Um iminente “fundo do poço” para a economia mineira e brasileira, previsto por muitos analistas tão logo a pandemia da Covid-19 chegou ao país, parece estar mais distante do que foi estimado. Embora os números da doença sigam alarmantes, ações governamentais, que vão do pagamento do “coronavoucher” à concessão de crédito a empresas, passando pelo socorro da União a estados e municípios e a flexibilização de restrições a algumas atividades, têm contribuído para pintar um quadro menos feio que o imaginado quatro meses atrás.

Nas finanças mineiras, por exemplo, o impacto do novo coronavírus tem sido até ameno, a julgar por projeções feitas ainda em abril. Na época, o governo estadual estimou em R$ 7,5 bilhões o buraco nas contas até dezembro, com recuo progressivo na apuração de ICMS derivado da pandemia. Hoje, com resultados menos drásticos, o cálculo foi revisto: R$ 5 bi. 

Para tal, contribuíram, entre outros fatores, segundo o secretário da Fazenda de Minas, Gustavo Barbosa, um plano de contingenciamento já implantado no Estado (que prevê economia de R$ 4,3 bilhões para o erário, este ano), o recebimento de parcelas mensais da ajuda federal (são quatro de R$ 748 milhões, das quais duas já chegaram) e um relativo reaquecimento da economia. 

“No início, nós fomos de fato conservadores ao estimar perdas”, disse Barbosa, lembrando que esse tipo de visão é fundamental para quem lida com fluxos de caixa. “Em abril, tivemos um mês no qual tudo se estagnou. A queda de arrecadação com (o ICMS dos) combustíveis, por exemplo, chegou a 40%. Mas, desde maio, temos visto a atividade econômica voltando, e os números mostram isso”, acrescenta.

Também para parte do empresariado, em que pese setores mais sensíveis ao isolamento social, como o de comércio e serviços não essenciais, estarem longe de uma retomada, a sensação também é de otimismo. “Os indicadores no dia a dia, como o consumo de energia, o volume de emissões de notas fiscais, estão extremamente positivos”, sustentou o presidente da Fiemg, Flavio Roscoe. “A própria base de arrecadação do governo tem caído menos que o esperado. Então, são números positivos que nos apontam para uma recuperação mais rápida do que a projetada”, completou. 

Cautela
Para o economista Felipe Leroy, embora os dados apontem para um cenário menos caótico na economia, não é hora de baixar a guarda: tudo pode piorar. “Não estamos no fundo do poço porque governos, sobretudo o federal, têm feito políticas públicas para evitar isso. Mas o grau de endividamento com essas ações tem sido absurdo e isso tem um limite; a cada pagamento de R$ 600 (auxílio emergencial), são R$ 30 bilhões gastos”, afirmou.

Leroy destaca, contudo, que Minas deve “sentir menos que o Brasil” quando a conta da pandemia de fato chegar, “a médio e longo prazo”. “Acho que o Estado ficará um pouco melhor porque temos uma pauta de exportação muito baseada em agronegócio, e isso nos ajuda, porque quem compra commodities (caso de países europeus que já começam a sair da crise sanitária), vai precisar continuar comprando”, concluiu.

 

arte