As mãos do pianista convidado Barry Douglas magistralmente executavam “Concerto para Piano nº 2 em Sol Maior” e o público parecia não respirar. Imobilizado, lotava a Sala Minas Gerais para apreciar a Filarmônica, numa noite de quinta-feira. Não há público mais atento e integrado que o da música erudita. Mas os minutos incontáveis de aplauso ao final são compartilhados por perfis diversos.

Elena de Magalhães tem 83 anos e traz de família o gosto pela música clássica. Toca violão, é cantora soprano e assinante da Sala Minas Gerais para os concertos de quinta e sábado. De outro lado está Igor Rocha, 22 anos, cujo único contato com a música, na infância, veio com um velho piano na casa da avó. Escolheu a arte para sua vida e é estudante de Música na UFMG.

O público da Filarmônica cresce a cada ano. Criada em 2008, a orquestra somou, no ano seguinte, 705 assinantes – que compram antecipadamente os ingressos para a temporada de concertos. A cada ano o número se multiplica. Em 2016 são 3.320 pessoas compromissadas com as execuções de clássicos, executados por violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, flautas, oboés, clarinetes, fagotes, harpas, tímpanos, percussão e outros instrumentos.

Olívia Beanc

Olívia Beanc tem apenas 15 anos e está sempre acompanhando o trabalho do pai, Werner Silveira, do time da percussão. Gosta também de pop e é fã da banda inglesa Radiohead. “A música clássica toca muito pelo não racional, diferentemente de outros estilos”, define, mostrando não ser à toa que faz parte desse público.

O maestro Fabio Mechetti, regente e diretor artístico da Filarmônica, acredita que a inauguração da Sala Minas Gerais, no Barro Preto, com acústica perfeita, foi um convite irrecusável para mais admiradores da arte musical. “O público da Filarmônica é de grande diversidade. Aqui temos mais jovens do que em concertos na Europa e Estados Unidos”.

Menos idas a Nova York

José Tomaz Gama da Silva, 66 anos, diz ter uma relação de amizade com a Filarmônica. Professor aposentado da Universidade de Ouro Preto (Ufop), ia a Nova York, com a mulher, Thaís Silva, três vezes ao ano para assistir aos concertos. “Agora só vou para as óperas. Compro o ingresso mais barato, no lugar mais distante do palco, ponho meu binóculo e aprecio. Para bons concertos não preciso mais viajar”.

Davi Camissasa, 22 anos, estuda música na UFMG e ingressou criança na Fundação de Educação Artística, “A música é a minha vida e o piano é o meio que escolhi. Acho que as pessoas não podem se fechar num gosto musical”. Para ele, a própria Filarmônica se aperfeiçoou com a Sala Minas Gerais. “O padrão da orquestra subiu”. Ele também gosta de cinema e de viajar, de coisas “para respirar”, mas passa a maior parte do dia em contato com a música.
 
Fãs do Rio de Janeiro

O público que a harmonia da Filarmônica vem cultivando não é exclusivo de Belo Horizonte. No próximo dia 7, um grupo formado por cerca de 15 pessoas embarca no Rio de Janeiro com destino ao Barro Preto. O responsável pela viagem, Rafael Fonseca, promove esse encontro entre amantes da música clássica e orquestras em várias partes do mundo.

Hoje, ele está em Baden-Baden Salzburg, na Alemanha, para os concertos de Páscoa. “Eu não pude estudar música, mas há dez anos levo grupos até as orquestras. Vou a BH duas ou três vezes ao ano e a Filarmônica proporciona prazer a essas pessoas”.

Viajam com Rafael pessoas com mais de 60 anos, a maioria aposentada, de alta renda. Uma das conse-quências do convívio entre um concerto e outro é a amizade ou até o amor. Conta Rafael que pelo menos três casais se formaram entre os viajantes.

Elma de Magalhães Lima, 83 anos, foi ao concerto ver o sobrinho Marcelo Cunha, contrabaixista da Filarmônica. A música, para ela, é o canal para o sossego. “Ouvir é viver um momento só meu. Sou de uma família musical, de Santo Antônio do Monte, e essa orquestra é um tesouro. A sala é a apoteose!”.

Fã-clube familiar
 
João Pedro Neder tem 14 anos e estuda piano numa igreja perto de casa. A avó era pianista e deixou de herança o gosto pela música instrumental. Na última quinta-feira, estava pela quarta vez compondo o público da Filarmônica de Minas Gerais.

João Pedro, Valter Lima, Patrícia Neder

Para levar o filho aos concertos, ali estava a mãe, Patrícia Neder. “Temos na família pessoas que tocam, então o gosto pela música clássica toma conta de todos nós. E agora com o João Pedro estudando piano, eu o acompanho”. Ela atribui à música da orquestra o poder de tirá-la da agitação do dia a dia.

O pai, Valter Lima, estreava na companhia dos fãs da Filarmônica. “Ouvi dizer que esse pianista que vai tocar (Barry Douglas) é ótimo, e o fato de ser de fora, do exterior, é bem interessante, pois certamente traz outras ideias, outras riquezas, não é?”.

Feliz com a primeira vez do pai na Sala Minas Gerais, João Pedro fala pouco, mas em uma palavra é capaz de definir a música erudita: “essência”. Valter, no entanto, não é novo no circuito. Em casa, gosta de fazer suas tarefas ouvindo Bach, Mozart, Beethoven e Tchaikovsky.

Alto astral

Maria Emília Pinheiro, 70, aprecia o trabalho do maestro Fabio Mechetti. “Ele levanta o astral da música em Belo Horizonte, é um trabalho de padrão internacional”. Fiel às apresentações da Filarmônica há anos, estudou piano e agora faz aulas de violão.

O marido de Maria Emília, Ivan Martins, 80 anos, não concebe uma semana sem ao menos uma ida ao concerto. O casal é assinante das quintas e sábados. “Outra coisa boa é que fazemos amizade aqui, sempre conhecemos outras pessoas que frequentam a Sala”.