Em meio às mudanças trazidas pela maternidade, mulheres resolvem desbravar novos mercados e entram de cabeça no próprio negócio. ]Conforme pesquisa da Rede Mulher Empreendedora (RME), 75% decidiram trabalhar para si mesmas após o nascimento dos filhos. E o motivo é simples: além do sucesso e da flexibilidade, elas querem conciliar trabalho e família. 

Mas isso não significa que a jornada seja menor. Pelo contrário. Pelo menos 39% das empreendedoras trabalham mais de nove horas por dia. Muitas delas encontram na própria maternidade um novo nicho de mercado e acabam ajudando outras mães.

É o caso da psicóloga e fundadora do Programa Mães com Carreira (PMC), Mel Bracarense. Depois de atuar como gerente de Recursos Humanos de empresas nacionais e multinacionais durante 15 anos, ela teve um insight e decidiu que precisava mudar de profissão. “A maternidade foi a maior oportunidade que tive para me realinhar, para encontrar o meu caminho. E foi assim que comecei a sonhar em ter o meu próprio negócio”, diz. E a renda agradeceu. Hoje, o rendimento dela é 50% superior ao registrado no passado.

A psicóloga explica que a maternidade é um marco na vida da mulher, um momento que a faz rever valores e repensar os propósitos da vida. E diante de tantas alterações, a carreira, que é um pilar importante, não poderia ficar de fora. “É aí que entra o meu trabalho”, afirma. 

Mel desenvolveu um método que ajuda mulheres a se encontrarem no mercado de trabalho. Algumas desejam mudar completamente o ramo de atuação. Outras querem se reinventar dentro da própria profissão. Mas, para o negócio dar certo, ela pondera que é necessário saber o que gosta e saber fazer.

O programa criado por ela dura sete semanas e, durante este período, a mulher aprende a se conhecer e a estruturar um negócio com o qual ela se identifique.

Testá-lo também faz parte do PMC. Segundo Mel, cerca de 300 mulheres já passaram pelo programa e, dessas, a esmagadora maioria consegue se reencontrar profissionalmente. “Às vezes, a pessoa tem certeza de que nasceu para aquela profissão. Mas, depois da maternidade, tudo pode mudar”, afirma. 

E foi exatamente isso o que aconteceu com Danielle Ribeiro. Depois de atuar por 17 anos como diretora administrativa e financeira de uma empresa com mais de 40 anos, ela se viu grávida do terceiro filho, a tão sonhada menina. 

Danielle, que sempre foi apaixonada por processos administrativos e estava acostumada a trabalhar mesmo durante a licença maternidade, foi tomada pela necessidade de acompanhar os filhos mais de perto. 

A até então executiva se permitiu ficar um ano com as crianças. Nesse tempo, ela decidiu estudar técnicas de disciplina positiva, uma abordagem sócio-emocional que ensina a desenvolver habilidades de vida no longo prazo. Aos poucos, Danielle foi se envolvendo cada vez mais com os conceitos.

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Demitida após dar à luz, a confeiteira Luh Maia abriu o ateliê Sugar Sweet Patisserie

Um dia antes de voltar a trabalhar, no entanto, ela descobriu que estava grávida do quarto filho. Foi o que faltava para pedir demissão e entrar de cabeça nos estudos. Hoje, ela tem certificações internacionais em disciplina positiva e parentalidade positiva, que promove a relação entre pais e filhos baseada no respeito mútuo, e realiza palestras ajudando outros pais. 

“É o que eu realmente amo fazer. Me sinto realizada como mãe e profissional”, diz. E o melhor: a renda é a mesma de quando ela exercia um cargo no alto escalão de uma companhia conceituada. 

Demissão após gravidez

Nem sempre a decisão de empreender é tomada de forma pensada, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida da mulher. Muitas vezes, abrir o próprio negócio é a única maneira de retornar ao mercado de trabalho e gerar renda. Conforme pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV), 48% das mulheres são demitidas até 12 meses após o nascimento do filho. O cenário é desolador, mas muitas mães conseguem dar a volta por cima.

A confeiteira Luh Maia foi demitida em 2014, logo após dar à luz ao terceiro filho. Foi então que ela retomou uma antiga atividade: a confeitaria. 
“Eu já tinha feito algumas coisas quando estava grávida do meu primeiro filho e até consegui pagar o quartinho dele vendendo chocolate na época da Páscoa. Mas não era uma profissão, era para ganhar um dinheiro extra”, lembra. 

Quando o bico virou profissão e o ateliê Sugar Sweet Patisserie saiu do papel, as coisas deslancharam. Hoje, Luh é referência em bolos feitos para “smash the cake” (ensaios fotográficos em que o bebê destrói a guloseima) e entrega doces e bolos para pelo menos duas festas por semana. A renda mais que dobrou. 

O próximo passo é ensinar outras mães a colocar a mão na massa. Em meados de setembro, ela pretende inaugurar o Centro de Ensino Sugar Sweet, onde aulas serão ministradas. Apesar de trabalhar mais de nove horas por dia, conforme 39% das empreendedoras, ela destaca que a flexibilidade compensa. “Continuo sem trabalhar em casa, mas faço o meu horário e isso é compensador. Se meus filhos precisarem de mim na escola hoje eu tenho como ir”, comemora.

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Após descobrir a gravidez do quarto filho, Danielle Ribeiro pediu demissão e criou projeto voltado para pais e crianças

A pedagoga Tatiana Marchi também não trabalha em casa, mas conseguiu acompanhar todo o desenvolvimento do filho ao mudar de carreira. E o resultado financeiro foi compensador. Ela, que atuava como jornalista há cerca de 10 anos, decidiu cursar pedagogia quando engravidou, e, há anos, trabalha na mesma escola em que o filho estuda. 

Recentemente, ela abriu o consultório Entre Laços, onde atua como psicopedagoga. “Consigo uma renda superior e ajudo mães e pais auxiliando no processo social, cognitivo e na alfabetização de crianças”, conta.