Em sua segunda gestão à frente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Minas Gerais (Crea-MG), Jobson Andrade avalia que o próximo ano não será fácil para a indústria da Construção Civil no Estado.

Crítico quanto à atuação do poder público nos âmbitos municipal, estadual e federal, o presidente aponta a má gestão política como a raiz da crise pela qual passa o país.

Para Andrade, o Estado brasileiro “manda em tudo, pede demais e faz pouco”. Além disso, ele explica que há muitas dificuldades para a realização de concessões, o que dificulta a participação da iniciativa privada na melhoria da infraestrutura em todo país.

“Sem referência direta a nenhum partido político, estamos descrentes na capacidade do governo de promover melhorias reais para o país. Na toada em que está, 2016 vai repetir 2015”.

A indústria da construção civil está entre as mais afetadas pela atual crise econômica. Você percebe que postos mais qualificados, como arquitetos e engenheiros já estão sendo atingidos?

Já percebemos isso não apenas por estatísticas. É notória uma queda acentuada em postos de trabalho, não em toda cadeia da engenharia, mas sobretudo na construção civil. Uma das principais razões é a redução das possibilidades de financiamento para as classes mais baixas. Hoje, para comprar um apartamento, você precisa entrar com 50% do valor. Então, os índices de quem estuda o mercado imobiliário já mostram que não se vende mais imóveis.

O plano diretor que tramita na Câmara Municipal de Belo Horizonte pode melhorar o potencial construtivo no município?

Quando a Câmara coloca um plano que nivela o potencial construtivo por meio da outorga onerosa, viabiliza a construção de diversas obras, como é comum na Europa inteira. Ele permite que parte da valorização vinda com obras seja revertida para a própria prefeitura, para que outras obras sejam feitas. Só que isso não pode acontecer de uma hora para outra. A prefeitura não pode mudar potencial construtivo das regiões repentinamente. É necessário que o mercado seja avisado de como os potenciais construtivos da região vão mudar. A outorga onerosa precisa vir de forma planejada.

E quanto ao IPTU progressivo?

Sou contra. Acho isso desnecessário, obrigar o investidor a pagar IPTU maior por imóveis que estejam desocupados. Assim como não se pode obrigar o investidor a se desfazer de seus apartamentos porque precisa-se de mais moradias.

Pesquisas de entidades ligadas à indústria da construção apontam redução de 8 mil postos de trabalho em agosto deste ano na comparação com o mesmo mês do ano passado. Quais as causas, na sua avaliação?

As raízes estão na má gestão do governo. É óbvio que há fatores como a baixa do preço das commodities, mas houve, também, falta de planejamento. A crise é de governo, de má condução política do país em todos os níveis. Executivo, Legislativo e Judiciário. Há incapacidade do Estado em promover o desenvolvimento embasado em projetos. Com isso, você deixa de fomentar, que o mercado coloque dinheiro. Se o Estado não tem dinheiro, o investidor privado é que pode fazer os investimentos.

Grandes empreiteiras do país estão sendo investigadas por envolvimento em esquemas bilionários de corrupção. Isso prejudica o setor?

A operação “Lava Jato”, por um lado, é um marco para o país. Mas tem um custo milionário porque quebra empresas, diminui o mercado, impede o aporte de recursos públicos em novas obras. Nós avaliamos que a redução de investimento público em obras, na comparação com o ano passado, foi de R$ 10 bilhões.

Qual a sua avaliação sobre o financiamento privado de campanhas políticas?

Proibir o financiamento só vai aumentar o desvio. É mais salutar fazer como nos Estados Unidos, onde o financiamento é aberto e você pode receber doação de qualquer um que queira contribuir. É legítimo termos candidatos que representem a indústria, que representem sindicatos, que representem minorias. Esses grupos podem se organizar e bancar as campanhas dos seus eleitos. Tudo deve ser aberto para que os eleitores saibam quem está investindo naquele candidato.

As mudanças na legislação ambiental de Minas estão sendo motivo de grande polêmica na ALMG. De um lado, o governo quer tornar a liberação de licenças mais ágil (PL 2946/2015) alterando a lei. Por outro, ambientalistas protestam contra o modo “corrido” com que o processo está acontecendo. Qual é a sua avaliação a respeito desse embate?

O objetivo da regulamentação é proteger o meio ambiente e recuperar as perdas dos anos de mau uso. E não se trata apenas das plantas e do verde, mas do ambiente urbano também. Não fomos criados para viver no ambiente conturbado de hoje e não podemos abrir mão de uma lei ambiental, caso contrário não teremos mais planeta daqui há pouco. Agora, não é possível se construir uma estrada se eu levar cinco anos para conseguir uma licença. A engenharia tem capacidade de solucionar todas essas questões. O que o Estado quer é simplificar para que os processos não fiquem em gavetas, sem nunca se descuidar do meio ambiente. Sou favorável a essa melhoria para que as análises sejam mais rápidas. Mas defendo que, antes de tudo, as medidas de proteção ambiental sejam feitas primeiro, antes mesmo das obras começarem.

A falta de confiança dos investidores na economia é o grande entrave para o momento atual?

A confiança é base em qualquer relação. Seja empresarial, familiar, política. Essa palavra movimenta o mundo. Não é verdade que, da noite para o dia, passamos a valer nada. Estão querendo que a gente não valha para comprarem barato. Foi o que aconteceu com a OAS, que foi comprada a preço de banana junto com as concessões da BR–040, do Aeroporto de Guarulhos. Coisas que a empresa levou anos para conseguir. É esquisito você pegar um patrimônio no qual o país investiu durante anos e quebrá-lo. Quem ganha com isso? O que os milhões de funcionários dessas empresas têm a ver com a má conduta de alguns de seus diretores, se é que são eles os culpados? A nossa crise é de baixa compreensão.

Há boas perspectivas para 2016?

Não somos otimistas. Na construção civil, o setor vai ter que se adaptar. Se as vendas foram reduzidas pela metade, a estrutura das empresas também é obrigada a reduzir. As pessoas perdem seus empregos e voltam ao mercado com salários mais baixos. Isso diminui o poder de compra e o custa da construção diminui. A partir daí, as compras voltam a acontecer e o mercado se equilibra. Mas não estamos nesse momento ainda.