O Atlético surgiu como um oásis no deserto. Jogado à própria sorte pelo Internacional, Diego Aguirre se sentiu injustiçado ao ser demitido do cargo de treinador. O temperamento calmo e os projetos ambiciosos, porém, o impedem de se curvar para tal sentimento negativo. “Passado é passado”. Os olhos, voltados somente para o hoje e o amanhã, carregam unicamente o desejo de vencer. A sede a ser matada é a de conquistas e glórias, das quais já saboreou com as chuteiras nos pés ou à beira dos gramados.

O uruguaio sabe que está de passagem. Mas tal condição não o impede de se sentir em casa no Galo. Para quem já passou por Chile, Bolívia, Grécia, Espanha, Equador e Catar, se adaptar ao estranho é como ajeitar uma bola na entrada da área, sem goleiro.

A cidade, as cores e os sabores podem ser diferentes. A busca por uma marca eterna, entretanto, é imutável. E ela tem nomes e formatos: a taças da Libertadores e do Campeonato Brasileiro. Nesta quarta-feira, ele dará o primeiro passo no torneio internacional, diante do Melgar, no Peru.

Aguirre quer se tornar o oitavo integrante do seleto grupo de campeões da Libertadores como jogador e como treinador. E o primeiro técnico estrangeiro a alcançar o título no Brasil.

A raça atleticana se une ao espírito charrua. A qualidade da equipe aumenta com a chegada de Robinho, e o treinador já escolheu um maestro para comandar a banda: Juan Cazares, o garçom ideal para o “fenômeno” Lucas Pratto.

Você recebeu propostas do São Paulo e do Al Gharafa antes de fechar com o Atlético. Quais fatores pesaram na decisão de assinar com Galo?

É verdade. Tive esses interesses, mas acabei escolhendo o Atlético pela vontade de dar certo no Brasil. Senti que precisava disso. O clube me ofereceu uma oferta muito boa. Naquele momento, não me senti motivado a voltar ao Qatar, mesmo com uma ótima proposta econômica. Queria fazer um novo trabalho aqui, e o Galo é a minha chance.

A sensação é que você saiu do Inter chateado, ou até revoltado...

Sim, mas não guardo essas coisas. Claro que houve aspectos negativos, mas prefiro focar no que fiz de bom lá, no que o clube me proporcionou. Prefiro esquecer o passado e deixar na memória as coisas boas que passei por lá.

Você sente alguma resistência aos treinadores estrangeiros no Brasil?

Sim. Hoje eu sinto menos, quase nada. Mas, no Internacional, houve sim uma certa desconfiança. Porque você precisa se adaptar ao país, ao futebol, respeitar as culturas. Senti resistência, mais até da diretoria (do Inter). Mas, como disse, são coisas que ficaram para trás.

Você é um treinador que prefere cuidar só da parte de campo, ou se envolve em outras áreas do clube, como um ‘manager’?

No futebol atual, o treinador não é só o cara que fica com o apito na boca nos treinos. É preciso ter um envolvimento global. Participamos da montagem do elenco, do planejamento da equipe, alguns aspectos de logística. Converso sempre com o Maluf (Eduardo, diretor de futebol), com o presidente (Daniel Nepomuceno), e fazemos reuniões. Temos que estar aptos a várias questões, até mesmo ao atendimento à imprensa. Mas, obviamente, a coisa mais importante que faço é o trabalho em campo.

Robinho chegou na sexta-feira, e Júnior Urso está acertado. Clayton também pode chegar. Você está satisfeito com as contratações do clube?

Estou, sim. Apareceram opções muito boas. Vamos fechar as contratações com um time muito competitivo, preparado para fazer ótimos jogos e ir longe na temporada.

O Atlético, pelo andar da carruagem, será bastante ofensivo. Há muitas peças no ataque...

Já estou trabalhando, a cabeça está quente, já pensando nas possibilidades. É uma pena que sejam só onze jogadores em campo (risos). Isso é muito bom, estamos aumentando a qualidade do time

Com elenco atual, o Atlético está perto do ideal para ir longe na Copa Libertadores?

