Belo-horizontinos encontraram uma alternativa sustentável e econômica para vencer a crise econômica e o desemprego. As food bikes, bicicletas adaptadas para o comércio de produtos, têm sido uma oportunidade para muita gente que quer abrir o próprio negócio com um investimento barato e retorno rápido.

Em 2014, quando a estudante de direito Carolina Coscarelli organizou o 1º Encontro de food bikes de BH, eram apenas 13 delas. A ideia se expandiu e esse número triplicou, segundo os empreendedores, que vendem doces, café com grãos moídos na hora, chope, drinques, sucos naturais, espetinhos, batatas e lanches em geral.

A luta agora é pela regulamentação do comércio sobre duas rodas e triciclos. O Código de Posturas do Município permite comércio de produtos em logradouros públicos somente em veículos adaptados acima de 1,5 tonelada. Com isso, donos das bikes só podem trabalhar em eventos fechados. Mas muitos se arriscam nas ruas e também pedalam para fugir da fiscalização.

Carolina conta que começou a vender doces quando sua mãe ficou desempregada. Ela investiu R$ 6 mil na adaptação da bike e hoje vende cupcakes, bolos de potinho, pão de mel e palha italiana, que custam entre R$ 4 a R$ 10. O sucesso do negócio foi tanto que a universitária criou a empresa Chocake Ateliê de Doces. Agora, além da bike, ela tem um food truck, uma kombi estilizada que chama a atenção por onde passa. “Minha empresa deu um boom muito rápido. Venci a crise com a minha food bike”, afirma.

Antes, Carolina estacionava sua bike ao lado de uma igreja da Rua Piauí, no Bairro Funcionários, com autorização do pastor. Hoje, só participa de eventos fechados com a “magrela”.

O autônomo Raphael Carlos Oliveira Dias Pinto vendia e instalava aquecedores solares, mas o mercado “esfriou”, segundo ele. Há um ano e seis meses, ele próprio construiu sua bike food para vender chope, a Raphael Bike Beer. “Não consegui trabalhar mais com aquecedores. Pesquisei e tinha muita bike de doces. Decidi pelo chope. Tem bike vendendo de tudo. Com a crise e o desemprego, elas só aumentam a cada dia”, diz Raphael, que está fazendo outra bike para vender batatas rústicas.

Em Belo Horizonte não existe fábrica de food bikes. “Ou a pessoa faz a sua ou compra pela internet de lojas de São Paulo ou do Rio”, diz. Segundo ele, toda semana surgem duas ou três food bikes novas na capital, 80% delas vendendo doces.
Nos sites de venda, os preços das bikes variam de R$ 1,7 mil a R$ 6,5 mil. Triciclos chegam a custar R$ 10,2 mil. Em outros sites, empreendedores ensinam a montar o negócio e a fazer a própria bicicleta.


Nos sites de venda, os preços da “magrela” variam de R$ 1,7 mil a R$ 6,5 mil. Já os triciclos chegam a custar mais de R$ 10 mil


 

 

Donos das “magrelas” driblam fiscalização para evitar multas


O vereador Professor Wendel Mesquita (PSB) anunciou ontem que está elaborando um novo Projeto de Lei (PL) para regulamentação da atividade das food bike em Belo Horizonte e que deve apresentá-lo na próxima semana.

Em janeiro, o prefeito Alexandre Kalil vetou o Projeto de Lei 1.619/15, de autoria ex-vereador Adriano Ventura (PT), que alterava o Código de Posturas para tirar as food bikes da informalidade. Em março, o veto ao PL foi mantido pelo plenário da Câmara Municipal e o mesmo foi arquivado.

“O outro projeto tinha erros jurídicos. Eu me propus a dar continuidade ao projeto anterior, uma vez que eu apoiava a proposta do vereador que não foi reeleito. O projeto agora tem princípio legal”, afirmou Wendel. No veto, Kalil considerou tratamento desigual aos demais veículos de tração humana.
Com isso, muitos donos de food bike driblam a fiscalização correndo risco de ter a bicicleta e produtos apreendidos e pagamento de multa de R$ 1.902,65. O vereador Mateus Simões (Novo) também disse ser favorável à legalização e que votou pela rejeição do veto do prefeito.

