A crise econômica tem sido uma pá de cal nos sonhos de centenas de mineiros empreendedores. Somente no primeiro trimestre deste ano, 5.164 empresas fecharam as portas, 6,3% a mais do que no mesmo período do ano passado, quando 4.859 encerram as atividades.
 
O varejo de lazer, na linha de frente de cortes em tempos de crescimento do desemprego, dos juros e da inflação, é um dos mais atingidos.
 
Dono de dois restaurantes na capital, o empresário Luiz Otávio Guimarães Vieira, o Luizão, está passando o ponto do bar Adriano Imperador, por R$ 400 mil. “O movimento caiu mais de 50%, principalmente nos dias de semana. Os clientes frearam os gastos”, diz.
 
O dólar elevado ajudou a jogar água no chope, já que a casa é especializada em cervejas importadas. A ideia de Luizão é vender o estabelecimento do bairro Santo Antônio e concentrar esforços na outra casa, a Vila Adriana, onde funciona uma cervejaria artesanal, com preços mais convidativos.
 
Confiança em xeque
 
Levantamento na Junta Comercial mostra que a quantidade de empreendimentos que foram abertos no Estado também caiu, indicando que a confiança do empresário está em queda livre. Assim como a do consumidor.
 
“O faturamento do varejo caiu 5% em 2014, o pior resultado dos últimos 12 anos. Agora em 2015, muitos comerciantes não estão suportando a alta de custos e a falta de clientes. O resultado é o fechamento. Com exceção dos setores de alimentação, drogaria e cosméticos, a crise bateu em cheio”, diz o presidente do Sindicato do Comércio Lojista de Belo Horizonte (Sindilojas-BH), Nadim Donato, que desaconselha empreendedores de primeira viagem a entrar neste universo no momento atual.
 
Aversão ao risco
 
Investir em um negócio próprio requer disposição ao risco, conforme afirma o professor de economia do Ibmec Marcus Renato Xavier. Algo que, na atual conjuntura econômica, deve ser evitado.
 
“Quem investe em uma empresa vislumbra oportunidade de lucro no futuro. Porém, com esse cenário não é possível fazer previsões”, diz. Com o risco nas alturas, de acordo com Xavier, é comum que os investidores apliquem as reservas, deixando o desejo de ser dono do próprio negócio para depois.
 
O presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH), Bruno Falci, admite que o fechamento das empresas está acima do normal e atribui o fato à turbulência econômica.
 
Escalada dos juros sufoca capacidade de investimento
 
Uma volta rápida pela Savassi, Centro e outros polos de compras de Belo Horizonte evidencia as estatísticas da Junta Comercial do Estado de Minas Gerais (Jucemg): lojas fechadas, placas de passa-se o ponto e aluga-se.
 
“Como reflexo da economia do país, o movimento de encerramento das atividades está acentuado em todas as regiões. Não está convidativo manter negócio aberto”, diz o vice-presidente da CDL-BH, Marco Antônio Gaspar.
 
Sobrou até para espaços tradicionais, como a livraria Mineirana e a Status. A primeira não resistiu às mudanças no mercado editorial e despediu-se do público no último dia 23. Já a segunda, diante da escalada do preço do aluguel, deixou o local onde funcionava há 40 anos e mudou-se para uma loja menor, em frente ao antigo endereço. “Só no quarteirão onde funcionamos há duas grandes lojas para alugar. Uma delas está vaga há um ano e meio”, conta o sócio da Status, Gustavo Batista.
 
E a situação pode piorar. Na avaliação do presidente do Conselho de Política Econômica e Industrial da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Lincoln Fernandes, a expectativa é a de que no ano que vem o quadro seja ainda mais crítico. “Por enquanto, as empresas têm gás. Mas essa energia deve se esgotar no segundo semestre deste ano”, afirma.
 
As altas taxas de juros praticadas para o setor empresarial foram criticadas pelo representante da Fiemg. Segundo dados do Banco Central (BC), em janeiro de 2014, a taxa média anual para empréstimos girava em 16,49%. Em fevereiro de 2015, último levantamento disponibilizado pelo BC, os juros saltaram para 18,05%, 1,56 ponto percentual mais alto.
 
 
Fernandes comenta que o crédito caro inviabiliza investimentos. Além disso, ele ressalta que a elevação na taxa tem sido percebida por organizações de todos os portes. “Antes, as empresas maiores não tinham problema em conseguir crédito e saíam dos bancos com boas taxas. Hoje, se elas conseguem o empréstimo, a taxa é alta. Está todo mundo no mesmo barco. E o barco está furado”, lamenta.
 
E quem pensa que a dor de cabeça acaba com o fim do negócio está enganado. O vice-presidente do Conselho Regional de Contabilidade de Minas Gerais (CRC-MG), Mário de Magalhães Mateus, lembra que dar baixa em uma empresa é um processo demorado, que leva em média um ano. Além da burocracia, é preciso pagar taxas e desembolsar, no mínimo, R$ 500.
 
A livraria Mineiriana não conseguiu driblar a crise e despediu-se do público no mês passado
A livraria Mineiriana não conseguiu driblar a crise e despediu-se do público no mês passado (Foto: Lucas Prates/Hoje em Dia)