“É o início de uma jornada”. Assim o coordenador do Movimento Luta de Classes, Pedro Vieira, resumiu, ontem, o inédito protesto que reuniu centenas de motoboys e entregadores de aplicativos de Belo Horizonte. 

Cerca de 300 profissionais participaram do movimento, iniciado pela manhã, na Praça da Assembleia, e depois transformado em caravana pelas ruas da região Centro-Sul. A greve e os protestos dos entregadores também aconteceram em outros estados e países da América do Sul.

Os alvos do movimento foram aplicativos como iFood, Uber Eats e Rappi. Entre outros direitos e melhorias, a classe reivindica aumento das taxas mínimas e do valor básico por quilômetro rodado e um canal de comunicação com as empresas, 24h por dia. “Outra pauta importante é termos apoio das empresas em caso de acidentes e mortes”, disse Pedro Vieira. 

“Nós não paramos em momento nenhum. A alimentação (delivery) chegou possibilitando que as pessoas ficassem em casa, mas, mesmo assim, não temos o respeito que deveríamos ter”, desabafou o também motoboy Alexandre Brandão Santos.

Já Waldir Santos, que concilia as entregas na moto com o trabalho de serralheiro, destacou que se sente tão vital quanto profissionais de saúde, que estão na linha de frente no combate ao novo coronavírus. “O nosso trabalho já era essencial, mas com a pandemia ficou ainda mais. Somos importantes como os médicos, já que a gente tem o papel de manter as pessoas em casa”.

Jogada
De acordo com Pedro Vieira, durante o protesto de ontem, algumas empresas praticaram a taxa dinâmica, valores acima dos habituais, para enfraquecer o movimento. “Teve grana extra. Eles jogaram baixo. Mas, também, foi uma prova de que é possível pagar valores mais altos para os trabalhadores”, disse.

Os profissionais também reclamam de retaliação das empresas – não necessariamente no protesto de ontem. “Se você rejeita alguma corrida, ou se não roda no fim de semana, os aplicativos não te direcionam chamadas. A gente não tem como se defender”. 

Próximos passos
Os motoboys e entregadores de aplicativos de BH criaram uma comissão para organizar as cobranças junto às empresas. O grupo vai oficializar as propostas no Ministério Público do Trabalho (MPT). Se a classe não receber respostas objetivas, novos movimentos não estão descartados. 
Após o protesto, o Uber Eats voltou a explicar critérios usados para remunerar entregas. O Rappi reiterou a defesa à livre manifestação dos colaboradores e listou benefícios oferecidos a todos. 

Já o iFood, por meio de seu site, afirmou que 70% dos pedidos no país são entregues por contratados diretos dos restaurantes e que os motoboys que usam o app têm seguro contra acidentes, inclusive na volta para casa.