Reportada à Organização Mundial da Saúde (OMS) pela primeira vez na última quarta (24), a variante Ômicron do coronavírus já foi detectada em, pelo menos, 13 países. Em Belo Horizonte, o caso de uma mulher internada com Covid-19 no Hospital Eduardo de Menezes, depois de passar pelo Congo, na África, é investigado com cuidado pelas autoridades de saúde, já que o continente é  tido como foco da nova cepa do coronavírus.
As características específicas da variante ainda não são completamente conhecidas, mas o sequenciamento genético do vírus pode oferecer informações que colocam cientistas em alerta.

Para o professor de genética humana da UFMG, Renan Pedra, características específicas da Ômicron podem representar um risco maior. Uma delas é o número de mutações encontradas na chamada proteína Spike, trecho do material genético do vírus utilizado em vacinas fabricadas por Pfizer, AstraZeneca e Janssen.

“Nenhuma das variantes tem mais de 10 mutações (na proteína Spike) e a Ômicron tem mais de 30. É uma preocupação, mas a gente tem que lembrar que a vasta maioria das mutações não leva a uma variação funcional. Tudo que especulamos neste momento é baseado no que vimos em outras mutações. Precisamos ver em experimentos biológicos para saber qual é o real perigo”, afirma Pedra.

O professor explica que uma noção mais segura sobre os riscos da nova variante ainda deve demorar alguns meses, já que será preciso avaliar o comportamento da Ômicron em indivíduos para entender quais os sintomas e como ela afeta cada pessoa.

Cuidado com os “desertos vacinais”

Para Renan Pedra, o surgimento de variantes como a Ômicron revela a necessidade de se tratar a imunização contra a Covid-19 como um problema global.“Enquanto existirem países com baixa cobertura vacinal e baixo monitoramento de novas cepas, existe a chance de variantes entrarem em países que estão com a cobertura completa e bagunçar o que já estava começando a ficar arrumado”, comenta.

O professor explica que, em locais com baixo índice de vacinação, a carga de vírus em circulação é maior, o que favorece o surgimento de variantes, incluindo cepas mais resistentes às vacinas. E esse é o motivo pelo qual a cobertura da imunização ser avaliada dentro de territórios nacionais não revela eficiência no combate à pandemia se existirem “desertos vacinais”, regiões que não têm acesso a vacinas ou com uma população reticente à aplicação da proteção contra a Covid-19.

“A pandemia só acaba quando acabar pra todo mundo. A gente precisa enfrentar no nível nacional, mas é importante entender que é preciso um esforço global”, avalia.

Medidas de controle no Brasil

Nesta segunda (29), o Brasil proibiu a entrada de voos vindos de seis países africanos em território nacional como medida de proteção contra a Ômicron. O professor Renan Pedra, no entanto, vê a medida como ineficaz no momento.

“Eu acredito que a política de controle de fronteira envolve a necessidade de comprovação vacinal e quarentena seja mais efetiva que proibir países específicos”, afirma.

Para Pedra, o fato da variante já ter sido detectada na Europa e na Ásia torna a proibição de entrada de pessoas de países específicos falha, já que a cepa se espalhou para outros locais.

Sem proteção

A Prefeitura de Belo Horizonte confirmou que a paciente internada em BH deixou o Congo, na África, no dia 17 de novembro, passou pela Turquia, desembarcou em São Paulo no dia 20 de novembro e nesta mesma data chegou à capital. Ela começou a ter os sintomas da Covid-19 dois dias depois. E, só no no último domingo (28), ela procurou atendimento médico na UPA HOB.

A mulher disse às equipes de saúde que não tomou a vacina contra a Covid e que fez teste para detecção da doença antes de embarcar no Congo, tendo resultado negativo. O teste rápido confirmou que ela tinha sido infectada e amostras foram enviadas para a realização de genotipagem do vírus. A paciente segue internada em isolamento no Hospital Eduardo de Menezes.

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