Café com Letras, 15h30 de segunda-feira. Era para ser apenas uma entrevista, mas o encontro com Chico Amaral se tornou uma divertida conversa sobre a música mineira. Com direito a um flagrante: no meio do papo, o saxofonista convidou o amigo Nelson Ângelo, que estava sentado ao seu lado, para participar do show no Palácio das Artes.

"Você acha que consegue tocar a guitarra do Magno (Alexandre)?" A resposta foi imediata e cheia de entusiasmo: "Claro que sim! Fico ali mais quietinho, pois não sei ainda qual é o arranjo". A música em questão é bastante especial para ambos. "Canoa, Canoa" é uma das composições mais representativas da carreira de Nelson e é a faixa que abre o segundo álbum de Amaral.

O show em questão é o de lançamento do disco "Província", que acontece nesta quarta-feira (25), na Noite de Gala do Savassi Festival. Na ocasião, o instrumentista também receberá o Prêmio Jazz de Minas 2012, concedido pelo evento.

No palco, um seletíssimo grupo de instrumentistas que tiveram importância incontestável para a música mineira: Magno Alexandre (guitarra), Ricardo Fiúza (teclados), Enéias Xavier (baixo) e André "Limão" Queiroz (bateria). Além da participação de Nelson Ângelo, Túlio Mourão toca piano em "Moça de Fino Trato", de sua autoria, e o jovem trompetista Wagner Souza estará em dois momentos.

O tom de celebração da apresentação tem tudo a ver com "Província", disco em que Chico homenageia a música mineira. As belas "Pedra da Lua", "From the Lonely Afternoons" e "Bolero de Ana" são algumas das faixas.

"Dei o nome de 'Província' porque ali estão apenas compositores mineiros e porque o repertório representa bem o DNA da música mineira", conta Chico Amaral. "São grandes composições. Você sabe quando uma música é boa quando você aprende com ela".

Artista foi importante para a cena local do jazz

Se hoje Belo Horizonte tem uma boa cena jazzística, boa parte dos créditos se deve a Chico Amaral. Em 1998, quando deixou de excursionar com o Skank, mesmo continuando a ser um dos principais compositores da banda, o saxofonista decidiu investir na carreira de instrumentista.

Pouco antes da mudança, Amaral já estava se apresentando pela noite belo-horizontina. Foi ele quem teve a ideia de levar o jazz para o Café com Letras, fato que, em pouco tempo, culminaria na criação do Savassi Festival pelo dono do estabelecimento, Bruno Golgher.

"A oficina do instrumentista é o bar, é a noite. É assim que lidamos com a improvisação e a liberdade", afirma o saxofonista de 55 anos. "Em 1996, a cena do jazz estava meio apagada e contribuímos para o seu aquecimento. Hoje, Belo Horizonte tem a feição de cidade da música instrumental".

A cena cresceu porque houve aposta de vários espaços na cidade para um repertório autoral. Outro fator catalisador é a interação entre músicos mais experientes com aqueles que estão entrando no mercado.

"Os músicos jovens me procuram para saber opinião, para shows, para gravações no disco. Sempre vou", diz Amaral, que está desenvolvendo um livro sobre Milton Nascimento e, consequentemente, sobre a música jazzística de Minas.