Como zagueiro, Dênis Ricardo fez história com a camisa do América, clube pelo qual realizou 199 partidas, e também teve passagens importantes por Sporting Cristal, do Peru, Botafogo e Palmeiras. Hoje, aos 45 anos, o belo-horizontino reaparece no cenário da bola como agente de um dos melhores atacantes do país na atualidade, o flamenguista e também mineiro Bruno Henrique.

Tendo como braço-direito o ex-companheiro Wellington Paulo, com quem fez dupla de zaga no Coelho, Dênis faz cursos de gestão e aprimora os serviços como empresário. Com o sucesso do “Flecha” no rubro-negro, ele vê o nome ganhar destaque no mundo e, como o próprio conta ao Hoje em Dia, já começa a ser procurado pelos mais renomados agentes do planeta.

Nesta entrevista ao HD, o ex-zagueiro relembra a história construída pelo América, fala da emoção de retornar à Lima, desta vez para ver o “pupilo” Bruno Henrique lutar pelo título da competição mais importante do continente, conta como se preparou para a função de agente, destrincha a estratégia montada para que o atacante do Flamengo se tornasse case de sucesso da empresa e muito mais.

Cabe lembrar que, quando defendeu o time peruano, Dênis chegou a marcar um gol importante no estádio Monumental, palco do duelo deste sábado (23) entre a equipe carioca e o River Plate, da Argentina.

O que foi mais marcante para você com a camisa do América: a conquista da Série B, em 1997, ou da Sul-Minas, em 2000?

Para mim foi a Sul-Minas. A Série B nós disputamos apenas contra times daquela divisão. A Sul-Minas, por sua vez, tinha equipes da Série A. Foi um título muito disputado e, ao mesmo tempo, com equipes bem qualificadas na época. Em 97, eu não era titular absoluto, mas joguei mais partidas que o Ricardo, titular. Em 2000, eu era titular e capitão do time; para mim, teve sabor mais especial.

Pela estrutura e mentalidade da diretoria atual, o América pode conquistar algum título de expressão como Copa do Brasil ou Sul-Americana? Quanto tempo isso levaria?

Olha, te confesso que não sou tão próximo desta diretoria, porque meu trabalho me toma muito tempo. Como torcedor, te falo que torço pelo sucesso do América pela história que construí lá. As pessoas ficam comemorando acesso, mas eu queria comemorar o time numa Sul-Americana, numa Libertadores... Da década de 90 para cá, acho que o América está atrasado. Era para, hoje, estar brigando por essas competições. Essa oscilação de subir e descer mostra que, quando se está na Primeira Divisão, não tem muito peso, e quando se está na Segunda já é uma equipe de tradição. Isso não é legal.

Como foi, depois de tanto tempo no América, deixar o clube para jogar no Botafogo? Qual recordação você guarda dos tempos de Rio de Janeiro?

Minha saída do América foi um pouco tardia, poderia ter sido antes, porque eu estava vivendo um grande momento em 1999, que foi nosso acesso, e acabou que não fui vendido. O clube perdeu o timing. Eu poderia ter ido para o São Paulo, mas acabei indo para o Botafogo, com o Brasileiro já em andamento. Busquei meu espaço, atingi a titularidade e tive uma sequência muito boa de jogos. Foi uma relação muito boa. Quase dois anos de muita intensidade e que me marcaram muito. Tenho uma recordação muito boa e um respeito muito grande pelo Botafogo.

Você atuou no Sporting Cristal, do Peru, e foi muito bem por lá. Qual a sensação de retornar a Lima, desta vez como empresário, para ver seu atleta Bruno Henrique disputar uma final de Libertadores?

Cara, te confesso que está sendo uma emoção diferente, sabe? Quando a gente para de jogar, demora um tempo para realmente tirar as chuteiras e acabar com aquela euforia daquele dia a dia. Quando saí de lá, em 2002, nunca mais estive no Peru. Conquistamos um título marcante e tenho recebido muitas mensagens após ter postado no meu Twitter de que estaria na final. Um torcedor, inclusive, me contou que o sobrinho tem o nome de Denis, por minha causa e da identidade que criei no clube.

