Uma pesquisa divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que a boa e a má notícias podem andar de mãos dadas. De 2013 para 2019, reduziu a quantidade de empresas do setor afetadas pela falta de mão de obra qualificada. Por outro lado, o percentual de firmas que reclamam da situação continua elevado, apesar de estar em declínio . Em sete anos, passou de 66% para 50%.

O estudo, divulgado ontem, tem como período-base o fim de 2019, quando a taxa de desemprego no Brasil estava em 11%. De acordo com a CNI, “a falta de trabalhadores qualificados deve se agravar à medida que aumentar o ritmo de expansão da economia e se tornará um dos principais obstáculos ao crescimento da produtividade e da competitividade do país”.

A entidade defende medidas a curto e médio prazos para solucionar a mazela. “De imediato, é necessário um esforço de qualificação e de requalificação da força de trabalho. No longo prazo, é preciso intensificar os esforços para melhorar a qualidade da educação básica no Brasil, priorizando a educação profissional”, diz a pesquisa.

A economista Mafalda Ruivo Valente, da Faculdades Promove, avalia que se trata de uma questão cultural que prejudica o país. “As pessoas não se preocupam com a qualificação. Conseguem um emprego e se acomodam. Não é fácil mesmo trabalhar e estudar, mas trata-se de um investimento a médio prazo. O retorno virá”.

Afinal, vagas há. Christiano Mattos Leal, diretor do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, explica que o Senai, muitas vezes, oferta vagas que não são preenchidas.

Um dos motivos é que o desempregado leva em conta o status das profissões. “O Senai Minas trabalha em 28 áreas de atuação e temos dificuldade de preencher turmas por conta desta visão distorcida de que o curso técnico vai desqualificar o estudante. Falta informação. Temos casos em que pessoas formadas nas universidades vêm para o Senai para ter acesso à prática”. 

De acordo com ele, o índice de satisfação dos profissionais encaminhados à indústria em 2019 foi da ordem de 96%.

Segundo a CNI, o setor de biocombustíveis é o que mais enfrenta dificuldades com a falta de mão de obra qualificada no setor de transformação: sete em cada 10 empresas têm problemas com a ausência de profissionais preparados para o ramo. 

Em seguida, estão os setores de móveis (64%) e vestuário e de produtos de borracha, ambos com 62%.

Na conclusão da CNI, “o Brasil paga caro por ter focado em um ensino médio generalista voltado para o ingresso nos cursos superiores. Cerca de dois a cada 10 estudantes que concluem o ensino médio alcançam a educação superior. O restante dos estudantes, incluindo aqueles que abandonaram o ensino médio por falta de perspectivas, entra no mercado de trabalho sem preparo, sem uma profissão”.