O jeito tímido e discreto evidencia o DNA mineiro de Thiago Larghi, de 37 anos, que completará 42 jogos no comando do Atlético no duelo desde sábado contra o Corinthians. Natural de Paraíba do Sul, interior do Rio de Janeiro, ele tem raízes fortes na terra do “Uai, Sô”. O pai, Aurélio, nasceu em Mar de Espanha, na Zona da Mata; em Sabará, na Região Metropolitana da capital, residem vários familiares e amigos.

Sem sucesso em testes nas categorias de base de grandes clubes do país, inclusive o Galo, Larghi disputou o Mineiro de Juniores de 1997 com a camisa do extinto Montanha Futebol Clube, time sabarense fundado em 1959. Volante “estilo Gustavo Blanco”, como ele mesmo se define, Thiago mudou o percurso, quando entrou na faculdade de Educação Física, e viu novas portas se abrindo no mundo do futebol.

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, o treinador atleticano conta como se tornou analista de desempenho, fala do desafio de comandar o alvinegro em 2018, projeta um título brasileiro em no máximo três anos, e muito mais.

Conte um pouco da sua história no futebol, desde a infância...

Primeiro que eu gostava de ver futebol desde a infância ainda. Tenho uma lembrança da Copa de 86, um Brasil x Espanha. A paixão pelo futebol veio do meu pai. A família sempre falando de jogos, de jogadores, de tudo. Logo logo comecei a jogar na escolinha e fui jogar fora e em outras competições fora da minha cidade. Joguei futsal também. Só fui pensar em ser jogador mesmo lá para os 16 anos. Andei fazendo testes em alguns clubes, cheguei a passar, estabilizar, mas não ficar. Fiz em clubes grandes e até aqui no Atlético. Fui jogar num time aqui de Sabará (Montanha FC), para disputar o Campeonato Mineiro.  Jogava de volante. No Rio eu tive no Madureira. Fui fazendo testes, aí passava, ficava no clube, mas não me adaptava. Não fui preparado para ficar longe da minha família. Na sequência fui estudar. Foi quando fiz Educação Física e aquele histórico ali me deu uma base e um entendimento bastante positivo que depois foi para carreira. Com 12, 13, 14 e 15 anos eu estava sempre jogando, sempre jogando, nos finais de semana.

Como você iniciou a sua carreira de analista de desempenho?

Começou quando eu fiz um curso de treinador, em 2003. Conheci o observador da Seleção Brasileira, o Jairo dos Santos, e aquilo que ele mostrou na palestra naquele curso me fez ver que tinha muito sentido; daí comecei a estudar aquilo ali. Por outro lado, ele também me abraçou e viu o quão interessado eu estava. Comecei a tomar frente e a comprar softwares, em 2004. Os que tinham eram em inglês ou em francês, com desenho de tática, de animação de jogadas, e alguns com controle de campeonato: como aconteceram os gols, a equipe fez tal gol com quanto tempo... O Jairo gostou disso, achou interessante e a CBF também estava iniciando esta parte de software. Era tudo bem novo. Fiquei como auxiliar aqui no Brasil ajudando ele na Alemanha, isso na Copa de 2006, mas o primeiro trabalho mesmo foi no Botafogo. 

Quero conseguir dentro de, um, dois ou três anos, um título brasileiro para o clube. É muito difícil a gente conseguir num primeiro ano de trabalho. Nosso objetivo em 2018 é estar entre os seis no final da competição


O Botafogo é o clube de coração da sua família. Isso teve alguma influência na escolha?

Não. A ligação que tem é que, como eu estava no interior do Rio, a minha faculdade foi em Niterói, e o Jairo estava sempre na capital, ele tinha o contato do Anderson Barros e daí  me indicou. No final de 2012 eu fui para a Seleção, com o Parreira. Nesse meio período eu já o conhecia, através do Jairo, e ele também foi um que me deu muito apoio, porque viu o tanto que eu era esforçado e interessado. Eu sempre o alimentava de atualizações. 

