A crise provocada pela pandemia de Covid-19 deve trazer a economia brasileira ao patamar de 12 anos atrás. É o que mostra levantamento feito pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), analisando a perspectiva de queda do PIB per capita. Segundo o estudo da entidade, a soma de toda a riqueza produzida pelo país, dividida pelo total de habitantes, deve fechar a atual década (2011/2020) com a maior queda na série histórica, iniciada pelo IBGE nos anos 1940. Um tombo estimado em 8,2% que supera, e muito, a única ocorrência negativa anterior: entre 1981 e 1990 (3,9%), no que se convencionou chamar de década perdida. 

Para o economista Felipe Leroy, professor do Ibmec, trata-se de cenários bastante distintos, mas igualmente preocupantes. “Os anos 1980 eram período de hiperinflação e poder de compra corroído quase que diariamente. E ainda houve o confisco da Poupança no início do Plano Collor. Agora o que se tem é uma condição pontual, que não atingiu só o Brasil, mas todo o mundo. A economia brasileira vinha dando leves sinais de retomada, de que estava saindo do fundo do poço, até a pandemia. E o país tem sérios problemas de caixa, com um déficit fiscal elevado. Além disso, o setor externo também vive um momento de crise. Assim, vai comprar e investir menos”, destaca.

Para especialista, apesar da gravidade, período 2011/2020 não trará o mesmo impacto sofrido pelo país entre 1981 e 1990, tempo marcado pela hiperinflação e pela corrosão diária do poder de compra das pessoas: a ‘década perdida’

Leroy prevê impacto ainda mais sério para Minas Gerais por causa da pauta de exportações centrada no agronegócio e no minério, que dependerão do humor dos países compradores. E ainda que haja uma perspectiva de recuperação em um prazo menor (2 a 3 anos), admite que não é fácil encontrar os remédios adequados. “Num primeiro momento é como tentar encontrar uma medicação para diminuir a dor do paciente, fortemente impactado. Mas é preciso pensar no tratamento. E é um problema mais palpável nas classes de menor renda que, em situações como a atual, sofrem mais”, diz o economista. Para ele, se o governo não tivesse atuado com os programas de auxílio emergencial, o quadro poderia ser devastador.

Cautela

Quem teve as atividades prejudicadas pela pandemia tenta se ajustar ao momento, encarando-o com cautela. Caso da cabeleireira Isabel Campos. Sem poder trabalhar no salão que administra, no Centro, ela tem feito atendimentos nas casas de clientes, e procura se ajustar à queda na renda. “Estou comprando muito menos e o que tem salvado é poder trabalhar ao menos um pouco. Nos primeiros 40 dias, não fiz praticamente nada. Com a primeira abertura, fizemos tudo o que foi pedido pela Prefeitura no salão, mas as pessoas ainda não se sentiram seguras. Agora é esperar que as coisas melhorem. No fundo todo mundo está passando por isso”.