Nascido no modesto distrito de São Pedro do Avaí, na Zona da Mata mineira, Fábio Júnior é uma das armas do Villa Nova para o duelo deste domingo (20), às 16h, contra o Cruzeiro, no Mineirão. Aos 38 anos e com três gols no Campeonato Mineiro, o atacante prova a cada rodada que está longe de ser “ex-jogador em atividade”, como é chamado por alguns.

Em entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, Fábio conta como é ser manager e atacante do Villa Nova, relembra os momentos vividos com as camisas de Cruzeiro, Atlético e América, e fala sobre a aposentadoria que se aproxima. Bem fisicamente, ele ainda defende os “velhinhos” em atividade no futebol brasileiro.

Como tem sido a vida dupla de dirigente e atacante do Villa Nova?

A de dirigente ficou para trás. Fiz um trabalho no início. Estava envolvido na montagem do time e em outros trabalhos que envolviam futebol. As dificuldades eram enormes. Ainda bem que pelas amizades que fiz durante a carreira, consegui contactar atletas que jogaram comigo e com outros que não, mas que acreditaram no projeto. Hoje me sinto muito feliz.

Qual função é mais complicada?

Ser dirigente é muito mais complicado. São muitos problemas no dia a dia. Com certeza, ser jogador é mais fácil.

Apesar da boa colocação no Campeonato Mineiro, o Villa Nova tem graves problemas internos. Até que ponto isso influencia em campo?

Os problemas que o Villa atravessa vêm de muitos anos. O que nós fizemos foi tentar minimizar e montar, dentro da nossa possibilidade, um grupo forte. As coisas caminhando bem dentro de campo, teoricamente, atraem investidores e patrocinadores. Vai equacionando as dívidas. Pela experiência do nosso grupo e até pelos objetivos dos jogadores, isso não tem influenciado nada em campo. A campanha e os jogos provam isso. Todo mundo abraçou a causa.

Como é enfrentar o Cruzeiro, clube que o projetou internacionalmente para o futebol?

Sempre é um prazer muito grande jogar no Mineirão e contra o Cruzeiro. É um clube que marcou minha história no futebol. Rever novamente o torcedor, que sempre me apoiou para que eu pudesse conquistar isso tudo, é muito bom. O carinho existente é recíproco.

O jogo deste domingo, contra o Cruzeiro, será um de seus últimos no Mineirão. Já parou para pensar nisso?

Não sei se será um dos últimos. Vamos ver o que o futuro nos reserva. É inegável que está chegando a hora de parar, mas não sei se será agora. Ainda me sinto bem fisicamente e quero aproveitar os jogos que temos pela frente para me doar ao máximo.

Como foi a sua transferência para a Roma, em 1999? O que se lembra daqueles dias?

Pra mim foi muito rápido. Não tive tempo para pensar e nem muita escolha. O ano de 1998 foi maravilhoso pra mim e tudo dava certo. Terminei a temporada muito bem. Quando voltei para me reapresentar ao Cruzeiro, fiquei sabendo que tinha sido feita a negociação com a Roma. Para o clube foi muito bom financeiramente e pra mim também. Naquela época, o Campeonato Italiano era muito forte. Atuar no campeonato que eu acompanhava lá em casa, em São Pedro do Avaí, foi um sonho realizado.

Você foi muito cedo para o exterior? Se arrepende? Se fosse hoje, faria diferente?

Não me arrependo de ter ido. Arrependo de não ter tido a paciência que hoje vejo que seria necessário. Poderia ter tido um tempo maior no futebol europeu. Estava sempre sendo convocado para a Seleção. Acabei ficando pouco na Roma. Tive problemas com o Fábio Capello por isso e me faltou tranquilidade para lidar com aquela situação.

Você foi vendido por cerca de 15 milhões de dólares. Com 20 anos, já ficou rico?

Não posso reclamar (risos). A situação na época foi muito boa pra mim, deu para fazer bastante coisa e ajudar muita gente. Não quer dizer que fiquei rico, porque sempre temos que trabalhar.

O fato de ter feito história no Cruzeiro te atrapalhou quando foi contrato pelo Atlético, em 2003?

Não atrapalhou, mas as cobranças eram muito maiores, até pelo o que eu já tinha feito pelo Cruzeiro. Sempre tiveram muito respeito comigo. Não tenho nada a reclamar. Hoje tenho muitos amigos dentro do Atlético, pessoas que ajudei e que me ajudaram. Muitas vezes analisam minha passagem pela falta de títulos. Individualmente, ele foi boa. Foram 60 jogos, com mais de 30 gols. A média foi até melhor do que a de outros clubes onde joguei.

Você sente-se frustrado por não ter disputado uma Copa do Mundo ou uma Olimpíada?

Nenhuma frustração. A minha carreira foi muito bem encaminhada. Não tenho nada a lamentar. Consegui conquistar coisas que quando criança nem sonhava. Só o fato de ter sido convocado para a Seleção Brasileira, com tantos grandes jogadores, já me deixou muito feliz.

Durante quatro anos, você vestiu a camisa do América. O que o Coelho significou na sua vida?

O América foi o recomeço no futebol brasileiro pra mim. Depois de ficar muito tempo fora, em países que pouco se falava, é um clube que abriu as portas para mim, aos 31 anos, e acreditou no meu trabalho. Aprendi a gostar do América e tenho um carinho muito grande pelas pessoas. Ser um dos maiores artilheiros do clube, em tão pouco tempo, para mim é motivo de muita honra.

O que você vai fazer quando pendurar as chuteiras? Vai investir na carreira de dirigente, ou tem planos na política?

Ainda não sei. Muitas pessoas me procuraram para algumas situações. Tenho projetos sociais engavetados, que eu gostaria de colocar em prática, para ajudar crianças carentes ou jovens que sonham com um futuro melhor. Ainda não sei como. Estou estudando a melhor maneira.

Os “velhinhos” (jogadores com mais de 30 anos) sofrem no futebol brasileiro?

Temos provas no país todo. O Ricardo Oliveira é um exemplo. Quando ele voltou ao futebol brasileiro, sofreu com a desconfiança. Hoje está provando o grande jogador que é. Faz parte da cultura do futebol brasileiro. A cada ano que passa, os velhinhos estão mostrando que estão bem melhores que os garotos, principalmente no profissionalismo.

Faltou oportunidade para o Fábio Júnior neste emergente e milionário mercado chinês?

Há alguns anos, quando não era uma potência no futebol, tive duas propostas de lá e não fui. Posso dizer que me arrependo um pouco (risos). Se tivesse topado, estaria fazendo parte deste momento. Quem tiver oportunidade de ir e fazer o pé de meia, faz parte.