Até o ano passado, Thais Makino Shiraiwa conciliava a escalada esportiva com o trabalho de assistente de Fotografia. Como tinha de pagar as viagens para os torneios do próprio bolso, a atleta de 31 anos precisava fazer outra coisa da vida. A escolha da escalada como modalidade olímpica em Tóquio - além do surfe, caratê, beisebol e skate - mudou a vida de Thais. Hoje, ela deixou a fotografia e será uma das esperanças do Brasil no Mundial da modalidade que começa domingo, no Japão. O torneio distribui sete vagas para Tóquio.

A trajetória da campeã brasileira retrata, com maior ou menor proximidade, a história de cerca de 60 praticantes que disputam um lugar na seleção brasileira. Considerando-se os amadores, o número chega a 500 escaladores. Números modestos. Até 2014, os atletas não tinham garantia de que o Campeonato Brasileiro duraria o ano todo. Raphael Nishimura, presidente da Associação Brasileira de Escalada Esportiva (Abee), entidade que organiza o esporte e é filiada à International Federation of Sport Climbing (IFSC), reconhece que a modalidade ainda está engatinhando no País.

Neste cenário, o País tem poucas chances de conquistar uma das vagas olímpicas que são oferecidas no Mundial de Escalada Esportiva, a partir de domingo, no Japão. O prognóstico melhora um pouco no Pan, que será disputado em fevereiro nos Estados Unidos e valerá mais duas vagas, uma para cada sexo.

Um entrave para a popularização da escalada no país é a crença de que é um esporte perigoso. "Com a Olimpíada, as pessoas vão entender que não é um esporte de alto risco. Com responsabilidade e conhecimento, não tem perigo", diz Thais.

Dirigentes e escaladores apostam na escolha para Tóquio como um grande salto para a modalidade. Essa esperança se apoia, entre outros fatores, no orçamento anual da ABEE. Antes de ser uma modalidade olímpica, o orçamento anual era de R$ 12 mil, gerados com as mensalidades dos associados. Hoje, com a ajuda do COB, a verba anual subiu para R$ 700 mil. Nesta onda, a seleção brasileira conquistou seu primeiro patrocínio: a seguradora Prudential do Brasil.

Janine Cardoso, diretora técnica e de planejamento da Abee, explica que uma das estratégias de crescimento é apostar nos jovens competidores para garantir torneios de base e a renovação da seleção brasileira para as próximas competições. "Queremos estimular os jovens", diz Janine.

Thais começou quando era criança. Seus pais descobriram o esporte na Pedra do Baú, ponto turístico do interior de São Paulo, vinte anos atrás. Era escalada na rocha - na Olimpíada, a disputa é indoor. Goro Shiraiwa, pai de Thais, pratica a escalada até hoje, mesmo aos 64 anos. Todos ficam olhando quando ele chega para treinar na Fábrica Escalada, ginásio especializado que atrai cada vez mais praticantes em São Paulo. Alguns tentam fazer o que seu Goro faz, mas não conseguem se pendurar nas agarras espalhadas pelas paredes de 4,5 metros.

"Ver a escalada se tornar um esporte olímpico é um sonho distante que está acontecendo. É tudo de bom", diz o pai da atleta brasileira.