidiano como aqui no Brasil. O europeu, com sua cultura no futebol, não é muito de rádio ou televisão, falando 24 horas sobre futebol.

O racismo é que não acaba. Isso era corriqueiro nos clássicos contra a Lazio, por exemplo. Você vivenciou uma situação complicada por causa disso?
Estamos em 2020, e ainda tem pessoas ignorantes, sem respeito pelo outro. Essa questão do racismo precisa ser banida no futebol mundial. Já vivi situações constrangedores, mas eu ignorava. Dar confiança para este tipo de pessoa (racista) não vale a pena. Na Roma, em um clássico (contra a Lazio), eu pegava na bola, e a torcida imitava (o som de) um macaco. Procurei não deixar me abater, mas repudio qualquer tipo de injúria racial. 

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Você também jogou no América por dois anos, em 2014 e 2015. Jogou por duas vezes a Série B do Campeonato Brasileiro. Como você avalia essa passagem pelo Coelho? 
A passagem foi positiva. Tivemos dois acessos. O primeiro, no entanto, não aconteceu na prática, porque houve aquela perda de pontos  (em 2014). Na última rodada, quase subimos, mas o Avaí ganhou do Vasco, e a gente saiu. No ano seguinte, conseguimos o acesso, subimos para a Série A, mas o clube optou em não permanecer comigo. Fiquei um pouco chateado porque foram dois anos de trabalho bem feito, sério e de boa performance e, no momento de jogar uma Série A, não continuaram comigo. Isso me chateou, mas faz parte do processo. 

Como observa o Atlético hoje, agora comandado pelo venezuelano Dudamel?
O Atlético está em uma transição, agora com o Dudamel, que está começando com uma filosofia. O novo projeto do treinador e do Atlético é de apostar na base, de fazer um trabalho bem feito. Acredito que o clube esteja no caminho certo. 

Pensa em voltar ao clube, quem sabe como técnico?
Penso sim. É um sonho. Tenho o desejo de, em alguns anos, treinar o Atlético. Seria uma continuidade, em poder contribuir agora na parte técnica. Então eu tenho esse sonho, sim, de comandar o Atlético.

Por que os laterais-direitos do Atlético sofrem com críticas? Você, inclusive, teve que ser emprestado para São Caetano e Portuguesa no começo da carreira. O que você acha dos donos da posição atualmente? O Patric, por exemplo, é sempre muito criticado.
Não sei o motivo. Eu sofri isso no passado. O Patric nos últimos anos, o Marcos Rocha... Mas faz parte. É a posição que mais corre, a mais exigida no futebol, tem que marcar, tem que apoiar... Eu, sinceramente, não consigo responder a essa pergunta. No entanto, o importante é saber receber essas críticas. Alguns recebem de um modo positivo, e outros, de forma negativa. Então, no meu caso, serviu de aprendizado, de colocar a mão na consciência, e isso me impulsionou, me deu força. Acredito que o Patric sofra muito, mas ele tem reagido muito bem. Tanto que já são dez anos de Atlético. Mas é uma coisa que não consigo entender: por que só os laterais?