Integrante da primeira seleção brasileira campeã olímpica de vôlei, no ano de 1992, em Barcelona, o ex-levantador Talmo Oliveira vive uma nova empreitada dentro do esporte que o consagrou. Depois de treinar várias equipes que disputam a Superliga, o mineiro de Itabira assumiu provisoriamente o time sub-16 do Olympico, onde joga justamente sua filha, Julia.

O convite se deu com o intuito de preencher a lacuna deixada pela técnica da equipe, que utilizou a licença maternidade. Após participar do processo seletivo e ser o escolhido pelo tradicional clube de Belo Horizonte, Talmo voltou a passar algumas horas do seu dia dentro de quadra. Participativo e exigente com suas atletas, o medalhista de ouro procura unir seus conhecimentos acadêmicos com sua experiência como jogador.

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Agora, o levantador de uma equipe que revolucionou a maneira de jogar vôlei e influenciou gerações seguintes vai ser um dos responsáveis pela formação de atletas na base do clube que o trouxe de novo para as quadras.

Como está sendo para você voltar a treinar uma equipe, desta vez nas categorias de base do Olympico e com sua filha no time?

É muito doido, porque quando minha filha começou a jogar em São Paulo, era mais na escolinha, mas quando viemos de mudança aqui para BH, ela fez o teste e passou no Olympico. Gostou do ambiente, começou a fazer amizade já no dia da peneira e decidiu nem tentar outros lugares. Recentemente, a treinadora dela ficou grávida e tinha que sair de licença maternidade. Então, abriram um processo seletivo para a categoria, e eu resolvi entrar. Nessa hora, a supervisora do voleibol do clube perguntou: “como assim”? E respondi que queria entrar no processo seletivo. Eu entrei, eles me escolheram. Está sendo um desafio bem bacana.

Nos tempos de treinador de equipes da Superliga, o que você sentia falta na formação dos atletas e planeja trabalhar nesse momento na base?

O primeiro grande problema que a gente encontra hoje no esporte é que atletas estão chegando nas categorias de base com um repertório motor muito aquém do que era praticado anos atrás, e são vários fatores que influenciam isso. O primeiro é a tecnologia, que está tirando muita gente das brincadeiras nas ruas, da escola, da parte esportiva mesmo. Então, o repertório motor vem com uma defasagem muito grande. Outro ponto que sempre quis trabalhar com o atleta, independentemente de estar no profissional, é o fundamento, pois o vôlei precisa disso, e muito. Aí, você tem que ter um conhecimento muito grande de aprendizagem motora, iniciação esportiva, pedagogia do esporte, tudo para que você saiba fazer com que seu atleta tenha o melhor rendimento. E eu tenho uma alegria muito grande de ter feito educação física, especialização, mestrado e agora um doutorado. É um desafio muito grande, mas ter trabalhado no adulto, tendo visto as necessidades, e agora estar na base é algo importante.

E para as meninas? Como está sendo para elas ter uma figura com tanta história no voleibol como treinador?

Eu falo que quando entro na quadra, tem uma transformação muito grande. O Talmo fora da quadra é muito diferente do Talmo dentro de quadra. No treino, a cobrança é total. As meninas estão entendendo muito bem, e isso é muito bacana. Eu disse para elas que não precisavam se assustar, porque quando acaba o treino, sou outra pessoa. Vejo uma responsabilidade minha, de trabalhar com a formação integral dessas meninas. Me cobro muito, e a elas também. Mas as meninas estão entendendo que é para o bem delas. O time vem evoluindo muito, amadurecendo, melhorando em fundamentos. Então, perceber essa evolução no dia a dia, trabalhando com elas, é algo muito gratificante.

Qual a influência da geração de prata naquela equipe campeã olímpica de 1992? Acha que vocês também influenciaram as outras gerações de ouro do voleibol brasileiro?

Nós temos uma reverência muito grande pela geração de prata, com Bernard, Renan, Montanaro, William, Xandó, Amauri... Era uma geração fantástica, que serviu muito de inspiração para a gente. Vimos também os erros que cometeram. Assim como acredito que outros campeões olímpicos mais recentes se inspiraram na nossa geração. Mas acredito que aqueles da geração de prata foram os grandes responsáveis e precursores de tudo

Quais são as grandes lembranças daquela campanha em Barcelona? A semifinal contra o grande time dos Estados Unidos foi o jogo do título?

