A quarentena imposta pelo novo coronavírus confirmou uma tendência que já se desenhava em Belo Horizonte e Região Metropolitana, desde o início da pandemia, e impulsionou o mercado de lotes, chácaras, sítios, condomínios horizontais e até mesmo a procura por coberturas e apartamentos maiores e com áreas privativas. Os belo-horizontinos abriram mão da localização privilegiada dos imóveis e têm buscado mais a qualidade de vida no entorno da capital. Em algumas regiões a demanda já superou os 300%, inclusive por lotes de 200 metros quadrados, que têm sido alvo do público do programa “Minha Casa, Minha Vida”. Os preços ainda se mantêm estáveis, mas especialistas já preveem alta e apostam em um novo boom do setor.

A construção de micro imóveis, com espaço comum compartilhado, que também era uma tendência antes do início da Covid-19, também tem perdido força e dado lugar a uma maior valorização da privacidade e dos espaços internos tanto das áreas construídas como das de lazer. Em Lagoa Santa, por exemplo, no Vetor Norte, a procura por lotes, chácaras, sítios e condomínios horizontais cresceu cerca de 200%, segundo o presidente da Associação do Vetor Norte (Avnorte), empresário Jarbas Nassif, proprietário também do Grupo Cidade, que possui imobiliárias, construtora, hotel e empresas de loteamento. 

“O que lança de empreendimento imobiliário na região está vendendo. As pessoas sentiram na pele o que é ficar preso dentro de casa nesta pandemia. Em alguns condomínios já estruturados aqui, já não encontra mais lotes”, garante Nassif. Segundo ele, os preços no Vetor Norte ainda têm se mantido estáveis, mas muitos proprietários, diante da crescente demanda, têm sido irredutíveis em negociar a redução de valores, como ocorria antes de março. O empresário afirma também que a concretização o Aeroporto Indústria tem atraído novas empresas e garantido mais empregos.

O crescimento da região levou o empresário Paulo Arthur Rola e Gomes, sócio do Grupo Cottage, a investir cerca de R$ 16 milhões no condomínio Reserva da Barra, aos pés de um cinturão verde nas montanhas de Pedro Leopoldo, com lotes de 450 metros a 4 mil metros quadrados, a partir de R$ 165 mil. “O condomínio sintetiza tudo que as pessoas têm buscado com a pandemia, pois reúne o aconchego de uma boa cidade mineira com um toque de modernidade, segurança e tranquilidade. Ele foi lançado no dia 4 deste mês e a expectativa é fechar outubro com 20% das 160 iniciais vendidas e 30% até o final do ano”, afirma. Ao todo, serão 255 unidades.

Em Mateus Leme, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a 60 quilômetros da Praça 7, as vendas do bairro Bandeirantes, da empresa de loteamentos Ello Urbanismo, que no início da pandemia caminhavam para um fracasso, tiveram incremento de 350% do dia 17 de março a 31 de agosto. 

“Nós ficamos com a perspectiva bem negativa com a pandemia, de que as vendas teriam um viés negativo, mas foi uma surpresa. Neste período vendemos 70 lotes em relação ao mesmo período do ano passado”, conta Leonardo Matos, diretor da empresa, que comercializou todos os 219 lotes de 200 metros cada, principalmente para o público do “Minha Casa, Minha Vida”.

A procura foi tão grande que levou a empresa a antecipar o lançamento para o próximo mês do Reserva da Serra, que terá 345 imóveis, também com 200 metros cada. 

“Corremos para este lançamento para ver se pegamos essa oportunidade. Vimos que quem comprou nossos lotes eram pessoas que moravam em apartamentos pequenos, de 39 metros quadrados. Imagina quem ficou confinado nesses apartamentos?”, disse, lembrando que essa mudança de postura do consumidor não ficou restrita apenas às classes “A” e “B”.

 

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 Fábia Quaresma disse que procura por apartamentos maiores já registrou expansão de 30% nesta pandemia

Venda de lotes em BH cresce 20% e CMI prevê novo ‘boom’

Dados do Instituto Secovi mostram que somente em setembro deste ano em relação ao mês anterior as vendas de lotes em Belo Horizonte registraram um salto de 23,13%. Comparando os 12 meses até setembro deste ano com igual período até o mesmo mês de 2019, a expansão chegou a 47,92%.

