Dos cerca de cem produtores de vinhos do país registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, 25 são de Minas. E boa parte do que eles elaboram não deixa nada a dever aos vinhos de qualidade fabricados em países reconhecidos como fornecedores e exportadores da bebida cuja criação é atribuída ao deus Baco, filho de Zeus.

Prova disso é que, há poucos dias, no maior e mais influente concurso de vinhos do mundo, o Decanter World Wine Awards (DWWA), alguns dos jurados mais exigentes do planeta premiaram bebidas mineiras com medalhas de prata e bronze, destacando-as entre os 18.094 rótulos inscritos, provenientes de 56 países.

Nas duas únicas safras que colocou no mercado – 2018 e 2019 –, a Vinícola Bárbara Eliodora, fundada em 2015, em Santa Rita do Sapucaí, Sul de Minas, conquistou premiações internacionais. “Tivemos a grata surpresa de ser agraciados em 2019, no Prêmio Internacional de Bruxelas, com a medalha de ouro; e, agora, no DWWA 2021, com o bronze, para o rôtulo Syrah”, celebra o sócio-proprietário Guilherme Bernardes Filho.

Ele acredita que a produção de vinho em Minas, no Sudeste do país, sinaliza para uma nova fronteira econômica. “Agrega muitíssimo valor a todas as regiões, a quantidade de empregos e o enoturismo são gigantes: restaurantes, empórios, mão de obra especializada na cadeia do vinho”, pondera Bernardes, que está preparando um vinho gran reserva, com uvas colhidas em 2020, reservadas em toneis por cerca de dois anos. E montando, ainda, uma estrutura turística em sua propriedade, para permitir degustação e visitação. 

Os preços desses vinhos especiais variam, aponta Bernardes, entre R$ 85 e mais de R$ 200 a garrafa, no caso dos gran reserva, especialíssimos e muito valorizados pelos apreciadores da bebida.

O que tem garantido essas características competitivas ao vinho desenvolvido em Minas e no Sudeste do país, ressalta a engenheira agrônoma Cláudia Rita de Souza, doutora em Ecofisiologia Vegetal e pesquisadora da  Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) é o método de cultivo por dupla poda.

Idealizada há 20 anos, pelo pesquisador da Epamig Murilo Regina, a técnica, explica Cláudia de Souza, consiste na realização de duas podas nos vinhedos, para transferir a colheita do verão chuvoso para o inverno seco. “No verão chove torrencialmente e isso é prejudicial à qualidade e à sanidade da uva. Você não consegue fazer um bom vinho, se colhe debaixo de chuva”, detalha a estudiosa.

“Não tenho dúvida de que é um mercado promissor. Estamos só começando, estão surgindo novos produtores, novos vinhos, é um mercado em franca expansão. O brasileiro consumia muito pouco vinho e pouco vinho nacional. A gente vem quebrando preconceitos. Vejo um mercado cada vez mais fortalecido”, considera outro produtor sul-mineiro, Eduardo Junqueira Nogueira Neto, da Vinho Maria Maria, que, também apostando na dupla poda, recebeu medalha de prata no DWWA 2021, com o rôtulo Fernanda Sauvignon Blanc.

Atualmente, no Brasil, estão registrados uma média de 500 hectares de vinhedos conduzidos com a técnica da dupla poda – especialmente no Sudeste e em algumas áreas do Cerrado e do Nordeste –, com estimativa de aumentar mais 100 hectares em 2021, segundo previsão da Epamig. Durante o ciclo de trabalho, a atividade gera de 300 a 500 empregos diretos. 

A produção estimada, para quando toda a área plantada estiver em uso (sob a dupla poda) é de 4 mil toneladas de uvas e 2,4 milhões de litros de vinho. Em 2020, a área cultivada foi aumentada em 20%. E a previsão é de que o mercado movimente R$ 120 milhões anuais.