Um ex-assessor do vereador cassado Cláudio Duarte (PSL) foi indiciado por ameaçar o vice-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte, Jair di Gregório (PP). O inquérito, concluído nesta sexta-feira (4), descartou que a vereadora Nely Aquino (PRTB), presidente da Casa, também tenha sido intimidada.

Os dois parlamentares receberam áudios e vídeos, enviados por WhatsApp, às vésperas da votação que cassou o mandato de Duarte. Um trecho da mensagem direcionada a Jair di Gregório continha os dizeres: "eu vou te explodir". A ameaça foi considerada crime pela Polícia Civil, que descobriu que o material tinha sido enviado por Roberto Carlos Silva Freitas, que na época trabalhava com Duarte.

O homem, de 54 anos, também confessou que enviou um vídeo para amedrontar Nely, mas, nesse caso, a polícia não constatou nenhum delito. As imagens mostravam o filho da parlamentar, de 6 anos, na porta da escola. Sobre o material, Freitas falou que queria mostrar supostas irregularidades cometidas pela presidente da Câmara. Nas imagens é possível ver que um carro da Câmara foi usado para buscar o menino na escola - o que, na opinião do ex-assessor, configuraria crime de improbidade administrativa.  "A Polícia Civil apura a questão criminal, que nesse caso não foi comprovada. A suposta irregularidade administrativa está sendo apurada pelo Ministério Público", falou o delegado Sales.

De acordo com o delegado Wagner Sales, chefe do 1º Departamento, como o crime de ameaça é considerado de menor potencial, a polícia não pediu a prisão de Freitas. "Ele vai aguardar o processo em liberdade", explicou. O delito prevê prisão de um a seis meses, além do pagamento de multa. "Mas a prisão pode ser revertida em penas alternativas", contou o investigador.

Aos delegados responsáveis pelo inquérito, o então assessor declarou que agiu sozinho. Com isso, a participação de Duarte nas intimidações foi descartada.  O inquérito, agora, será analisado pelo Ministério Público e depois remetido para a Justiça mineira. Não há prazo para que o julgamento aconteça.

O advogado Erick Assis, que representa Freitas, declarou que o inquérito foi falho, uma vez que, segundo ele, não houve ameaça ao vereador Jair di Gregório.

“O trecho que diz ‘vou te explodir’ foi tirado de contexto, argumentou. “Na verdade, se ouvidos os quatro áudios que foram entregues à polícia, pode-se notar uma linguagem coloquial, com uma conotação totalmente política”, pontuou. O defensor disse que vai comprovar a inocência de seu cliente e requerer a absolvição sumária do ex-assessor parlamentar.

Investigação

O caso começou a ser investigado no dia 1º de agosto e, desde então, os dois vereadores, o suspeito e outras testemunhas foram ouvidas pela polícia. "O Cláudio Duarte se apresentou espontaneamente para prestar esclarecimentos sobre os acontecimentos", disse o delegado, que frisou que não ficou comprovada a participação do vereador cassado no crime.

Interrogado pelos policiais, Freitas disse que enviou os áudios e vídeos "por motivação política", mas não falou qual era a intenção dele com a ação. Aos investigadores, o ex-assessor contou que a ameaça encaminhada ao vereador Jair di Gregório foi gravada por outra pessoa, que não foi delatada. "Mas o crime foi configurado por quem enviou", explicou Wagner Sales. 

Com relação ao vídeo do filho de Nely Aquino, que foi feito às escondidas, o agora indiciado falou que ele foi gravado por irmão de um ex-assessor de Duarte. 

Cassação

O vereador Cláudio Duarte (PSL) foi indiciado pela Polícia Civil pelos crimes de peculato, organização criminosa e obstrução de Justiça. Ele é acusado de embolsar ao menos R$ 1 milhão com o esquema da “rachadinha”, prática ilegal de confiscar parte dos salários dos funcionários, entre 2017 e 2018. Segundo a denúncia da Polícia Civil, Cláudio Duarte chegou a confiscar até R$ 10 mil do salário de R$ 11 mil de apenas um funcionário, mensalmente.

O vereador foi afastado da Câmara Municipal em 2 de abril. Ele chegou a ficar dez dias preso na Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem, na Região Metropolitana de BH, e permaneceu fora do Legislativo por dois meses, mas continuou recebendo o salário de R$ 17,6 mil. Desde 13 de julho, após retornar aos trabalhos na Câmara, Cláudio Duarte é monitorado pela polícia, sendo obrigado a usar tornozeleira eletrônica. No dia 1º de agosto, em sessão histórica, Cláudio Duarte teve o mandato cassado. Ele foi o primeiro vereador de BH a perder o cargo.

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