Segundo a presidente da Câmara do Mercado Imobiliário (CMI) e do Sindicato das Empresas do Mercado Imobiliário de Minas Gerais (Secovi), Cássia Ximenes, há uma tendência de novo boom do setor imobiliário. “Estamos percebendo que seja um princípio de um novo boom no setor. O que é fato é que é o melhor momento para fazer investimento, antes da subida vertiginosa de preços. Temos oferta dentro dos preços de mercado, sem grandes alterações, mas estamos percebendo que a tendência é de alta ”, afirma.

“Com a pandemia, as pessoas ressignificaram viver em casa e trocaram a localização pela qualidade. A gente vinha de uma tendência de micro imóveis, com áreas compartilhas, mas agora as pessoas estão buscando mais qualidade de vida, privacidade, valorização de espaços internos e automatização”, garante.

A proprietária de uma das franquias da imobiliária Remax em BH, Fábia Gonçalves Quaresma, conta também que houve um crescimento em torno de 30% de pessoas que têm buscado apartamentos maiores, com cobertura e área privativa, além de permutas de apartamentos por terrenos no entorno de BH. 

“Hoje, conviver em um apartamento pequeno, está se tornando complicado. Então as pessoas estão buscando mais conforto em casas na Grande BH”, conta. Segundo ela, a venda de um loteamento em Betim, com 180 unidades, chegou a ser feita em três horas.

O corretor Rodrigo Andrade, da Bela Vista em Lagoa Santa, constatou incremento de 50% nas vendas de lotes e casas de maio até agora. Segundo ele, alguns imóveis também tiveram valorização de até 15%. “Acho que um dos fatores foi sim a pandemia, além da opção de investimento”, afirma.

 

‘As pessoas viram que não podem ficar presas em apartamento’ 
 

A professora do cólegio Militar em Barbacena, Regina Lúcia Nardy Santos, que é de Pedro Leopoldo, resolveu comprar um espaço nessa cidade do entorno de BH. “Quando a gente fica enclausurado, começa a ter a ideia do que é ter um espaço. Adquiri 465 metros no Reserva da Barra, por causa da segurança, contato com a natureza e a proximidade com o centro da cidade”, conta. 

Já o empresário Adilson Ribeiro de Carvalho, que atualmente mora no Planalto, em Belo Horizonte, adquiriu dois lotes no residencial Gran Park Douros, em Vespasiano, local onde pretende construir uma casa para morar, e outros seis, na entrada do condomínio, com 2.400 metros, onde vai montar um complexo comercial, com supermercado, drogaria, academia e salas comerciais. 

“As pessoas viram que não podem ficar presas em apartamento. Estão buscando qualidade de vida”, avalia.

Ele conta que pretendia dar início à construção da casa no início de janeiro do próximo ano, mas como materiais de construção tiveram aumento de até 50%, pretende esperar um pouco mais para começar as obras, onde gastaria agora cerca de R$ 1,1 milhão. Já quanto ao centro comercial quer dar o pontapé inicial em 2022.

 

ALÉM DISSO:

A Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede) informou que atualmente existem quatro projetos de investimentos no Vetor Norte, formalizados pelo Indi. Ao todo serão investidos na região R$ 550 milhões em atividades nos setores de alimentos, mineração, aeronáutico e novas tecnologias. Um dos aportes é da Clamper, empresa fabricante de itens eletrônicos, que atualmente está dentro do Aeroporto Indústria.

A Sede informou ainda que entre os projetos estratégicos do governo de Minas está a Aerotrópole Mineira, que busca estabelecer uma visão inteligente de ocupação do solo com governança ambiental, infraestrutura customizada, fundada na premissa de que o crescimento econômico é impulsionado pela mobilidade de negócios de base tecnológica. A aerotrópole, definida como uma região econômica urbana centrada no aeroporto de Confins, é a manifestação física dessa premissa e constitui a base da política de diversificação econômica e para a agregação de valor à economia mineira.

O Aeroporto Indústria faz parte do projeto Aerotrópole. Ele é destinado, principalmente, à instalação de empresas que tenham como foco principal a exportação de produtos manufaturados, utilizando matérias-primas importadas em seu processo produtivo. Ao manufaturar seus produtos dentro do Aeroporto Industrial, as empresas terão isenções fiscais quando exportarem os produtos acabados.