Mais da metade das empresas produtoras de aparelhos eletrônicos já sofre algum impacto no recebimento de materiais, componentes e insumos oriundos da China, como resultado da epidemia do novo coronavírus (COVID-19). A doença já infectou quase 80 mil pessoas no país de maior população do mundo, onde já há oficialmente mais de 2.500 mortos.

Conhecida como “Fábrica do Mundo”, a China se firmou como a maior parceira comercial do Brasil desde 2009 e, atualmente, itens eletroeletrônicos oriundos de lá respondem por 42% das importações brasileiras no setor.

“Por enquanto, estão faltando peças e componentes. Deve-se fabricar menos e a demanda muito alta vai, logicamente, encarecer os produtos, que podem até faltar”, afirma Charles Andrew Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil China (CCIBC). “Há interrupção no mundo todo, não só no Brasil, porque o planeta depende das peças chinesas”. 

Segundo o presidente da CCIBC, a expectativa é de que a situação se normalize a partir de abril ou maio. “A China voltará com toda força, assim como o fez depois do SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave)”, diz, em referência ao surto da doença que surgiu no país em 2003 e matou 774 pessoas.<EM>
 

Levantamento
Em um levantamento da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), com cerca de 50 fabricantes, 57% dos entrevistados já apresentam problemas no recebimento de materiais, componentes e insumos provenientes da China.

É o caso da Flextronic, responsável pelos celulares da Motorola. A fábrica dos aparelhos distribuídos para todo o país fica em Jaguariúna, no interior de São Paulo, e, na semana passada, concedeu férias para 1.500 de seus 4.500 funcionários. A medida vale até hoje (26 de fevereiro), quando poderá ser interrompida ou continuada, a depender da evolução da situação chinesa. A China é a origem de 90% dos componentes eletrônicos da Flextronic.

“A situação expõe nosso alto índice de vulnerabilidade em relação à importação de componentes”, afirma Humberto Barbato, presidente-executivo da Abinee. “O momento é delicado e devemos ter diversas paralisações daqui para frente”.

Ainda de acordo com os dados levantados pela Abinee, 15% das fabricantes operando normalmente já planejam paralisações para os próximos dias. Isso já ocorreu, contudo, com a marca LG. Com fábrica em Taubaté (SP), a empresa informou por nota que “devido ao surto do coronavírus que atinge o mundo e tem provocado o desabastecimento de peças”, considera um risco potencial de parada na produção, no mês de março, em sua unidade fabril de celulares”.

Outra gigante de celulares, a Apple informou na semana passada que há uma limitação temporária do fornecimento mundial do iPhone. Embora os locais de fabricação dos parceiros não estejam situados na província de Hubei (epicentro da epidemia), o ritmo de produção está mais lento do que o previsto. “A interrupção no fornecimento do iPhone afetará temporariamente a receita em todo o mundo”.