Com o recém-lançado CD “Fábula”, a cantora Cris Braun volta ao mercado fonográfico após um hiato considerável – a moça de 49 anos, nascida em Estrela, Rio Grande do Sul e radicada em Maceió, Alagoas, estreou na ribalta com o disco “Cuidado com Pessoas Como Eu” (1997), que foi seguido por “Atemporal” (2004). Portanto, ela estava há oito anos sem lançar um álbum!

Mas nem por isso parada. “Fábula” consumiu três anos em seu processo de feitura. Bem, um tempo igualmente considerável. “Mas não se pensarmos que, como é um disco independente, e contei com a parceria de músicos e produtores amigos, que têm muito trabalho e pouco tempo. Fomos no tempo de cada um. O tempo natural”, justifica a ex-vocalista do Sex Beatles, ao Hoje em Dia.

“Eu tinha uma canção e uma ideia, um conceito. Fui montando o quebra-cabeças, ao longo desses anos”. Na verdade, era como se Cris tivesse “um filminho na cabeça”. “Um ser vem ao mundo na sua pureza, e naturalmente perde essa inocência no decorrer de sua vida. Amores, desamores, ambições, fascínio, perda, ilusão, desilusão, ira, endurecimento da alma, e... depois a paz, a redenção. E mesmo tendo perdido a pureza inicial, ele, amadurecido, expurga suas mágoas e fica em paz”, filosofa ela, sobre o processo de construção do repertório.

O disco traz 11 faixas, incluindo pérolas de gente do naipe de Wado. “Ossos”, por exemplo, fala da efemeridade da vida e de, ante essa constatação, da pertinência do que seria uma bem vinda dose de humildade, um artigo em escassez no mercado. Certo, Cris? “Totalmente. Nunca fomos tão arrogantes consumistas e doentes da alma”, assente.

Aliás, “Ossos” se conecta com a bela “Cidade Grande”, também de Wado, que fala, por exemplo, de como os mendigos se tornam seres invisíveis...

Tango Samba Mexican

Um certo ar de tango dita “Tanto Faz Para o Amor”, muito bela. “Na verdade, é um tango samba mexican (risos). Linda, do Lucas Santtana e do Quito Ribeiro”, diz a moça. Outro destaque do petardo é a releitura de “Deve Ser Assim”, do repertório de Marina Lima.

“Marina e Alvin L fazem parte da minha história musical. A música é linda, e se prestava para representar o tal momento do tal personagem da tal historinha”, diz ela, aludindo ao já citado “momento filosofia”. A faixa “Artérias”, bem roqueira, e “Terra do Nunca Mais” (mais delicada, curtinha) são instrumentais. “Artérias” representaria a ira. “E tão grande que não tem palavras”. Já “Terra do Nunca Mais” seria um ritual de passagem, sem palavras. “Mas vieram, nasceram assim, antes do conceito do CD estar fechado. E magicamente se encaixaram no meu quebra-cabeças”.

Um dos destaques é a faixa “Memória da Flor”, na qual a cantora divide os vocais com Celso Fonseca. Escute: