O anúncio da cobrança extra na tarifa de energia elétrica, feito pela Aneel na última segunda-feira, pegou consumidores e empresários de surpresa. Pela decisão da Aneel, será aplicada na conta a bandeira vermelha patamar 2 – em que são cobrados R$ 6,24 a mais sobre cada 100 quilowatts-hora (KWh) consumidos. 

No fim de maio, a agência reguladora anunciou que manteria a bandeira verde, sem cobrança extra na conta de luz, até 31 de dezembro, em decorrência da crise econômica causada pela pandemia. Ao justificar o reajuste de agora, a Aneel afirmou que a demanda de energia elétrica no país atingiu os mesmos níveis pré-pandemia, o que, associado à baixa dos reservatórios, fez com que as usinas termoelétricas – quase todas movidas a óleo diesel – fossem acionadas para garantir o abastecimento. 

Com a notícia, comércio e indústria fazem as contas para absorver o reajuste. O aumento significa que um consumidor que gasta 10 mil kWh mensais terá que desembolsar R$ 624 a mais no fim do mês para bancar a conta de energia. 

Presidente do Conselho de Energia da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Márcio Danilo Costa avalia o reajuste como grande dificultador da retomada da atividade industrial. Ele acredita que o setor terá que rever custos e fazer ajustes, para diluir o impacto do aumento nos custos de produção. “O consumidor final não consegue mais absorver aumentos. A alta da inflação já está aí para mostrar isso. Infelizmente, esse será mais um desafio a ser ultrapassado”, considera Costa.

A linha de raciocínio de Ricardo Rodrigues, do conselho consultor da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em Minas Gerais (Abrasel-MG), é a mesma. Para ele, a mudança de decisão da Aneel mostra aos empresários uma insegurança jurídica que dificulta os negócios e a própria capacidade de empreender no Brasil.

“Infelizmente, vivemos uma desilusão no país, sem segurança para empreender. O que vale hoje é diferente amanhã. Isso não dá as condições necessárias para investir, crescer e gerar emprego e renda”, diz o empresário.

Para tentar diminuir os custos com a energia elétrica, empresários estão buscando alternativas para produzir o que gastam. Ricardo Rodrigues é um deles. Dono de um restaurante tradicional na capital mineira, o consultor da Abrasel-MG buscou financiamento bancário e investiu cerca de R$ 400 mil para montar no estabelecimento uma usina fotovoltaica, que gera energia solar. 

Com isso, abastece toda a capacidade de uso do restaurante e diminuiu o custo com energia, de cerca de R$ 10 mil mensais para apenas R$ 100. “Preferi trocar o que pagava à distribuidora de energia pelo financiamento bancário. Hoje, não fico mais à mercê da instabilidade nos reajustes das tarifas”, frisa Rodrigues.

No entanto, a medida adotada por Rodrigues ainda não é uma realidade acessível em Minas, pela incapacidade do sistema de gerar e distribuir este tipo de energia limpa para outros setores.

Para Márcio Danilo Costa não faltam projetos. linhas de financiamento nem demanda, mas capacidade de investimento para ampliar o sistema. “Não é questão de a indústria não querer usar este tipo de energia, mas de o sistema suportar a demanda. Sem investimentos, não há solução”. 

O economista Danilo Eustáquio, professor da Faculdade Promove, aponta que a solução seria abrir a produção de energia limpa, através de parceria público-privadas, o que facilitaria a criação dessa matriz a médio-prazo. “O Estado sozinho não tem como pagar esta conta. É preciso desburocratizar o setor e permitir que a iniciativa privada entre não só na distribuição, mas também com mais força na geração de energia”, defende o economista.