CONCORRÊNCIA

A doceira Renata Aguilar Zschaber também “pedala” para vender seus brigadeiros goumert, palha italiana de colher e pão de mel. A loja de doces que ela abriu na Rua Anhanguera, em Santa Tereza, Região Leste, fechou depois de seis meses. “Procurei o dono de uma oficina de bike e ele fez a adaptação para mim. Mandei uma gráfica fazer os adesivos e adorei o resultado”, conta Renata, que criou a Santa Brigaderia Bike.

“Chego a trabalhar 48 horas seguidas por conta de encomendas, correndo atrás de eventos. O negócio está dando certo. O problema é a concorrência. Só de brigadeiro conheço várias food bikes”, reclama.


DJ se especializa em adaptar bicicletas para o comércio

O DJ e produtor cultural Luiz Valente montou ele próprio duas bikes para vender sucos, drinques e café. Criou a BiceRangos, empresa de alimentos e bebidas. Detalhe: o cliente tem que pedalar para acionar o sistema mecânico do liquidificador e moedor de café em aço fundido, dos anos 60, acoplados na parte traseira das bikes batizadas de CicloSuco e PedalEspresso. Nenhum equipamento usa energia elétrica. A máquina de café expresso inglesa funciona com a força do braço.

Food Bike em BH

“PROFESSOR PARDAL” – Clientes de Luiz Valente têm que pedalar para acionar sistema mecânico do liquidificador e do moedor

 

“Eu tinha duas bikes-cargueiro e fiz os projetos. Tornaram-se uma fonte de renda paralela”, conta Valente, que semana passada faturou uma boa grana nos três dias do encontro de prefeitos da Associação Mineira dos Municípios, no Expominas.

O “Professor Pardal de Minas” possui um selo chamado Vinyl Land Records e também construiu a bike Auto Sound System, uma carretinha com toca-discos para vinil e caixas de som toda movida à energia solar e pedaladas.
“É uma espécie de mini-palco, algo ligado mais ao meu trabalho. Comecei a ser chamado como DJ em eventos abertos”, conta.

OLIMPÍADAS

Em outro projeto, ele construiu quatro bikes para o pavilhão da Dinamarca nas Olimpíadas do Rio, onde as pessoas pedalavam para carregar a bateria do celular. “Não conheço nenhuma empresa especializada em adaptação de bikes para o comércio. Os projetos que chegam para mim, eu faço”, disse.

 

SAIBA MAIS

Caroline Carvalho dos Santos é doceira há 15 anos. Trabalhava com encomendas e deixava seus produtos em pontos de vendas como padarias e restaurantes. Em janeiro do 2015, ela investiu R$ 2 mil na adaptação de uma bicicleta-cargueiro e viu seu negócio crescer.

“Reduzi os doces nos pontos de venda para dar conta dos eventos”, disse. A bike dela tem uma vitrine na frente e uma estufa refrigerada na parte traseira, onde ficam as tortas. “O retorno financeiro tem sido muito bom. Seria mais ainda se a gente pudesse ir para as ruas e não ficar só em locais fechados”, conta a doceira.

Na sexta-feira, ela disse ter procurado a secretária municipal de Serviços Urbanos, Maria Caldas, acompanhada de uma vendedora de milho, para pedir informações sobre o projeto de regulamentação vetado pelo prefeito e sobre a possibilidade de um outro ser apresentado.

“Pretendemos fazer um apelo aos vereadores reunindo nossas bikes na porta da Câmara, para mostrar tudo o que a gente tem”, disse Caroline, que prefere cumprir a lei e não se arriscar nas ruas, diante do risco de ter a bike e os produtos apreendidos e ainda ser obrigada a pagar a multa pesada.