O empresário Matheus Daniel, de 40 anos, assumiu neste mês a presidência da seção mineira da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-MG) com o desafio de conduzir o segmento, na capital e no Estado, a uma retomada mais sólida das atividades. De preferência, alcançando patamares verificados antes do início da pandemia da Covid-19.

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, Daniel fala dos estragos provocados pela crise, como o fechamento de milhares de casas e o elevado número de demissões no setor, na capital e no Estado. E cobra uma série de medidas do Poder Público de BH, ao qual não poupa críticas pela maneira como enfrentou o novo coronavírus. Descontos em taxas e tributos, flexibilização de horários de funcionamento e a volta do self-service e da circulação normal dos Ônibus são algumas das principais demandas.

Fale um pouco da sua trajetória, até esse momento em que assume a presidência da entidade no Estado, por três anos?
Venho de uma família que trabalha com alimentação desde a década 40, mas estamos no ramo, ininterruptamente, desde 1981. Fato é que fui criado em ambiente de restaurantes, já que, em 1989, minha família abriu a segunda casa de comida a aquilo em Belo Horizonte. Aliás, a primeira, a “Isto e a Quilo”, foi a que inventou o conceito de comida por peso, e entramos nesse mercado logo em seguida. Depois, formei-me em gastronomia, quando já era guia de Turismo, assumi o restaurante da minha mãe, em 2009, e, em 2015, comecei a frequentar reuniões da Abrasel. Até que, este ano, recebi o convite para ser presidente da seção Minas Gerais, no lugar do Ricardo Rodrigues, de cuja gestão participei. Trata-se de uma missão que cumpro com muito gosto, porque acredito no associativismo.

Qual a base de associados da Abrasel em Minas e na capital, hoje, e os números do segmento, após fortes impactos da pandemia?
A Abrasel, que tem força legal de representatividade de todo o segmento de bares e restaurantes, cresceu em número de associados na pandemia. Hoje, estamos com 483 em Belo Horizonte e cerca de 890 em Minas. Em números de estabelecimentos representados, são 12 mil na capital com 72 mil funcionários, sendo que 3,5 mil casas fecharam e 30 mil empregos foram perdidos devido aos impactos da Covid. No Estado, tínhamos 133 mil estabelecimentos e 800 mil empregos antes da pandemia. Hoje, perdemos em torno de 30 mil estabelecimentos e 250 mil postos de trabalho.

“Não é possível que a colher do arroz (nos self-services) seja mais contaminada que os apoios internos de ferro do ônibus, que continuaram rodando lotados enquanto enfrentamos restrições”

Como o senhor avalia o combate à pandemia e os efeitos disso no mercado de bares e restaurantes, em Minas e em BH?
Infelizmente, o STF deixou a cargo de cada cidade a definição das políticas de combate à pandemia. Isso fez com que ão tivéssemos unanimidade. Em BH, onde há uma grande conurbação, com muitas cidades coladas, dificultou toda a operação. Porque aqui, se você está no BH Shopping e atravessa a rua, está em Nova Lima, assim como quando cruza o bairro Camargos e passa da capital a Contagem, por exemplo. Então, cada prefeito agiu de uma forma e não houve um enfrentamento mais coeso, o que seria ideal, com todos agindo de forma conjunta, coordenada. O governo estadual lançou um plano (Minas Consciente), mas que não era de adesão obrigatória. O que igualmente contribuiu para que cada prefeito agisse da forma como melhor entendesse. Tal falta de coesão, principalmente na região metropolitana, prejudicou o combate tanto no aspecto sanitário quanto no econômico.

O senhor acha que bares e restaurantes foram tratados de forma injusta?
Sim. O bar e o restaurante não podem ser considerados responsáveis pelos riscos, como tem ocorrido. Os maior problema, se falarmos de BH, foi a falta de bom senso e de argumentos técnicos para a tomada de decisões como a suspensão prolongada de abertura de alguns segmentos. Porque a gente não pode ter, por exemplo, um Shopping Oi aberto em detrimento de uma Galeria do Ouvidor, que seguia fechada. Foram dois pesos e duas medidas. E, sobretudo, faltou isonomia do Poder Público para tratar dos bares e restaurantes. Não é possível que a colher do arroz (nos self-services) seja mais contaminada que os apoios internos de ferro do ônibus, que continuaram rodando lotados enquanto enfrentamos restrições. 

