O belo-horizontino Marcelo Melo, de 31 anos, esteve perto de uma façanha em Londres. Há exatamente uma semana, ele disputou a final de duplas do ATP Finals, torneio que reúne os melhores tenistas da temporada. Ao lado do croata Ivan Dodig, no entanto, Melo perdeu a decisão para os irmãos norte-americanos Bob e Mark Bryan. Apesar da derrota, o mineiro se diz satisfeito com o resultado alcançado no ano de 2014, no qual a dupla terminou como a sétima melhor do mundo. De volta à capital mineira, o tenista só quer descansar antes de encarar os desafios de 2015, quando voltará a atuar com o ex-companheiro e também mineiro Bruno Soares em alguns torneios, principalmente como preparação à Olimpíada do Rio, em 2016. Nesta entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, Marcelo Melo conversou sobre a temporada que se encerra e o vice-campeonato em Londres. Ele falou também sobre os desafios que estão por vir, a retomada da parceria com o amigo Bruno Soares e a sua torcida pelo Cruzeiro na disputa dos títulos do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil, esta contra o rival Atlético. 
 
Como você vê e avalia sua temporada?
Foi uma temporada muito boa dentro das possibilidades que eu e o Ivan tivemos. Ele ficou praticamente três meses sem jogar por conta de uma lesão nas costas e com isso deixamos de jogar Roland Garros e Wimbledon. Enquanto no Australian Open eu tive uma lesão e não pude jogar. Ou seja, dos quatro Grand Slams nós ficamos de fora de três e mesmo assim conseguimos chegar no Finals. Foi um ano que tivemos grandes problemas e mesmo assim tivemos excelentes resultados.
 
O que você pensa quando se vê entre os melhores duplistas do mundo?
É muito importante não só para mim, mas também para o tênis brasileiro ter mais um jogador no ATP Finals, onde só os oito melhores do ano no mundo podem jogar. Por isso, fico muito feliz e orgulhoso de ir em duas vezes seguidas.
 
Como é jogar um ATP Finals? Quais as diferenças para os outros torneios?
É um torneio muito especial, totalmente diferente de qualquer outro, por reunir os melhores do mundo em uma temporada. Não é um torneio que eu me inscrevo e vou, não depende de uma decisão minha estar lá. Tenho que estar entre os oito melhores.
 
E, neste ano, como foi a disputa? Ficou satisfeito com o resultado?
Gostaria de ter conquistado este título. Era muito importante. Mas a derrota não apaga a semana fantástica que tive ao lado do Ivan. Tivemos um ano complicado, mas mesmo assim nos classificamos para o Finals e chegamos à final.
 
Por que os tenistas mineiros têm tanto sucesso nas duplas? Tem alguma coisa a ver com os clubes reservarem mais tempo para o jogo de duplas?
É coincidência. No meu caso, eu e o Bruno começamos a jogar praticamente no mesmo período, tanto que nos conhecemos desde pequeno. Jogamos duplas várias vezes durante o juvenil e no começo do profissional. Quando me profissionalizei, joguei muito bem ao lado do André Sá e, depois de uns dois anos, o Bruno chegou e as coisas foram acontecendo de forma natural. Além disso, meus pais sempre jogaram duplas no Minas e isso também me influenciou.
 
Quais os seus planos junto com o Bruno visando à Olimpíada de 2016?
A gente não montou o calendário de competições ainda. Já sabemos que jogaremos juntos o Australian Open, mas ainda vamos sentar com calma para montar um calendário compatível e decidirmos os torneios que jogaremos juntos. Mas isso deve acontecer só a partir do segundo semestre de 2015.
 
Como está sua expectativa para disputar uma Olimpíada em casa?
É uma grande oportunidade de conseguirmos conquistar uma medalha. Perdemos nas quartas de final em Londres, mas chegamos muito perto de brigar pela medalha. Temos que chegar bem preparados. O negócio é manter o planejamento e melhorar cada vez mais, pois a gente sabe que é nossa última chance e por ser no Brasil fica ainda mais especial. Vamos ter que controlar a ansiedade para ela não nos atrapalhar, mas temos boas chances de subir ao pódio. 
 
Como é enfrentar legendas do tênis mundial?
É bom e ruim ao mesmo tempo. Bom que você sente que está no mesmo nível que eles. Passamos por muitas coisas antes de chegar nesse meio e é muito legal. Mas também é muito difícil, afinal temos que matar um leão por dia e os caras não dão moleza. Mas é um equilíbrio muito legal que em teoria foi o que a gente sempre sonhou.
 
