De estagiário a técnico vencedor e com lugar no ranking dos profissionais com mais partidas no comando do Cruzeiro. Passadas duas décadas desde os primeiros passos na carreira, ainda na Toca da Raposa I, em 1997, Mano Menezes faz questão de demonstrar gratidão pela oportunidade recebida e agora tenta conduzir a equipe estrelada ao tricampeonato da Copa Libertadores.

Prestes a iniciar a disputa das quartas de final do torneio mais importante das Américas, o gaúcho de 56 recebeu o Hoje em Dia para uma entrevista exclusiva sobre o momento no clube celeste, a trajetória como treinador e muito mais. 

Exatos 21 anos separam as conquistas do Cruzeiro na Libertadores (1976 e 1997). Esse intervalo se repete em 2018, e isso anima o torcedor. Acredita nessas superstições e coincidências?

Como treinador, acredito mais em trabalho. Mas é óbvio que existem as coincidências, elas marcam na história e fazem o torcedor sonhar com mais força. Em 1997, o Cruzeiro também teve um início muito difícil com o Oscar (Bernardi) no primeiro turno da fase de grupos, e teve que buscar uma reação assim como a gente fez no segundo turno de grupos desse ano. Isso vai acendendo essa lembrança do torcedor, ele vê coincidências, e isso faz com que ele acredite mais. Mas a parte mais importante é o que a gente faz lá dentro (de campo). Vamos juntar tudo isso para tornar o Cruzeiro bem forte para esse momento de reta final. Teremos agora um Boca Juniors pela frente. É essa dificuldade que torna a competição tão valiosa e engrandece a trajetória de quem a conquista.

Você perdeu uma Libertadores para o Boca, com o Grêmio, em 2007. Considera uma revanche?

Tudo é importante. Ninguém lembrou, mas nas oitavas de final a gente enfrentou o Flamengo. No Corinthians, em 2010, fizemos a melhor campanha da fase de grupos e enfrentei o mesmo Flamengo. Perdemos no Maracanã e vencemos em São Paulo, mas não foi suficiente, pelo gol diferenciado. Você vê que as coisas vão se repetindo. Espero que a gente tenha, diante do Boca Juniors, nessa segunda oportunidade, o mesmo sucesso que tivemos com o Flamengo nas oitavas de final. O Boca é uma grande referência do futebol da América Latina, então espero dois grandes confrontos.

 

 

O que mudou daquele Mano de 2007 para o Mano de agora?

Dez anos, no futebol, é muita coisa. Eu digo que o futebol é um resumo da vida em um período menor. Já Passei por Corinthians, Seleção, esta é a segunda passagem pelo Cruzeiro, estive na China, no Flamengo... São passagens que vão te ensinando muito em termos de experiência e dando conhecimento. Em 2007, enfrentei o último suspiro de um Boca Juniors extremamente vencedor. Era um timaço. Tínhamos surpreendido muito na campanha (Grêmio), mas não conseguimos encarar de frente. Eram muito superiores.

Na sua época de estagiário do Cruzeiro, não acontecia o que vemos hoje, com muitos interinos assumindo o cargo de treinador. O que mudou?

Se entregava trabalhos mais significativos para treinadores experientes, que já tinham uma trajetória para sustentar aquela responsabilidade. Realmente, o futebol mudou bastante. Hoje, temos comissões técnicas complexas, compostas por mais profissionais. Isso dá, dentro do clube, uma sustentação ao trabalho mais científico, mais planejado, e cria uma possibilidade de se colocar alguém de dentro desse trabalho em determinados momentos, pelo conhecimento que esse profissional tem, e ao mesmo tempo também oferece grandes oportunidades. Mas, volta e meia, se chega à conclusão de que os novos ainda estão muito novos e que se precisa buscar um treinador de mais nome para dar uma segurança maior para a expectativa que o torcedor tem.

 

 

Você é o técnico mais longevo em uma Série A marcada pelas trocas frequentes de comando. É a favor de regras restritivas? 

Sou totalmente a favor, e sou mais rigoroso ainda. Cada técnico deveria dirigir só uma equipe na Série A no mesmo ano. Porque acho até um pouco antiético. Tenho todo o conhecimento do Cruzeiro, sei dos atletas que têm limitações, porque trabalho aqui com eles, e daqui a duas semanas posso jogar contra esses mesmos profissionais. Está provado na história do futebol brasileiro que os clubes que conseguiram passar pelos momentos de dificuldade e estenderam o trabalho a longo prazo conseguiram grandes resultados. Desde o falecido Telê Santana no São Paulo, o Felipão no Grêmio e no Palmeiras, o próprio Tite no Corinthians, que quase saiu em uma eliminação precoce na Pré-Libertadores contra o Tolima... Aquele trabalho poderia ter sido abortado ali se as pessoas não tivessem confiança. 