Em entrevista ao Hoje em Dia, Parreira disse que você tem enorme potencial, mas que precisava amadurecer questões como treinador. Como anda este processo? Você ainda não é um técnico e sim um analista de desempenho que mudou de função, correto

Não, eu não gostei da sua fala. Eu acho que eu sempre fui um treinador que um dia fui um analista de desempenho. Pelo meu perfil. Você precisa iniciar em alguma coisa. O Parreira iniciou como preparador físico. Você não vai iniciar sendo treinador do Barcelona; você será treinador das categorias de base do Getafe. Vejo que tive um progresso natural, assim de quando fui de analista para auxiliar técnico. Você vai ganhando experiência conforme o tempo, como em qualquer profissão.

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O Oswaldo de Oliveira saiu do Corinthians e foi para a Arábia. Ao contrário do que havia feito em trabalho anteriores, você não o acompanhou. Quando ele foi acionado para treinar o Atlético, te convidou para ser o auxiliar. O que você conhecia do clube naquele momento?

Sabia que tinha uma estrutura muito boa. Era um time que estava numa transição de treinador e que precisava se manter na Série A. A missão era essa. Com certeza vim muito entusiasmado, principalmente por saber que é um grande clube. Quando você faz um bom trabalho num clube assim, portas se abrem. Sabia que o time tinha qualidade e o pessoal foi bem receptivo ao trabalho. Em poucas rodadas garantimos a permanência e por pouco não conseguimos a vaga na Libertadores; por um ponto.

A pergunta que mais lhe foi feita antes da Copa do Mundo era se te incomodava o fato de não ter sido efetivado até aquele momento. Quando, de fato, você virou o comandante do Atlético, bateu um arrepio? Como foi?

Em todo momento eu fui muito sincero dizendo que aquilo não me incomodava. Porque, no primeiro momento, eu fui convidado para ser auxiliar do clube. Eu tinha aceita aquilo ali e de muito bom grado. Pô, eu ia fazer o melhor possível como auxiliar. E o clube tentou contratar outro treinador, né? Alguns nomes foram consultado e tudo. E eu achei que fosse ficar como auxiliar, de fato. Mas não foi. Achei que seria temporário. Foram passando rodadas e rodadas e eu estava muito preparado se o presidente chegasse para mim e disse “Thiago, okay. Sua missão como interino foi bem cumprida, mas voltamos você para auxiliar e vamos trazer um treinador aqui”. Estava bem preparado para isso; vejo as coisas com muita naturalidade e pés no chão. E não mudou nada depois. O trabalho é o mesmo, o empenho é o mesmo e a minha dedicação sempre foi a mesma.

Mas o contrato foi melhorado...

Claro, isso muda. Mas o nosso foco tem que ser o trabalho. Tem que ser o desempenho dos jogadores. A dificuldade que é um Campeonato Brasileiro, com grandes clubes como adversários. Não tenho nem tempo para pensar em outra coisa. É manter o dia a dia aqui e é isso que importa.

 

 

Agora, efetivado, você pode ser chamado de “burro”, né?

Ah! Até como interino tinha também, sabe? Faz parte da profissão, né? Eu não fui o primeiro e nem vou ser o último. O que a gente pede às vezes é a compreensão do torcedor e um pouquinho de paciência, porque vai ter momento ruim, e precisamos disso para suportar. No momento bom, o nosso papel é não entrar na euforia. Temos que manter o trabalho com pés no chão, porque o Campeonato é de pontos corridos, não é tiro curto. Temos que estar tranquilos para atingir o nosso objetivo que é, principalmente, estar entre os seis no final da competição.

Treinar Leonardo Silva e Ricardo Oliveira, que são mais velhos que você, gera alguma brincadeira?

Não, não tem isso. É uma relação totalmente profissional e totalmente de confiança entre as partes. Eu confio no Léo e não acho que ele esteja ultrapassado pela experiência e pela idade que tem. Pelo contrário. Está jogando muito, tá numa boa fase tática, técnica, física... E acho que ele também respeita o meu trabalho da mesma forma. Então o importante é haver um respeito e uma relação profissional entre as partes.


Já sofreu preconceito de algum jogador por ser tão novo? 

