Quis o destino que, após 12 anos jogando pelo Cleveland Cavaliers, o pivô Anderson Varejão possa conquistar o primeiro título na NBA nesta segunda-feira (13) exatamente contra o time que o acolheu em 2004. Trocado no último dia do período de transferências da atual temporada, ele deixou a equipe rumo ao Portland Trail Blazers, mas foi dispensado e acabou assinando com o atual campeão Golden State Warriors.

Peça fundamental da seleção brasileira de basquete masculina, comandada pelo argentino Ruben Magnano, Varejão tirou um tempo entre as viagens para as partidas das finais da NBA, que seu time vence por 3 a 1, precisando apenas de mais uma vitória em três jogos para ser campeão, para conversar com o Hoje em Dia e contar que também quer brigar pela sonhada medalha olímpica, nos Jogos do Rio.

Como é treinar com Stephen Curry? O que ele faz de diferente no dia a dia para ser o melhor jogador da atualidade?
O Curry é realmente um jogador diferente, que treina muito. Ele encontrou uma forma de jogar, ajudou o Golden State a apresentar algo novo no basquete, e dá para dizer que é quase imparável. Num curto espaço da quadra, em um piscar de olhos, ou até menos que isso, ele decide uma jogada, decide um jogo, acaba com uma série de playoffs. Ele treina muito, esse é o segredo dele. Muito foco, muito talento e muita dedicação.

Jogar ao lado do Leandrinho ajuda de alguma forma no entrosamento em termos de seleção?
Eu e Leandrinho já nos conhecemos há muito tempo. Já são mais de dez anos de seleção brasileira. Acho que, na verdade, foi o nosso entrosamento dos jogos pelo Brasil que me ajudou bastante aqui no Golden State nessa sintonia com ele. Jogar ao lado dele na equipe está sendo muito bom, e é bom também para falarmos sobre o Brasil, pois temos amigos em comum, e é bom ter um amigo de tantos anos jogando junto aqui na NBA.

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Apesar de a seleção não ter ido mal no Mundial, o resultado foi aquém das possibilidades. Como está sua confiança em uma medalha nos Jogos?
Acho que fomos muito bem no Mundial. Fizemos uma excelente competição em Madri. Assim como também fomos bem na Olimpíada de Londres, em 2012, e ficamos perto de disputar uma medalha. Estou bastante motivado e confiante de que o Brasil pode, sim, fazer uma grande campanha nos Jogos do Rio. É um campeonato forte, no qual todas as partidas são decisivas. Então, precisamos pensar em dar um passo de cada vez, respeitando a todos os adversários, mas jogando com nosso sexto jogador, que são nossas famílias, amigos e a torcida, que estarão nas arquibancadas.

Como você avalia o momento atual dos brasileiros na NBA?
Acho que o basquete brasileiro, de uma forma geral, está num momento muito bom. Aqui na NBA temos o recorde de jogadores numa só temporada, com atletas em equipes de ponta, de tradição, com papeis importantes em seus times. Mas precisamos ver também que o basquete no Brasil está muito bem, com o NBB. Além disso, há brasileiros na Europa jogando com destaque em bons times. É um momento positivo para o esporte. Espero que isso melhore ainda mais e que o basquete não pare de evoluir.

Como está sendo enfrentar o Cavaliers na final tendo tanta identificação com a equipe?
Todo mundo sabe a relação que tenho com Cleveland, com a franquia, com os fãs, com a cidade e com os jogadores. Foram 12 anos lá. Mas hoje sou jogador do Golden State Warriors, e estou fazendo o melhor que posso pelo meu time. Nada vai apagar o sentimento e o carinho que tenho por Cleveland, mas agora os Cavs são adversários, e meu objetivo é ajudar o Golden State a ser bicampeão da liga.

Você se sentiu “traído” pelos Cavaliers, ao ter sido “forçado” a deixar o time?
Foi uma escolha da equipe, isso faz parte do negócio.

O meu papel é abrir espaços, fazer bloqueios, brigar pelos rebotes e, sempre que eu tiver
a oportunidade, vou olhar para a cesta e vou tentar pontuar para ajudar a equipe

Em Cleveland, existia a “noite da peruca” em sua homenagem. Nos jogos das finais na cidade, você viu algum torcedor usando a peruca?
Não vi nenhum, mas alguém até pode ter ido. O meu carinho pelos fãs não vai mudar nunca. Não sou um inimigo, nem eles para mim, claro que não. Somos adversários hoje, apenas isso. A noite das perucas foi a maior homenagem que eu poderia ter recebido, algo que nunca imaginei que fosse acontecer, algo que me marcou muito e vai ficar para sempre na minha lembrança.