Está se preparando. Eu diria que estamos bem. Não atingimos o ideal ainda, mas, jogo a jogo, iremos alcançar esse nível.

O que você já pode falar sobre o Robinho? É a referência que o time precisa para sonhar mais alto?

É um grande nome, pela qualidade, pela carreira. E é um jogador que cria muita expectativa, muita ilusão. A ideia é tê-lo como um líder, e ajudá-lo para que consiga demonstrar toda a capacidade em campo e ser mais um elemento chave para a nossa equipe. Tomara que, juntos, possamos vencer a Libertadores. É uma ambição dobrada, já que ele foi vice, em 2003, e eu também, em 2011 (como técnico, pelo Peñarol-URU).

Você foi conhecer o trabalho do Diego Simeone no Atlético de Madrid. Como foi essa passagem pela Europa? Que outros clubes você visitou?

Faço isso todos os anos. Passo alguns dias visitando outros profissionais, de 10 a 15 dias neste “tour” profissional. Tenho amigos que trabalham em grandes equipes na Europa. Visitei o Diego em Madrid, também já fui à Itália, onde estive na Juventus e na Lazio, por exemplo. Acredito que é uma aproximação vantajosa. Descobrimos coisas modernas, também conhecemos similaridades entre o trabalho de lá e o que é feito por nós aqui.

Você tem uma história única com a Libertadores, na conquista de 1987. Tão emocionante quanto a conquista do próprio Atlético em 2013. O que essa competição representa pra você?

São coisas em comum na nossa história. Ser campeão da Copa Libertadores é algo que te consagra. Uma sensação simplesmente maravilhosa. E da maneira como foi... Aos 120 minutos da prorrogação, eu faço um gol que dá o título ao Peñarol. Mais alguns segundos, o título seria do América (de Cali-COL). Foi mais ou menos como o Leonardo Silva, né (risos)? É um feito que ficará eternizado na história dos dois clubes.

E porque o torneio tem um clima tão único?

Impossível de explicar. É uma competição diferente, com jogos muito emocionantes. Às vezes, não é a técnica do esporte que prevalece, mas a vontade de vencer, de sentir o gosto da glória. Ela transforma os jogadores, o jogo, a bola. Há uma magia, uma energia na Libertadores que não se acha em outros torneios.

No Uruguai, a imprensa esportiva aponta o seu nome como um possível sucessor de Óscar Tabárez na Seleção. Você tem esse desejo?

Isso é algo que faz tempo que falam. E não é algo que me tira o sono. Tenho que desenvolver a minha carreira profissional. Tenho o desafio no Atlético e estou focado nisso. Como qualquer treinador, chegar ao time profissional da seleção de seu país é uma meta, uma ambição. Mas só se concretizará se eu fizer um bom trabalho no meu clube.

O Tabárez é um espelho profissional para você?

Ele foi meu treinador em 1987, quando vencemos a Libertadores. Me levou para a Seleção, quando trabalhei como treinador da Seleção Sub-20. É uma referência no Uruguai, e me ensinou coisas importantes para a minha vida.

O que um uruguaio costuma fazer em Belo Horizonte? Como está a vida na capital mineira?

Estou morando em um apartamento perto da Sede do Atlético. Não tive muito tempo para conhecer. Mas já deu para perceber que, apesar de uma metrópole, Belo Horizonte mantém uma calma. É uma cidade bonita, e o mineiro é um povo muito educado, que ajuda os outros. Me sinto muito bem-vindo, tanto na cidade quanto no clube. Me sinto parte de um grupo de trabalho que quer grandes coisas. Isso é fundamental para o sucesso. Do primeiro dia até agora, fui muito bem recebido.

Já descobriu referências da culinária e da cultura uruguaia na cidade?

Visitei um lugar com comida uruguaia (Parrilla del Mercado). Mas, para falar a verdade, eu gosto muito da comida mineira, por isso não sinto saudade da culinária uruguaia, tirando o churrasco, é claro (risos). Mas aqui se come muito bem. Em qualquer lugar, tem uma boa comida.