Às vezes o jogador pode não te respeitar pelo simples fato de nunca ter sido um atleta profissional ou por não ter um currículo com títulos importantes. Vai ter um mais experiente que eles virem e falem “esse cara já está ultrapassado”. Aí vem o Felipão, por exemplo, e faz um bom trabalho (no Palmeiras). A Alemanha está com bons técnicos novos na Bundesliga. A Inglaterra também, a última Copa mostrou isso.

Alguns nomes foram consultados. Eu achei que fosse ficar como auxiliar, de fato. Mas não foi. Estava bem preparado para isso; vejo as coisas com muita naturalidade e pés no chão. E não mudou nada depois. O trabalho é o mesmo, o empenho também


O Atlético tem uma das zagas mais vazadas do Brasileirão. Como você enxerga este problema crônico no sistema defensivo?

É exatamente a sua última fala. É um sistema defensivo; não é zaga. Se eu considerar só lateral, zagueiro, zagueiro, lateral, eu estou desconsiderando os onze do time. É um sistema defensivo onde todo mundo tem o seu papel. Houve falha de todos os setores, praticamente, em algum momento. O ataque e o meio de campo também precisam defender. 

E os méritos por ter o ataque mais positivo?

Com certeza não é somente dos atacantes. É desde o goleiro, que participa da ação ofensiva, zagueiro, lateral, então todo mundo tem participação em todas as fases do jogo. Ninguém lembra que o gol do 1 a 0 contra o Corinthians foi um cruzamento do Patric para o gol do Roger Guedes. Ah, o Roger Guedes foi artilheiro? Foi. Mas foi com a assistência do Patric; com assistência do Blanco, do Elias, do Adilson que retomou a bola, do Gabriel que iniciou quando o Victor deu o passe... A gente tem que valorizar o conjunto.

larghi

Leonardo Silva deve pendurar as chuteiras no final do ano. O Atlético vai precisar de uma figura mais experiente para compor a zaga em 2019?

Acho que a experiência do Léo é importantíssima e hoje é fundamental. Se for o caso de ele aposentar, não sei, não estou sabendo de nada, pelo contrário, acho que pelo nível que ele esta jogando tem total condições de continuar se quiser, se o corpo dele permitir, enfim, mas é sempre muito importante ter alguém mais experiente, principalmente nos setor defensivo. É uma opinião minha. Algumas pessoas podem discordar, com total liberdade disso, mas eu entendo que, na defesa, um pelo menos tem que ser o mais experiente. Não precisa ser o mais velho. A rodagem é importante para a maturidade. É um setor no qual as falhas podem ser decisivas. Ali o jogador precisa ter a cabeça boa para, quando errar, seguir com tranquilidade e no próximo lance acertar. 

Você está satisfeito com as contratações para o segundo semestre? Alguns jogadores importantes também saíram e está sendo feita uma remontagem. Tem dado muito trabalho?

Sim, muito trabalho. Mas eu estou bastante satisfeito com a qualidade dos jogadores que chegaram, com o perfil deles. A gente vê jogadores jovens, mas sérios e que querem trabalhar e buscar o seu espaço, sabe? Eles sabem a importância que tem esse clube. Eles vêm de fora, de outros clube, mas chegaram aqui e se incorporam bem ao nosso sistema. Não está faltando trabalho, então isso aí fica muito claro. O entrosamento e a química que acontecem dentro de campo será somente com os jogos. 

Qual o seu grande sonho como treinador?

É conseguir dentro de, um, dois ou três anos, um título brasileiro para o clube. Eu acho que é muito difícil a gente conseguir um Brasileiro num primeiro ano de trabalho, né? Então eu espero que a gente faça um bom campeonato, para a gente continuar no ano que vem, e aí em 2019 sim; que a gente forme um time mais sólido, que tenha menos mexidas do que aconteceu esse ano e que com um trabalho desde o início a gente consiga este título que a torcida tanto merece. 

larghiLarghi, ao lado de Luiz Felipe Scolari, Jairo dos Santos e Carlos Alberto Parreira, na Seleção Brasileira