No jogo de volta da final da Copa do Brasil, disputado no último dia 26 de novembro, no Mineirão, o Cruzeiro tentou cobrar R$ 1 mil no ingresso para a torcida atleticana. Se tivesse conseguido – os bilhetes foram negociados a R$ 500 –, a Raposa receberia, por cada entrada do setor visitante, um valor maior que a arrecadação no ano alcançada pelos clubes Coimbra e Arsenal, que disputaram a Segunda Divisão do Estadual e nas três partidas em que foram mandantes somadas tiveram renda bruta de R$ 845 e R$ 880, respectivamente.
 
O exemplo é apenas uma prova da disparidade entre Cruzeiro e Atlético e os outros clubes do futebol mineiro. E ela não está presente apenas nas rendas dos jogos, mas também na divisão dos direitos de televisão do Campeonato Mineiro.
 
Críticos da chamada “espanholização” do futebol brasileiro, pois a progressão do contrato dos clubes com a TV Globo prevê cotas cada vez maiores a Flamengo e Corinthians, os dois grandes de Minas dividem no Estado uma parcela ainda maior que aquela destinada a Real Madrid e Barcelona na Espanha.
 
Na Liga, merengues e catalães dividem 55% do dinheiro da TV. Em Minas, Galo e Raposa ficam com 64% dos cerca de R$ 20 milhões do Módulo I.
 
Um dos times do interior que sempre teve boas arrecadações, o Democrata-GV, que está de volta ao Módulo I, é uma das vítimas da nova realidade, pois a renda líquida como mandante em 2014 foi de apenas R$ 90 mil.
 
E o presidente, Edvaldo Soares, vê uma relação direta entre o afastamento do torcedor do interior do estádio e a televisão.
 
“Quando a gente joga contra um time do interior e a televisão, mesmo que seja no pay-per-view, está passando um jogo de Atlético ou Cruzeiro, quem vai ao estádio são os apaixonados. É aquela turma que a gente sabe até o CPF deles”, afirma o dirigente.
 
Para tentar evitar a concorrência do pay-per-view, o Democrata-GV apresentou no Conselho Técnico a proposta de disputar as partidas do Módulo I do ano que vem na segunda-feira, às 20h30, dia e horário já usados pelo clube em outras competições. Mas a proposta não foi aprovada em votação dos clubes.
 
Presidente do Valério nos anos 90, o hoje diretor de futebol do Atlético, Eduardo Maluf, revela que fazia quase a totalidade da sua folha para a disputa do Estadual no jogo em que recebia um dos grandes em Itabira.
 
“Me reuni com os outros presidentes do interior e, em 1996, passamos a adotar a renda do mandante em Minas. Assim, quando jogava contra Atlético ou Cruzeiro em casa, fazia quase que a folha de pagamento naquele jogo. Hoje, vamos jogar no interior e temos públicos baixos”, revela Maluf.
 
 
 
 
Disparidade nas receitas faz de Galo e Raposa o Real Madrid e o Barça das gerais
 
 
 
 
Título e prejuízo
 
Nem mesmo o sucesso em campo é garantia de arrecadação para os clubes do interior. Campeão da Série D, o Tombense jogou 15 partidas como mandante em 2014. Em 12, teve renda líquida negativa, sendo que em sete dos oito confrontos pelo torneio nacional viveu essa situação. 
 
Dona da terceira arrecadação de Minas em jogos, a Federação Mineira de Futebol (FMF) faturou, nas 339 partidas que foram disputadas no Estado em 2014, quase R$ 4,7 milhões, valor superior à somatória das rendas líquidas dos 33 clubes dos Módulos I, II e Segunda Divisão, fora Cruzeiro e Atlético.
 
Segundo o presidente da entidade, Castellar Guimarães Neto, a receita é usada para amenizar a grave crise financeira da entidade, que ele assumiu no final de maio. Apesar dos problemas de caixa, o dirigente afirma que diminuiu taxas e parte da arrecadação com rendas de jogos é usada em benefício do futebol.
 
“A taxa de participação paga pelos clubes não existe mais. Além disso, reduzimos as taxas da Segunda Divisão de 6% para 5%. Nos Módulos I e II, 2% de toda a arrecadação são empregados no fundo de investimento da arbitragem mineira e vai possibilitar a compra de rádios comunicadores para os trios, o que só existe em uma ou duas federações do país”, revela Castellar.
 
Os números mostram que as ações precisam ser rápidas, pois o futebol do interior está morrendo em Minas Gerais.