Você mesmo viveu isso aqui no Cruzeiro...

Foram dois momentos de dificuldade, na temporada anterior e nesta. Conseguimos passar e já estamos numa semifinal de Copa do Brasil e nas quartas da Libertadores. Sou extremamente a favor de uma regulamentação. Fará bem ao futebol brasileiro. É muito importante não só o treinador pensar ao aceitar um projeto pensando num trabalho de longo prazo, mas também haver o mesmo tipo de pensamento por parte de quem contrata o treinador. À medida em que você sabe que não pode contratar outro treinador de Série A naquele momento, você vai pensar mais vezes antes de escolher um profissional para dirigir o seu clube. Esse pensar mais, aprofundar um pouco mais nas análises, faz bem para todo mundo, e fará bem para o futebol brasileiro, sem dúvida nenhuma.

 

 

Pensa o mesmo sobre a Seleção? Você ficou só dois anos...

O que foi feito agora com a permanência do Tite após a Copa, pela primeira vez em muitos anos, pelo menos desde que eu acompanho futebol, é algo significativo para a gente alterar essa entrada e saída no mínimo a cada quatro anos na Seleção Brasileira. Não é um lugar para se ficar entrando e saindo. Precisamos olhar um pouco para o lado, aprender o que há de melhor em termos de planejamento, para sustentar um trabalho a longo prazo. É necessário que se faça isso, e eu espero que o Tite consiga fazer esse próximo ciclo completo.

Na Copa da Rússia, a Seleção teve apenas dois dos atletas convocados por você para a Olimpíada de Londres-2012 (Danilo e Neymar). Você também ficou frustrado com a geração de Ganso, Pato, Oscar e Lucas, entre outras grandes promessas?

Por incrível que pareça, isso é bastante comum no futebol brasileiro. É uma ordem natural pela quantidade de talentos que nós temos. O funil é muito apertado. Quando o Ney Franco foi convidado por mim para ser o técnico da Seleção sub-20, fizemos um estudo e chegamos à conclusão de que, do último time campeão mundial da categoria, só dois ou três jogadores tinham ido à Copa do Mundo, alguma coisa assim. Talvez seja por esse excesso de talentos que temos à disposição. Muita gente fica pelo caminho. E nós ainda somos dispersivos, achamos que vamos chegar porque somos muito bons, e aí perdemos muita coisa. É um cuidado a se tomar. Uma condução de trabalho coerente e planejado dentro da CBF vai fazer com que se perca menos durante o caminho.

 

 

Você dirigiu o Ronaldo Fenômeno, já no fim da carreira, e iniciou o ciclo do Neymar na Seleção Brasileira. Como foram esses trabalhos?

Tive esse privilégio. Me chamou a atenção o respeito que o Ronaldo tinha naquele estágio, porque a tendência é você achar que sabe mais que todo mundo e se fechar para muita coisa. Mas ele foi muito interessado, sempre prestou atenção em tudo. Era um jogador que você precisava se preparar para conversar, porque contestava, tinha argumentos baseados em todas as experiências que viveu ao redor do mundo. Com esse jogador, você não pode vir com uma conversinha mole, ou vai passar vergonha. Você cresce profissionalmente quando dirige grandes profissionais como ele. Em relação ao Neymar, se não fosse eu, outro técnico certamente o levaria para a Seleção. Era a hora dele. É um talento que pode crescer ainda mais. O que ele não pode esquecer é a essência, que é o futebol, a coisa mais importante. Esse sentimento, a gente não pode perder o respeito por ele.

Para concluir, o que o Cruzeiro representa na sua carreira?

Tenho uma imensa gratidão ao Cruzeiro. É muito raro um clube grande abrir as portas para um desconhecido vir fazer estágio, como permitiram que eu fizesse em 1997. Teve a participação do Paulo Autuori, mas foi o clube, a instituição, que cedeu para eu vir. Estabeleceu-se um elo de respeito e carinho, e essa foi a primeira coisa que pensei quando recebi o convite para a minha primeira passagem. Essas coisas significam muito, fazem com que a empatia seja maior, com que a consideração seja maior e, sendo assim, existe um respeito maior. O respeito é o pai de todos os sentimentos para você seguir em frente em um trabalho longo. E os resultados mantêm os períodos mais longos. Esse é o objetivo que temos pela frente nesta reta final das competições.

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