Como você resolveu se aventurar nesta vida de empresário?

Essa profissão me acompanha desde a época que eu jogava. Em 1996, eu estava emprestado ao Villa Nova e fui renovar meu contrato. Estava na sala também o Mário, atacante emprestado pelo América. Renovei e, quando saí, ele me pediu para ajudá-lo. Foi bem engraçado. Depois, em 1998, no processo de reformulação para o ano seguinte, o Salum me pediu para indicar um zagueiro mais novo para iniciar a temporada comigo. Na hora, pedi para repatriar o Wellington Paulo, que já estava na lista de jogadores que já tinham estourado as oportunidades no clube. Consegui convencê-los, convenci o Wellington a voltar e a baixar o salário, e ele aceitou. Acabou que ele se tornou um dos jogadores com mais jogos pelo América. Ali eu já vi que levava jeito para esse tipo de gestão.

denis


Como surgiu o Dênis empresário e como é a parceria com o Wellington Paulo, que foi seu companheiro no América?

Primeiro, a gente só trabalha junto por causa da amizade. Isso facilita no dia a dia, porque temos muitas divergências de opiniões, mas, com amizade, ajuda demais no relacionamento para gerir conflitos. O tratamento profissional tem sido cada vez melhor porque estamos nos capacitando cada vez mais para oferecer um trabalho de qualidade para nossos atletas.

Como os caminhos de Dênis e Bruno Henrique se cruzaram?

O Álvaro Damião me apresentou o Bruno para que eu pudesse fazer a gestão da carreira dele. Marquei uma reunião na casa dele, no Concórdia. Estavam a noiva, as tias, o irmão. Montamos ali uma parceria e um plano de carreira. Busquei entender o histórico dele, que não tinha passado por categorias de base, mas que tinha muito potencial. Teve que conviver com mais responsabilidades, as quais não tinha na várzea. Montamos uma estratégia. Ele acreditou nesse trabalho e até hoje temos essa parceria séria; agora colhemos os frutos.

Aproveitando o sucesso, o Bruno está lançando uma marca própria de produtos, a BH27. Isso faz parte da estratégia?

Aí entra a profissionalização e a oportunidade de negócios que a gente vislumbra com o nome dele. Já sabíamos que ele tinha uma velocidade fora do comum. Já pedíamos aos clubes para ter atenção na potência e na velocidade dele; contudo, os clubes tratam as coisas de forma muito superficial e às vezes acham que estamos “puxando sardinha” para o nosso lado. O Bruno é muito disciplinado. Tivemos a ideia da marca com ele. O “27” é pelo dia que ele casou, em março. No Santos, ele podia ter usado a camisa 11, que era do Neymar, mas escolheu esse número para escrever sua própria história. No Flamengo, a mesma coisa.

O Bruno Henrique pode abrir portas para sua empresa?

Claro! Já tem aberto. Três empresários, referência no mundo, estão tentando falar comigo. Temos aproveitado bem esses momentos para criarmos mais relacionamentos. Isso aumenta mais ainda nossa responsabilidade no mercado. Não podemos perder o foco da gestão de carreira. Não gosto muito de dar entrevistas. Ou aparece a minha equipe ou os atletas. Eu apenas organizo as coisas. Cuidamos de tudo para que os atletas se preocupem apenas em jogar futebol.

Como foi participar do processo de reconstrução do Palmeiras, que caiu para a Série B pela primeira vez em 2002?

Eu, voltando do Peru como campeão nacional, aceitei esse desafio. Acabou que lá foi o momento mais complicado da minha carreira, pois tive uma lesão grave. Fiquei praticamente o ano todo lesionado e joguei muito pouco. Tive uma participação interna no acesso, mas sem atuar tanto.