A semifinal contra os Estados Unidos realmente foi muito difícil, mas toda a nossa trajetória foi muito tensa, muito complicada desde a estreia contra a Coreia. Nós caímos em uma chave dura. Não vou eleger nenhum jogo como o mais difícil, pois tudo era muito tenso. É claro que contra os Estados Unidos foi mais tenso ainda, porque a gente tinha na cabeça que eles eram fora de série. O sistema defensivo era excepcional, eles estudavam muito o jogo. Mas a gente também estudou muito e sabia que tinha pontos a nosso favor. E o final da campanha foi fora de série, que culminou no ouro e marcou o esporte brasileiro.

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O que você acha que aquela seleção trouxe de novo para o voleibol mundial na parte técnica e tática?

A versatilidade daquela seleção foi o grande diferencial. Até então, todo mundo jogava muito simples. O que acabou sendo implementado na nossa seleção foi um jogo muito rápido, com os atacantes puxando duas primeiras bolas e todo mundo batendo do fundo. E olha que não tinha líbero, nada disso. Então, o central tinha que passar, o ponteiro atacava no meio, o oposto bloqueava no meio, na ponta, variava demais, e ficava difícil marcar.

Por que você acha que as equipes de hoje estão mais engessadas no momento ofensivo?

Hoje a estatura dos atletas cresceu muito, e houve uma mudança em diversas coisas. Hoje você não precisa fazer uma desmico (ponteiro atacando atrás do central), porque há a pipe, que tem praticamente o mesmo efeito. Hoje o jogo está mais rápido, com mais potência. Acho que isso é muito de adaptação para um determinado período. Culturalmente o jogo está assim. E vai ficar até que a gente encontre alguém que resolva fazer diferente e dê certo. Mas tudo isso depende muito da característica dos atletas que você possui em sua equipe.

A velocidade de jogo foi levada ao extremo por aquela seleção brasileira campeã olímpica em 2004. Como você viu esse processo, que tinha como levantador reserva o Maurício, seu companheiro em 1992?

Essa época já existia líbero, então havia um controle maior de passe, e os atacantes recebiam bolas ainda mais rápidas. Acho que dentro dessa geração, a característica dos atletas de 2004 era ser atletas mais velozes. Se você pensar no Tande, ele era um jogador de muito recurso técnico, mas não de velocidade. O Marcelo Negrão era mais alcance. Já o Canha (André Nascimento) era muito mais na velocidade do que na altura. Ainda teve o Ricardinho, que soube aproveitar essas características muito bem. Aquela seleção utilizou muito bem das características que os jogadores tinham.

Você participou do início do projeto Sada/Cruzeiro. Já dava para perceber que a equipe se transformaria nesse time tão vencedor?

Sim. Sempre houve essa mentalidade de ser uma potência mundial. Sempre a ideia era a de que iríamos chegar, crescer aos poucos. E conseguiram fazer um belo trabalho.

Como foi sua experiência em Montes Claros? É especial a forma com que a cidade trata o time, com ginásio sempre lotado?

O ginásio não era lotado, era simplesmente empapuçado. Era uma loucura aquela cidade, e o time correspondia muito bem, jogava junto com a torcida. Tínhamos o Lorena, que incendiava tudo, e o Rodriguinho, que era mais calmo. Era uma equipe que treinava até não aguentar mais. Quem entrava para jogar contra a gente sabia que ia ser difícil.

Bater o Cruzeiro na semifinal de 2009/2010, após ter sido demitido logo antes, teve um sabor especial para você?

Eu tento virar a chave o mais rápido possível. Quando fui para Montes Claros, com a indicação dos próprios atletas, desliguei de tudo e entendi que tinha que começar um novo trabalho. Na Superliga, encaramos cada jogo como um campeonato. A gente foi com tudo para chegar à final eliminando o Sada/Cruzeiro na semifinal. Se teve um gosto especial por ser contra o Sada, não teve. O especial foi ter ajudado minha equipe a estar nesse pódio. Nesse ponto, acho que foi muito importante para minha carreira, para a cidade de Montes Claros como um todo.

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E agora? A volta às quadras é definitiva? Quais são os planos do Talmo?

Eu fui muito bem recebido aqui no Olympico, por todas as pessoas do clube. Depois desse tempo em que estou substituindo a técnica da categoria, a ideia é que eu continue para ajudar na formação dessa base do clube, unir o que temos de teoria na faculdade com o que temos de experiência de prática. A ideia é fazer o desenvolvimento para formar atletas da base tanto no masculino quanto no feminino.

* Sob supervisão de Thiago Prata