Pela terceira vez na sua carreira, você está disputando a final da NBA. Como está a confiança para finalmente conquistar um título?
É muito bom estar numa final. Já estive outras duas vezes e sei o quanto é especial viver esse momento. O Cleveland é uma grande equipe, que conheço bem, e que respeito muito. Esta é uma série duríssima, com os dois melhores times das conferências, e uma a reedição da final do ano passado, com alguns dos melhores jogadores do mundo na atualidade. Tudo isso mostra o tamanho desse confronto.

Como é fazer parte do time que quebrou o recorde de vitórias em uma temporada regular (73 vitórias e 9 derrotas) que pertencia ao Chicago Bulls de Michael Jordan?
Foi maravilhoso. É um recorde, isso marca a franquia, marca a carreira do atleta, é histórico. Mas é um número que não entra em quadra para a gente, que não nos faz ser melhores do que ninguém.

O estilo do Golden State é único, privilegiando os chutes de três pontos. Como pivô, é ruim jogar neste esquema?
Cada um tem o seu papel muito bem definido na equipe. O Golden State não é uma equipe só de chutes de três pontos. É uma equipe equilibrada, que tem armadores, alas e pivôs, e todos são fundamentais para que possamos alcançar os resultados. Temos arremessadores fantásticos, é claro, e o time tem um aproveitamento de chutes de longa distância muito bom, fruto de treinamento e estratégia. Essa é uma característica da equipe. Mas, para isso, o time precisa funcionar em todas as posições.

Como foi a mudança de Cleveland para Oakland? As cidades são muito diferentes?
São cidades completamente diferentes. Saí de Cleveland, onde a temperatura é mais baixa e o inverno é rigoroso, para uma cidade de praia, de calor, mais parecido com o clima do Brasil. Em Cleveland, eu tinha uma vida há 12 anos. Na Califórnia, eu cheguei no meio do campeonato, para encontrar uma casa, me adaptar da melhor maneira e mais rápida possível. Mas deu tudo certo.

Você jogou 31 partidas nesta temporada pelos Cavaliers. Tem informações privilegiadas para passar ao técnico Steve Kerr e aos seus companheiros de equipe?
Não preciso passar nenhuma informação. Todo mundo se conhece muito bem. O Kerr conhece bem o Cleveland, assim como o Tyronn Lue conhece bastante o Golden State.

Estou confiante de que o Brasil pode fazer uma grande campanha na Olimpíada. Temos um grupo experiente, jogadores de altíssimo nível
e o ambiente não poderia ser mais favorável

Você jogou com LeBron James e Stephen Curry. Quem é mais genial?
Não gosto de ficar fazendo comparação. Curry e LeBron são jogadores de estilos bem diferentes, mas igualmente foras de série.

O quanto o Brasil perde sem o Tiago Splitter (pivô do Atlanta Hawks, lesionado)? E como está a expectativa para disputar a Olimpíada em casa?
Fiquei muito triste pelo que aconteceu com o Tiago. É um jogador que faz falta por sua qualidade, liderança e pela paixão como veste a camisa do Brasil. Mas, infelizmente, isso faz parte do esporte. Sei que ele estará por perto, nos acompanhando, torcendo por nós, pois ele é parte desse grupo. Acho que a expectativa, não só nossa, dos jogadores, mas de todos, dos atletas e do público, é a melhor possível. Temos condições de lutar por uma medalha, acreditamos nisso e vamos trabalhar muito para que aconteça. Para que a delegação brasileira faça uma grande campanha na Olimpíada, que tudo corra bem e que isso ajude o esporte a crescer ainda mais no nosso país.

Qual foi o seu melhor jogo em toda a carreira?
É difícil falar em uma partida. Acho que já fiz muitos bons jogos, em alguns pontuei mais, em outras não fui tão efetivo em números, mas ajudei de alguma outra maneira. Houve jogos de títulos, partidas importantes. Tem muitos jogos que me marcaram, e espero que muitos outros ainda estejam por vir.