Mas e as aglomerações nesses locais?
Tem várias outras coisas que estão aglomerando pessoas. Os restaurantes entenderam que eles precisavam reduzir a capacidade. Mas, aí, o que vem de contraponto, sabendo-se que, se reduziram a capacidade, o poder de faturamento do restaurante diminuiu? Encurtaram também o horário de funcionamento, colocando, por exemplo, a proibição de bebidas alcoólicas antes das 17h! Então, isso tirou ainda mais as vendas. E eu ainda tenho que fechar mais cedo! Nitidamente, é falta de critério. Basta ver o TSE nas eleições deste ano, por exemplo: o órgão entendeu que tinha de aumentar o período de votação, e não diminuí-lo, para evitar aglomerar eleitores. Em relação aos bares, a prefeitura decidiu fazer o contrário. E ainda tem outro aspecto importante: o vírus circula o dia todo, não faz diferença se a pessoa beber às 10h da manhã ou da noite. Entendo, portanto, que as medidas tomadas foram incoerentes. 

O senhor também critica a forma como foi feita a fiscalização...
Exato. Foi algo que nos chateou muito. Nas regiões principais da capital, nos pontos centrais, houve ampla ação dos fiscais. Já nas periferias, não. Se você andasse para dentro de qualquer bairro, veria bares e restaurantes funcionando normalmente. Os restaurantes, por exemplo, estão impedidos de fazer o self-service no modelo tradicional, mesmo aplicando protocolos como uso de luvas e máscaras, mas nos bairros muitas casas oferecem o serviço. O mesmo ocorre em relação aos playgrounds. 
Portanto, entendemos que não adianta criar proibições como essas. A Abrasel acredita, isso sim, que o bom senso e a educação são os melhores caminhos.

“Nosso alvará ficou suspenso durante seis meses, metade do ano, devido à pandemia, e a prefeitura quer que paguemos o valor completo da taxa de localização e funcionamento de bares e restaurantes” 

No caso do self-service, mesmo com medidas de segurança como a mencionadas, não haveria aumento de riscos de contaminação, como defendem alguns infectologistas? 
O nosso questionamento é de que não foi apresentado nenhum estudo cientifico sobre isso. Repito: será que a colher do arroz é mais perigosa que o ônibus? Se nos mostrassem um trabalho atestando tal tese, tudo bem. Convidem a UFMG para fazer um relatório e nos provem que a colher do arroz é o problema. Porque é o seguinte: o que se fala a todo momento? Tem que usar álcool em gel, higienizar as mãos, usar máscaras. Se a pessoa entra no restaurante e adota tais procedimentos, qual o risco de ela eventualmente se contaminar? Afinal, a drogaria, o supermercado, também não são tipos de self-service? E os ônibus não seguem circulando superlotados? Além disso, a OMS já declarou que os alimentos não são fontes de contaminação. Ou seja, não se justifica a proibição.

Em relação a medidas compensatórias para bares e restaurantes que ficaram sem atender clientes in loco em BH, o que já há de concreto? 
O que precisamos conversar com a prefeitura, antes de procurar outras medidas, é o seguinte: saiu há poucos dias decreto dizendo que a taxa de localização e funcionamento de bares e restaurantes, que é cobrada todo ano, não terá desconto. Ou seja, nosso alvará ficou suspenso durante seis meses, metade do ano, devido à pandemia, e a prefeitura quer que paguemos o valor completo. Também querem que seja assim com o alvará de licença de mesas e cadeiras. Outra questão: vários restaurantes que geram maior volume de resíduos, pagam taxa extra de lixo. E esse extra, mesmo com a casa tendo uma capacidade reduzida e um menor horário de funcionamernto, não foi revisto. Ou seja, todos os impostos estão a 100% e nosso funcionamento está a 30% ou 40%.

Além dessas questões, que outras medidas são esperadas?
Primeiro ponto: pedimos que haja flexibilização dos horários de bares e restaurantes e que seja liberado o self-service. Hoje, 70% das casas trabalham com esse sistema e 80% dos clientes, conforme pesquisas que temos, gostam mais de tal modalidade. Trata-se de uma preferência dos belo-horizontinos. Também precisamos que os ônibus voltem a circular normalmente, não só em BH, mas em toda a região metropolitana. O transporte público precisa ser retomado para acabar com o sofrimento dos nossos funcionários, sem falar que hoje temos restaurantes que, com cinco colaboradores, gastam R$ 200 reais por dias para mandá-los para casa por APPs, após as 22h, porque não tem ônibus.