Além do bem estar social, a igualdade entre os sexos acelera a economia de um país. Uma política de “trabalho igual, remuneração igual”, na qual homens e mulheres executam o mesmo serviço e ganham o mesmo salário, poderia acrescentar 0,2 ponto percentual ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, bens e serviços produzidos) do Brasil. 
 
A conclusão é do consultor sênior e ex-vice presidente do Banco Mundial (Bird), Otaviano Canuto, e de seu antigo colega na instituição, Pierre-Richard Agénor, hoje professor de Macroeconomia e Economia Internacional de Desenvolvimento da Universidade de Manchester.
 
Os dois debruçaram-se sobre dados levantados pela instituição e descobriram que um considerável incremento à soma de bens e serviços produzidos no país poderia vir da completa eliminação da predisposição de gênero contra o sexo feminino no local de trabalho.
 
“E esse (aumento de 0,2 ponto percentual) é apenas o impacto direto do aumento nos salários líquidos das mulheres, sem incluir outros efeitos na alocação de talento e no desenvolvimento de capital humano”, analisa Otaviano Canuto. 
 
Os benefícios vão muito além. O estudo apontou vários canais por meio dos quais o crescimento econômico pode beneficiar-se com uma desigualdade de gênero menor. 
 
O consultor do Banco Mundial cita, por exemplo, que há evidências bem estabelecidas de que bebês tendem a ter mais peso e altura quando a mulher tem maior poder de influência sobre o destino da renda familiar, com consequên-cias em termos de saúde e capacidade de trabalho da população adulta. 
 
Na casa da comerciante Cirlene Silva, 34, é ela quem dá as cartas quando o assunto é a gestão do orçamento. “Meu marido é muito impulsivo. Não liga muito para o futuro. Eu penso muito antes de gastar”, diz. 
 
Assim que sua pequena Ana Clara nasceu, ela teve a ideia de abrir uma poupança para a menina, hoje com sete meses. Todo mês, deposita na caderneta R$ 50. “Estou priorizando os estudos dela”, conta. A história da Dona Baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha, e outros contos infantis já são lidos diariamente para Clarinha. 
 
“Não tive oportunidade de estudar mais nova e ainda não consegui concluir meu curso de Administração. Quero que minha filha se forme e aprenda desde cedo a ser estudiosa e independente”, afirma a mãe de primeira viagem.
 
A manicure Fátima Ferreira confessa que seu esposo mal vê a cor do dinheiro que recebe pelo trabalho como pedreiro. “Sou eu quem paga as contas e faço supermercado. Se deixar, ele só compra bobagens para as crianças. O salário acaba, e a geladeira fica vazia”, diz.
 
Mulher prioriza a aplicação dos recursos na vida familiar
 
E quando o tema é mulher no controle das finanças e os ganhos para pais e filhos que esse “poder” propicia, não importa a posição na pirâmide. Executiva de sucesso, Georgina Vieira, que coleciona gerenciamento de grandes projetos em empresas do Grupo Fiat, Vale, Eletronorte, Fundação João Pinheiro, ArcelorMittal, GE, Vallourec Mannesmann, entre outras, é categórica: “A mulher dá foco ao dinheiro. Ela prioriza onde investir e os valores que impõe resultam positivamente na dinâmica familiar”. 
 
Fundadora e diretora da AB Consultores Associados, a mestre em Administração e doutora em Psicologia Social sempre se dividiu entre trabalho, viagens, casa, marido e as duas filhas Marina, 34, seu braço direito na empresa, e Sílvia, 32. Reconhece a carga pesada, mas acredita que fez um bom trabalho. “As meninas se formaram, estudaram no exterior e foram além da graduação. O modelo funcionou”, afirma. 
 
A jornada tripla poderia ser amenizada se no Brasil houvesse mais investimento em infraestrutura. “Muitos analistas já destacaram várias formas para elevar o atual ritmo de crescimento por meio de uma infraestrutura melhor, reduzindo a perda de tempo e de recursos na produção e transporte. O que nem tantos podem perceber é o efeito que teria no crescimento graças à redução na desigualdade de gênero”, conclui Otaviano Canuto.