Jogar com um parceiro que também disputa simples não te atrapalha?
Realmente, o ideal é ter um parceiro que só jogue dupla para evoluir mais rápido, dessa forma você consegue coordenar mais todo aspecto da dupla. Mas com o Ivan, o jeito que a gente leva acabou casando muito bem para os dois. Obviamente, tenho que procurar outros parceiros às vezes, mas lido bem com isso. Mas sei que isso normalmente não funciona tão bem. Às vezes, as agendas são diferentes e o parceiro tem um jogo no mesmo dia e isso complica. De qualquer forma, não sei se teríamos tantos bons resultados se tivesse ele só como dupla. Talvez se ele não jogasse simples, não estaria tão motivado. Além disso, temos mais bons resultados nos grandes torneios do que nos menores. O que é um pouco estranho, mas é muito bom, afinal são esses resultados que te colocam no topo do ranking.
 
O que falta para você ou o Bruno conquistarem um título de Grand Slam?
Acho que estamos batendo na porta, mas às vezes ela não abre porque do outro lado tem os irmãos Brian. Mas estamos no caminho certo e o mais importante é que estamos evoluindo. Conseguimos nos manter bem colocados no ranking, e acredito que desse jeito uma hora o título vem.
 
O que você gosta de fazer quando está fora da quadra? 
Gosto de ficar muito em casa. Fico muito pouco tempo em BH, então, quando estou aqui, gosto de ver filmes e ir no cinema quando tenho chance. E nos torneios, quando tenho oportunidade de visitar lugares.
 
Como é sua rotina de viagens? 
O mais difícil é ficar longe de casa e especialmente da família. Às vezes a gente não percebe esta questão da alimentação. A primeira que faço quando volto é comer arroz e feijão. Coisa que não faço lá fora. Então, sinto falta da comida, da família e dos amigos.
 
E aqui em Belo Horizonte, qual o seu maior hobby?
Não sou um cara cheio de hobbies, na verdade acho que só tenho um, sempre aos sábados vou comer feijoada com meus pais no Minas. Normalmente, chego no aeroporto ao meio-dia e corro para o clube para comer a feijoada com eles.
 
Nos tempos livres você pratica outro esporte?
Acompanho futebol, mas jogar não jogo, já que existe o risco de lesão. Por isso prefiro não arriscar, apesar de gostar muito.
 
Quais são seus grandes ídolos no esporte?
No tênis meu grande ídolo é o Guga. Quando estava começando a jogar vi ele fazendo muita coisa para o tênis. É aquele brasileiro com um carisma e garra enormes. Outro é o Federer, pelo que ele é dentro de quadra e fora dela. A maneira que eles faz as coisas o torna uma figura a se admirar muito. Fora do tênis também sou fã do Ronaldo Fenômeno, que começou no Cruzeiro e eu acompanhei de perto o trabalho dele. Além disso, ele também gosta de jogar tênis. 
 
Como você vê o atual momento do tênis brasileiro?
Na simples ainda temos um pouco de carência de jogadores entre os 100 melhores do mundo, enquanto nas duplas temos eu e o Bruno no top 10. Ainda dependemos muito do Thomaz Bellucci e dos tenistas mais novos que estão chegando, como o Orlando Luz, o Marcelo Zormann e o João Menezes. São atletas que jogam muito bem, que estão chegando no período de transição para o profissional. O Thomaz também voltou a jogar bem e com isso estamos no caminho certo para nos firmar na elite do tênis mundial. 
 
Você e o Bruno nunca esconderam que são cruzeirenses. Como vocês fazem para acompanhar o Cruzeiro durante as viagens?
A gente sempre tenta acompanhar durante as viagens, mesmo com os fuso-horários e as outras dificuldades. Normalmente, não conseguimos assistir aos jogos, mas ficamos sabendo dos resultados e acompanhamos pela internet. O São Paulo deu uma encostada, mas nunca me assustou. Viramos sócio-torcedor recentemente e sempre que dá acompanhamos. 
 
Você confia que o Cruzeiro será campeão brasileiro contra o Goiás?
Com certeza o Cruzeiro vai ser campeão, espero que seja neste domingo (23) contra o Goiás. 
 
E na Copa do Brasil, dá pra inverter a vantagem do Atlético e ficar com o título?
Vai ser difícil, porém eu acredito que os jogadores do Cruzeiro têm experiência e motivação suficientes para reverter, e eu vou torcer muito para que isso aconteça.
 
Apesar da amizade, você e o Bruno sempre se enfrentam. Como é enfrentá-lo?
É complicado, mas sabemos separar a nossa amizade do profissionalismo. Na nossa profissão isso acontece muito e quando entramos na quadra queremos “matar” um ao outro, mas do lado de fora somos amigos.